Analisando séries e filmes de super-heróis XXVII

WandaVisão: A catastrófica dor de uma perda

Sim, vai ter spoiler, mas essa bagaça já foi lançada no streaming há um tempão! Então, ou você contratou a Disney+ e viu, ou baixou torrent. SIM, VOCÊ BAIXA TORRENT QUE EU SEI! Mas se você ainda não teve oportunidade de ver, beleza, mas fique avisado que eu vou contar até o final da série, que na verdade não é uma série, e sim um filme de 5h20min.

Primeiro de tudo, vamos desconstruir uma mentira. Não, WandaVisão não é uma homenagem à TV, como foi dito na época. Primeiro, porque o Feige ODEIA TV, o que eu também já falei antes. Em segundo lugar, porque você já deve ter lido outros artigos desta série que estou escrevendo, e sabe como a Disney trabalha: ela te leva pelos pastos calmos daquilo que você conhece. Ela não inova, ela não cria, ela não arrisca. Como eu já falei antes, Disney criou seu plantel MCU pegando elementos bem conhecidos das pessoas, como filmes de assalto, filmes de guerra, de fuga da prisão etc. No caso de WandaVisão é a mesma coisa. Eu não sei quem ou como tiveram esta ideia, mas foi um achado para justificar um monte de erros de roteiro que foram se formando, mas, aos poucos, Disvel está fazendo seu Crise Nas Infinitas Terras. Malfeito, mas está.

Segundo o que me parece, os idealizadores viram os nomes dos dois, juntaram e… está bem ali. Talvez não seja perceptível no primeiro instante (eu mesmo não percebi no primeiro instante, até chegar no segundo capítulo). Foi assim? Não sei.

WandaVisão ou Wandavisão é a TV da Wanda, na mesma medida que Televisão é uma “visão” à distância. Então, CLARO! TV. O que as pessoas mais têm em comum? TV. Todo mundo assistiu ou assiste TV. Mesmo quem não gosta de TV assistiu TV e vai reconhecer elementos básicos e se sentir confortável. E o que é mais clássico nas TV do que as sitcoms? Sitcoms, ou comédias de situação, já vinham do teatro. As sátiras eram sitcoms, e sátiras, segundo a definição de hoje, são sitcoms.

O símbolo do teatro são aquelas duas máscaras: a comédia e a tragédia; mas a rigor, eram três estilos: comédia, sátiras e a tragédia. Do teatro grego, começa-se com o dramaturgo Aristófanes (447 A.E.C. – 385 A.E.C.) e suas obras. As primeiras comédias eram principalmente satíricas, ridicularizando homens no poder por sua vaidade e tolice, eram deboches e ria-se de todo mundo, ainda que não se nomeasse, já que ninguém iria querer receber uma visitinha de guardas, seguranças ou sicários, mesmo. As pessoas sabiam de quem estava-se falando, e quem era o alvo também sabia, mas era esperto o suficiente para ficar na sua para não admitir a crítica. Percebam que as sátiras neste tempo não tinham o significado que têm hoje. As sátiras eram narrativas diferentes, ainda que humorísticas (mas nem sempre), criando um mundo paralelo, como uma analogia. A Revolução dos Bichos seria uma sátira à Revolução Russa,mas nem de longe é uma obra humorística, e sim uma tragédia, mas disperso-me.

Menandro (342 A.E.C. – 291 A.E.C.) escreveu comédias sobre pessoas comuns em situações comuns com um ponto de vista cômico, e as pessoas apontavam e riam de si mesmas, pois se reconheciam e reconheciam as situações. É essa a origem das comédias de stuação ou sitcoms. Sendo o serviço Disney+ um serviço de canal de TV por streaming, fazia muito sentido associar sitcoms com o filme (de 5h20min) disfarçado de série. Mais uma vez, as pessoas ficaram confortáveis com uma fórmula antiga e se funciona, funciona. Disney provou mais uma vez que ela não faz produções baseadas em quadrinhos, e isso é levado até a luta final, mas vamos seguir uma linha cronológica que não está na série, já que o que acontece antes é mostrado depois.

Primeiro de tudo, eu gosto sempre de abordar: sobre o que é WandaVisão? A resposta é simples: sobre perda, dor e luto; essencialmente uma história de amor perdido por causa de uma fatalidade; é um filme sobre solidão e desespero. Para entender o ponto central do filme-disfarçado-de-série, é preciso entendermos o Modelo de Kübler-Ross. O modelo se baseia no que Elizabeth Kubler-Ross determinou serem os 5 estágios do luto. Negação, Raiva, Negociação, Depressão e Aceitação

A negação veio quando Wanda sentiu que perdera o Visão nos eventos de Guerra Infinita, em que ela tentou (e conseguiu) destruir a Joia da Alma, e o fez enquanto segurava Thanos com seu poder usando a outra mão. Só isso nos dá o tom de seu poder, que eu abordarei mais pra frente. A Raiva veio quando ela enfrenta Thanos em Ultimato e mostra o que é uma mulher puta da vida com TPM Cósmico, e precisou o Titã Louco ordenar um ataque massivo sobre todo mundo ou ia dar muito ruim pra ele. Depois disso, ela mostra um pouco da sua raiva (só um pouco ou não teria sobrado nada) quando soube que o corpo do Visão estava na sede da SWORD (aportuguesaram para ESPADA) – agência governamental sobre a qual eu também falarei mais para a frente – e tenta reaver o corpo daquele que ela ama. Tendo negada esta possibilidade, ela parte para a Negociação. Ela quer ter o corpo para ter um sepultamento digno, mas o diretor da SWORD, Tyler Hayward, não permite que ela o leve. O Visão é uma máquina extremamente complexa e, como dito, valia bilhões de dólares em Vibranium, embora o interesse não fosse bem o valor de mercado em termos do metal mais raro do planeta, já que gastam muito mais que isso com o orçamento militar.

Wanda olha o Visão desmembrado, sua cabeça com o buracão onde estava a Joia da Mente e vai embora amargando o quarto estágio: Depressão. Ela entra no carro e vê um bilhete do Visão, com um panfleto; ela segue o endereço e acaba indo parar na cidadeca cenográfica de Westview e vê o espaço que na verdade é um terreno baldio, mas que seria a casa de ambos, seu lar doce lar. A dor que ela sente se torna tão grande, tão avassaladora, tão profunda que seu poder sai do controle dela e ela cria um constructo, a casa é montada do zero, toda Westview fica presa numa imensa caixa e seus moradores também. O poder de Wanda recria o Visão e todo um cenário das sitcoms que Wanda via quando criança. Isso lembra muito quando Hal Jordan entra em desespero quando viu que Coast City foi destruída por Mongul e o Ciborgue.

A diferença é que Hal Jordan usa o poder do anel energético para recriar a cidade e as pessoas, num surto de loucura, que mais tarde se descobrirá que ele estava sendo possuído pelo Parallax quando ele entra na Bateria em Oa e é infectado lá.

No caso de Wanda, o poder do caos sai do seu controle e recria quase por vontade própria, independente da vontade consciente de Wanda, e a própria Wanda fica presa. Fica presa na cidade, fica presa em seus próprios desejos, presa na sua dor.

O imenso desejo de ficar com Visão e ter filhos acabou por criar tudo. Sim, inclusive as crianças, que não existiam de fato, mas elas serão importantes futuramente, bem futuramente, e não nessa série. Foi uma imensa dor para Wanda perder o Visão de novo e os filhos que nunca teve de fato, mas eles simplesmente apareceram.

Mas eu estou citando algo que aconteceu ao longo dos episódios. Até o quarto ficou muito lenga-lenga na tradição Disney de 80% da produção ser enche-linguiça e só 20% ir ao que interessa. Ela poderia ter feito o WandaVisão em um único filme de 2 horas, 2h30min, mas não era este o intento, pois ela precisa gerar conteúdo pro Disney+, fazendo por onde as pessoas assinem o serviço. Disney foi pelo lado seguro, uso de sticoms e episódios lançados semanalmente. Mesmo para a geração 3 minutos do YouTube, foi o máximo e agora estão fazendo maratona para rever e encontrar os detalhes.

Vamos agora analisar a produção: ela foi extremamente bem-feita. Os episódios parodiando Dick Van Dyke Show, I Love Lucy, A Feiticeira e tantos outros. Seguiu a mesma receita, desde o formato 4:3 até os efeitos práticos e in camera.

A diferença é que o efeito prático é utilizado elementos invisíveis, como arames para suspender coisas, por exemplo. Já os efeitos in camera são aqueles que podem ser feitos direto na câmera, como por exemplo, filmar algo caindo e inverter a linha do tempo, dando a impressão que os cacos se juntaram novamente.

Os primeiros episódios usaram aquelas famosas trilhas de risada de fundo e gravados num estúdio com plateia e consultoria do próprio Dick Van Dyke. O próprio videografismo está com a estética e textura das séries antigas, saindo do lugar-comum de representar filmes velhos em preto-e-branco simplesmente tirando as cores. Isso é visto ao longo de todos os episódios que mimetizam séries antigas, mesmo as coloridas, com aquela saturação esquisita do que era produzido nos anos 70 e 80.

Então, vamos para a história propriamente dita e, como sempre, ela não faz sentido.

Pelo que é dito na série, a SWORD existe desde antes o “blip”, quando Thanos varreu 50% dos seres vivos do Universo, já que Monica Rambeau estava no hospital ao lado de sua mãe, e reapareceu lá, sendo que ela já ocupava o posto de capitão e trabalhava pra SWORD. SWORD parece ter substituído a SHIELD, depois que esta praticamente foi desmantelada durante os eventos de Soldado Invernal, quando ficou demonstrado que estava sob controle da HYDRA. Por que a SWORD não estaria? Não foi dito, nem será.

A SWORD começa a investigar o que acontece em Westview e chama vários especialistas. Entre elas a drª Darcy Lewis, a astrofísica de dotes frontais pronunciados que apareceu em Thor 1, e esta cena me lembrou do filme A Experiência, em que chamam vários especialistas para cuidar de uma ameaça que eles não faziam ideia do que era, mas para terem sido chamados, é porque a coisa estava feia (há esta menção tanto no A Experiência quanto em WandaVisão, mostrando que é uma “homenagem”, cof cof cof). Outros personagens de filmes do MCU também aparecem, como o agente Woo, que aparece em Homem-Formiga. De acordo com o roteirista, os dois personagens foram… cahan… sugeridos pela Marvel e ele claaaaaaaro, deu um jeito de colocá-los lá.

Ao chegar no acampamento da SWORD, eles captam transmissão do que acontece em Westview porque… não sei. Parece que tudo virou uma transmissão de ondas eletromagnéticas, embora nada chegue lá muito fácil, numa imensa gaiola de Faraday semipermeável. Ah, sim. Eles catam uma TV de de tubo porque, por algum motivo que não é dito, ela captaria melhor os sinais do que modernos equipamentos.

Em artigos anteriores, eu falei pra vocês que Marvel e Coerência nunca andaram juntas. Bom saber que eles gostam de manter um padrão.

Aqui começamos com o festival de insanidades sem sentido da série.

Descobrimos que a vizinha enxerida que aparece se apresentando como Agnes é Agatha Harkness (perceberam a contração do nome e sobrenome? Hein? Hein? Hein?). Ela é uma bruxa da antiga Salém que roubou os poderes de outras bruxas porque… sim. Ela vai parar em Westview porque… sim. Ela só ficou interessada em Wanda naquele momento porque… sim. Wanda enfrentou Ultron, fez aquela cagada em Lagos, apareceu na Alemanha, enfrentou Thanos… , mas Agatha não deu a menor bola para isso.

A Agatha Harkness nos quadrinhos é muito mais velha, poderosa e sábia. Harkness foi criada por Stan Lee Jack Kirby, tendo aparecido primeiramente em Quarteto Fantástico nº 94. Ela estava viva quando Atlântida fora devorada pelas águas do oceano, esteve presente nos principais eventos da História e tem poderes místicos e conhecimento enciclopédico que faria até mesmo um Mago Supremo, como o dr. Estranho, evitar desafiá-la. a

Em diversas vezes, Agatha Harkness ajudou o Quarteto Fantástico e não pode ser bem considerada como uma vilã. Anti-heroína, talvez, mas ela tem uma visão mais sábia e longa pelos milênios de conhecimento e experiência que acumula, sendo uma pessoa indecifrável. Agatha recebe e se torna a mestra e mentora da Feiticeira Escarlate no uso de feitiçaria, no que a Marvel ficou com um problema e tentou resolver, e o problema é magia.

Marvel (mesmo nos quadrinhos) nunca trabalhou direito com magia e entidades místicas. A Feiticeira Escarlate fazia seus unga-bungas, tendo aparecido no número 4 de X-Men, tendo sido alçada a mutante nível ômega, uma das mutantes mais poderosas, enquanto seu irmão – o kibe do Flash – detinha o gene X que lhe daria capacidade de hipervelocidade. Basicamente, o poder de Wanda era meio que fazer as armas dos inimigos não funcionarem. Sim, ela dava azar ao pessoal e mudava algumas probabilidades, mas isso foi escalonando com o tempo.

Mas calma! Ainda decidiram que Wanda e Pietro Maximoff eram filhos do Magneto porque…

Bem, porque sim!

Steve Englehart achou que Wanda não estava muito condizente com seus poderes como sendo uma mutante e deixou a personagem mais poderosa ainda fazendo dela uma feiticeira-feiticeira, cujo poder veio do demônio Chton quando ela era criança. Foi a pena de Englehart que fez Agatha Harkness a mestra de Wanda nas artes da feitiçaria, em contraposição ao “sabe porque sabe”. Ele também deu a Wanda maior controle sobre seus poderes.

Já Kurt Busiek mandou que como Wanda era filha do Magneto, ela conseguia manipular forças em nível subatômico, já que, se não tiver uma explicação canhestra à guiza de ciência, não serve pra Marvel, que volta a não aceitar feitiçaria como algo válido. O problema era o que Englehart tinha escrito, daí fazem mais um remendo alegando que, OW-KEY, Wanda era uma mutante, e manipulava forças subatômicas, mas Chton mudou tudo. Depois teve o lance que não é que ela era bem filha do Magneto e isso lhe deu poder, e sim que parte de Chton se apossou de Wanda quando ela nasceu, num samba do vuduzeiro louco.

A série é muito levemente baseada em Dinastia M, quando a feiticeira Escarlate surta e solta sua famosa frase “No More Mutants”, e toda a realidade é virada do avesso, pois este é o maior poder da Feiticeira Escarlate: moldar a realidade, e foi esta a desculpa que deram na série para a bomba das Indústrias Stark não explodir (não faz sentido, óbvio), mas ela era uma criança quando fez isso. Depois, ela e Pietro são banhados com o poder da Joia da Mente, e Wanda conseguiu os poderes de telecinese e controle mental, o que faz sentido por ser um dos poderes da Joia da Mente, enquanto Pietro vira o mutante Mercúrio, com poderes do Ligeirinho, o que não faz sentido pelo fato dos poderes da Joia não serem esse, mas pelo visto, tudo que acontece no MCU é por causa das Joias do Infinito.

Voltando à Agatha, de uma feiticeira velha como o tempo e extremamente poderosa, passou a ser retratada como vilã de série tipo iCarly (sim, eu sei que é do Nickelodeon. Mesma merda), numa tendência da Disney transformar todos os personagens da Marvel em personagens de suas séries chatas de/para adolescentes desmiolados, feitas por adolescentes desmiolados, pelo que percebo.

Sério, Disney?

Então entra em cena o Visão passado no Omo. Ele é um projeto da SWORD chamado Projeto Catarata. Você sabe: Visão -> Catarata. Quem teve esta ideia devia ser açoitado em praça pública. Não, claro, sobre a ideia de ter colocado o Visão Brancão. Ele é canônico, mediante a história “Vision Quest”, publicada nas edições dos Vingadores da Costa Oeste número 42 a 50, escrita por John Byrne. Nela, Visão e Wanda se mudam para os subúrbios e tiveram dois filhos. Visão é sequestrado, depois desmontado e Wanda entra em desespero ao vê-lo aos pedaços.

Os Vingadores conseguem recuperar as peças do Visão, remontá-las e carregá-lo com todas as informações que tinham sobre sua vida e o mundo ao seu redor. Mas ele voltou com a psique sem emoção que tinha antes. Não sentia mais nenhum vínculo especial com Wanda ou seus filhos; e como não conseguiram recuperar o tom de cores de seu corpo, surge o Visão Brancão.

O Visão Brancão duela com o Visão criado por Wanda e é interessante que eles têm um debate filosófico, mas como a magia da Wanda seria capaz de dotar o seu Visão disso? Não seria, é uma forma torta de escrever o roteiro para escapar da armadilha que os roteiristas mesmos criaram.

Nesse meio tempo, Mônica Rambeau ganha poderes para ser a futura Capitã Marvel. Ela atravessou o campo de força do Hex 3 vezes e isso mudou as moléculas do seu corpo. Eu já vi explicações para o ganho de superpoderes mais esquisitas. Entretanto, Mônica não faz muita coisa com seus superpoderes.

Enquanto isso, Agatha revela quem realmente é, mostrando o Livro Darkhold, e através dele descobre quem Wanda é: A Feiticeira escarlate, uma entidade de pura magia hiperpoderosa. O Darkhold é o Livro dos Amaldiçoados, tendo sido escrito pelo demônio Chton, que corrompe qualquer um que o leia.

Agatha Vilã Disney tenta enfrentar Wanda, porque a velha feiticeira queria os poderes de Wanda. Claro, perde (o rorteirista diz quem ganha e quem perde), e Wanda apaga a sua memória. Os moradores de Westview já sabem que é Wanda e como ela os prendeu lá. Ela decide voltar tudo ao que era antes, tendo uma comovente despedida de seus filhos e do próprio Visão e, por fim, de seu lar. Só sobra a desolação.

Aceitação.

Bem, Wanda não aceita. Ela vai amargar a dor ainda, e seu refúgio aparece na cena pós-crédito do último episódio. Não aquela casa nas montanhas. Ela se refugia em si mesma e no Darkhold, onde ela estuda e irá querer descobrir coisas, e isso será tão catastrófico quanto; mas fica para outro dia.

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