Analisando séries e filmes de super-heróis XXVIII

Dr. Estranho no Multiverso do Raimi

O novo filme do Dr. Estranho nada mais é que a continuação da tentativa (idiota) da Marvel de unir a zona que ficou com o MCU, o Marvelflix e o Universo Fox, pegando pitadas do Universo Sony. Esta confusão está sendo amarrada com barbante e colada com cuspe da maneira mais tosca da face da Terra, apelando para a série do Loki, as cagadas que a Wanda fez em Wandavision e aquela trapalhada do Miranha Sem Volta pra Casa. O filme começou tão bom (cof cof) que o diretor saiu por diferenças criativas (aka, foi chutado) e em seu lugar foi chamado Sam Raimi; e isso fez toda a diferença, já que Raimi cagou e andou pra Marvel e fez seu próprio filme: o Evil Dead versão PG-13.

Scott Derrickson deixou a direção do filme, ficando apenas como produtor executivo. Sam Raimi assumiu e a intenção era um filme mais voltado pro Terror, mas, CA-LARO no padrão Disney. Raimi disse “ok, beleza, tudo o que você quiser, Ratão!”, mas conseguiu meter um filme de terror-terror em muitas sequências, embora o que ele fez mesmo foi uma espécie de sequência de trilogia Evil Dead. Creio que um dos motivos é que o roteiro segue outro padrão Marvel: não fazer um puto de sentido; então, Raimi deu seu jeito.

Não, sério! O filme tem tanto erro de roteiro, que fica difícil apontar numa sequência, mas logo de início eu já falo um problema seriíssimo que ele tem: o vilão. Mas não vou entrar nesse assunto agora. O filme começa com uma das versões do Estranho, o Estranho Defensor (Defender Strange) correndo com América Chavez. América Chavez é uma mutante que tem a habilidade de criar portais transdimensionais e ser capaz de viajar pelo multiverso sem sacanear com a Realidade.

Sim, quando você viaja pelo multiverso dá muito ruim, o que chamam “incursão”, mas América consegue este feito sem afetar nada. O Estranho Defensor, com seu coque samurai hipster, tenta chegar junto com a menina ao Livro de Vishanti, enquanto foge de um monstro dimensional (monstro, demônio, você nomeia). O Livro de Vishanti é uma espécie de “livro santo”, em contraposição ao Darkhold, o Livro dos Condenados, já que, em tese, o Livro de Vishanti consegue desfazer tudo o mal que o Darkhold possa fazer. O demonho mata o Estranho Defensor e América abre um portal para outro Universo, mas à revelia dela. Ela não controla seus poderes.

América aparece na Terra-616, que é a “Terra principal” da Marvel, o que já foi referenciado até no filme do Miranha Longe de casa, só que ali já não fazia sentido, já que o Mysterio não era um viajante do Multiverso, e sim mais um dos que o Tony Stark irritara antes, mas ok, né? Se tá dizendo que é Terra 616, beleza. Como os outros multiversos chamam esta Terra por este nome é secundário. América chega e vem atrás dela um demonho de um olho só que eu pensei ser Shuma Gorath, mas a Lego fez o favor de meter logo um spoiler.


É o Gargantos. Não que faça alguma diferença, a propósito.

Estranho consegue bancar o super-herói e derrota o monstro e “enterra” o cadáver do Estranho Defensor num prédio (não pergunte), e a menina conta a sua história. Então, o Estranho vai pedir ajuda a alguém tão poderoso quanto ele, ainda mais que ele não é mais o Mago Supremo, e sim o Wong, que não faz nada digno de nota no filme, sendo que ele nem deveria ser mais Mago Supremo pois o Estranho voltaram do “blip”, quando Thanos varreu o Universo. Wong passa o filme todo só servindo de funcionário público, só aparecendo e nada agindo de efetivo.

Sobre o vilão, temos um dos maiores anticlímax. Nos primeiros trailers do Dr. Estranho, é insinuado que ele fez alguma merda, provavelmente numa alusão no feitiço que ele começou a fazer para o Tom Miranha e aquele maldito moleque cagou tudo, zoando com o Multiverso. Problema que a Disvel se lembrou que não gosta de surpresas e reviravoltas ao seu público. Tem que entregar tudo de bandeja já nos trailers, muitas vezes contando o filme todo lá. Com isso, no segundo trailer mostra a Wanda dizendo que se o Estranho faz merda, é visto como herói, mas quando ela faz é uma vilã.

Isso pode até parecer que ela está falando da cagada que o Estranho fez com o Miranha, mas ela não se lembraria. Ou se lembraria, já que ela é feiticeira? Mas nem o Estranho se lembrava! E na cena anterior, o Estranho vai pedir ajuda a ela. Bem, vamos ver o filme.

Aos 25 minutos, o filme faz o favor de dizer quem é o vilão: É Wanda, mesmo! Nada de desenvolvimento, nada de plot twist. Nada de reviravolta. Nada de surpresa! Você diz “Ah, tá”. O motivo de ela ficar puta da vida com ele? Estranho entregou a Joia do Tempo em Guerra Infinita, e Thanos a usou para voltar no tempo, impedindo a destruição do Visão por ela e, assim, Thanos consegue arrancar a Joia da testa do Visão, matando-o, e conseguindo completar a Manopla do Infinito. Mas Wanda estava mais preocupada com a morte do Visão, o que não faz sentido, já quela tinha destruído ele de qualquer forma. Talvez, pela morte dele ter sido por nada. Não sei, o filme não explica, dane-se você.

Estranho vai ver Wanda, porque ela é foda, sacam? No desenrolar da conversa, Wanda nomeia América Chavez e Estranho estanca. Ele não havia dito o nome da menina e então Wanda se revela e onde eles estavam era uma fodástica ilusão de tudo queimado e destruído. Aliás, o Estêvão Estranho é o Mago Phodão. Como ele foi engando pela ilusão de Wanda? E como ela sabia que ele ia lá? E que diabo de lugar é aquele? O filme ainda não tem meia hora e nada faz sentido!

Wanda diz para entregar a menina porque precisa linkar com a série Wandavisão. Ela quer ter os filhos de volta; os filhos que a Magia do Caos criou segundo seus desejos. Eles nunca foram reais, mas ela não quer saber disso. Em sua ideia, em algum canto do Multiverso as crianças existem e ela as quer para si. Isso já é errado, mas faz sentido. Ok, beleza. Então, ela fala que precisa mais ainda dos poderes de América Chavez porque precisa ficar pulando de multiverso em multiverso para caso as crianças fiquem doentes com alguma doença zicada e ela quer encontrar a cura. E isso, queridos, já é maluquice do roteiro levando o conceito de Mãe Hiperprotetora no 11! Deve ser tipo yiddishe mamma. Wanda fala para entregar a guria. Estranho diz que não vai rolar. Wanda diz que vai varar geral quando chegar em Kamar-Taj. Sou mais de ver, diz o Estranho (paráfrase).

Então, Raimi mostra a que veio e é aqui que realmente começa o filme. Wanda chega em Kamar-Taj e varre geral. Nunca vi tanta morte em todo o MCU! Nem mesmo com Thanos fez isso, já que o estalar de dos fez todo mundo sumir.

Raimi é um excelente diretor de terror, mas foi limitado pelo PG-13 (em breve, artigo sobre isso), ainda assim usou ao máximo os elementos que fazem um filme de terror: te amedrontar. O filme dá uma guinada e você percebe nitidamente a mudança da direção ali, com alguns entrecortes. Ainda mais que o filme do Multiverso da Loucura teve muitas cenas refilmadas. As alegações eram que foi devido à pandemia de COVID-19, mas não penso assim, pelo tom que o filme começa e como segue adiante.

Na batalha de Kamar-Taj, conseguem prender Wanda na Dimensão Espelho. Ela arruma um jeito de atacar todo mundo: usando as poças de água e reflexos. Como ela sabia disso? Lembrem-se: ela não sabe as artes místicas. A única coisa que ela estudou foi o Darkhold e ele não tem tudo (mais adiante falarei sobre ele. Fiquem sintonizados), diferente do dr. Estranho que passou anos estudando, se preparando e treinando em Kamar-Taj, mas aí precisavam de uma adversária tão poderosa quanto todos os magos do mundo. Estranho e América fogem e Wanda pega Wong (não nesse sentido); então, ele é obrigado a revelar que o Livro Darkhold não é um livro, mas uma cópia, uma cópia de coisas escritas nas paredes de um templo no alto de uma montanha. E ela vai para lá.

DETALHE

Ela conseguiu isso só lendo umas páginas do Darkhold, e nem leu tudo.

Estranho e América ficam pulando de Universo em Universo para justificar os altos valores pagos com VFX. O que eu mais gostei foi o universo de tinta e o de desenho estilo videoclipe do Pink Floyd. Nisso acabam num Universo e ficam perambulando por lá para gastar tempo de filme. Resolvem ir atrás de uma forma de encontrar o Livro de Vishanti e dão de cara com um Barão Mordo versão rastafári. Eles são levados para tomar um chazinho da lata e Estêvão Estranho acorda preso e levado aos Illuminatis (o que está no trailer). Lá ele conhece quem são os Illuminatis: Reed Richards, apresentado como o homem mais inteligente que existeCitation needed, Professor Xavier (pausa para a trilha do desenho animado dos X-Men), a Capitã Marvel Mônica Rambeau, Capitã Peggy Carter (nesse multiverso, ela recebeu o soro do super-soldado e não Steve Rogers, o que foi explorado no What If),o Raio Negro (menção à série bosta dos Inhumanos) e o próprio Rasta-Mordo.

Nesse “julgamento” Estranho fica sabendo que o seu “eu” desse universo fez merda, acabou com outro Universo numa incursão e foi condenado a ser desintegrado quando o Raio Negro fala com ele. Raio Negro parece uma fofoqueira mordaz: quando abre a boca, fode as pessoas de uma vez.

Papo vai, papo vem, Wanda está no santuário do Darkhold e usa o livro para encontrar o seu “outro eu” em vários universos para possuir o corpo e ir atrás de América Chavez. Ela consegue porque… sim! Da mesma forma que evocava os demônios que perseguiram a garota no início do filme. Com isso, faz a sua possessão e vai atrás da guria. Chega na sede dos Illuminatis vem outra carnificina e as cenas mais patéticas da face da Terra, quando os illuminatis tomam um piau da forma mais ridícula. Reed Richards, o tal que foi apresentado como “o homem mais inteligente” conta pra Wanda como iriam matá-la: quando o Raio Negro abrir a boca e usar seu poder sônico. Sim, porque é MUITO inteligente contar para o seu antagonista seu plano secreto e esperar ter sucesso. Tem que aprender com o Ozimandias.

Wanda ri e pergunta com que boca, daí vem a cena tipo Matrix e o Raio Negro fica sem boca, além da cabeça esmagada. Vai começar o morticínio de novo, com o Sr. Fantástico atacando, mas é despedaçado em tiras de borracha, a Capitã Carter é cortada ao meio pelo próprio escudo (destaque ara a fala “Eu posso fazer isso o dia todo”) e a Capitã Marvel apanha e morre com uma estátua caindo em cima. O Professor Xavier tenta livrar a Wanda deste universo, mas perde, pois, a Wanda do 616 é mais forte e o mata.

Sim, Wanda mata geral e o melhor é que não há violência gráfica. Sequer mostra que a Cap. Carter é cortada ao meio. Só mostra o escudo indo em sua direção, close no rosto surpreso dela, corte para o escudo cravado na pilastra gotejando sangue e ela caindo, com a câmera fechada do torso pra cima. Wanda está com sangue no rosto, mas o sangue não parece sangue. Assim que a Wanda chega, ela está com sangue no rosto, provavelmente dela. Ou não, não dá pra saber. Ainda assim, é sangue, você sabe que é sangue, mas ainda não parece sangue. Uma obra de fotografia magistral! Sim, isso que você leu. Se parte do roteiro é idiota, a execução tratou de consertar o máximo que pôde. Eu realmente gostei. Gostei porque fica mais intenso. Parabéns, Raimi!

Estêvão Estranho, América e Christine Palmer deste Universo começam a fugir com a Wanda endemoniada e boladona indo atrás numa perseguição tensa. Raimi mostrou muito bem a que veio com vários takes característicos seus, como o zoom no rosto do personagem, chegando até um dos olhos e fazendo a câmera “entrar pela pupila”, a conversa com Mordo e as velas se apagando por um vento misterioso elevando o medo e a fuga desesperada.

Wanda consegue pegar América e Estranho e a drª Palmer do Universo 828 vão parar no Universo dilacerado. Lá, ele encontra outro dr. Estranho: o dr. Estranho Maligno que tentou usar o Darkhold para trazer a sua Christine Palmer dos mortos. Este dr. Estranho apareceu na edição 18 da série What If (E se o Dr. Estranho fosse discípulo de Dormammu?) e na animação What If, com aquele traço péssimo e inassistível.

Estranho Bonzinho vence o Estranho Malvado e fica com o Darkhold (adorei a batalha com notas musicais e a música incidental, como o tema do Fantasma da Ópera. Adoro você, Raimi). Como não pode ir até o seu universo, usa o Darkhold para possuir o cadáver do Estranho Defensor que foi parar no seu universo. Sim, o defunto já estava se decompondo e ficou bem com cara de zumbi. Olha só como ficou:

Lembrou de algo? Vou dar uma pista:

E sim, eu sei que tem Dr. Estranho Zumbi na Marvel. Já era algo tosco naquele tempo. pelo menos, o Raimi fez algo pra se divertir.

Indo pros finalmentes, Wong, Dr. Estranho e todo mundo perde. Wanda tenta ficar com os filhos que não são seus, mas eles sentem medo dela. Então ela entende que eles nunca serão SEUS filhos. Jamais serão. Eles são filhos daquela Wanda e sempre serão dela. Lembram-se que na análise da série Wandavision eu falei do Modelo Kubler-Ross, e que não houve o último estágio, a Aceitação? Ela acontece no fim deste filme, pois é isso do que se trata o filme: uma mãe enlouquecida pela sua dor tentando tudo para ter seus filhos de volta. Foi controlada pelo poder maligno do Darkhold; mesmo porque, Wanda é apenas uma vítima. Vítima da dor e do desespero, e isso a fez cair nas artimanhas do Poder das Trevas.

Mas e sobre o filme? Bem, como falei, o roteiro tem tanta falha que fica difícil enumerar todas e Raimi fez o que o Whedom fez com a Liga da Justiça. A única diferença é que Raimi ligou o “foda-se” no 11, e fez o seu filme, o seu Multiverso. O filme é uma ode à trilogia Evil Dead a ponto de ter até o Bruce Campbell numa ponta, o que é de praxe, já que em todos os filmes dele o Bruce aparece, como no caso dos 3 filmes do Tobey Miranha. Foi apenas isso que salvou o filme. Um filme de terror muito bem executado. Um filme de terror com personagens da Marvel, e foi isso que transformou o filme em algo muito bom, mesmo com a já muito mencionada limitação PG-13. Esse filme só mostrou o imenso talento do Raimi e só espero que Disvel o mantenha no controle do Dr. Estranho, para – quem sabe – o próximo roteiro não ser idiota a ponto de ter que dar umas remendadas para fazer sentido.

Porque se você acha que Disvel conseguiu dar um jeito na sua cagada, está muito enganado, mas isso fica para um próximo (ou não tão próximo) artigo.

Como ponto final: a cena pós-crédito é o aparecimento de Umar, a irmã de Dormammu, da Dimensão Negra. Dimensão não é universo. Lembrem-se. Estranho como sempre fazendo o melhor que sabe fazer: ferrar com a Realidade.


PS: Gostou da ideia de pizza em bolinhas? Taqui uma receita. De nada! Mas eu fiquei pensando. No fundo, aquilo era um pão-de-queijo. Aquele universo tinha sido dominado por  enviados de Minas Gerais?

6 comentários em “Analisando séries e filmes de super-heróis XXVIII

  1. Esse filme me deixou com sentimentos conflitantes. Eu sou uma Cumberbitch, adoro a atuação do Benedict, e a atriz que faz a Wanda (esqueci o nome dela, oh gosh) está simplesmente fenomenal. Mas o roteiro é mesquinho, muito mesquinho. Nós bem sabemos que a criatura mais perigosa existente é uma mãe defendendo suas crias, e o filme é só isso. SÓ ISSO. Não precisava de Illuminati nenhum pra essa história se desenvolver, eu nem sei qual foi a real utilidade de colocar aquele time todo lá. “Raio Negro vai te matar só abrindo a boca” ah faça-me o favor né, os neurônios do Reed Richards são de borracha também, né? Apagaram uns aos outros.
    Outra coisa, a Wanda foi nerfada de novo nesse filme. Essa história de ser razoável é desculpa pra não soltar todo o poder dela de uma vez e ter história pra contar. Ora, se a mulher tá desesperada pra encontrar os filhos, como ela consegue ser razoável? Raios, quando ela chegou no Kamar-Taj bastava uma magia, só uma, pra tomar a porra toda sem resistência! Mas não, vamos colocar a Feiticeira Escarlate sendo razoável pelo bem da narrativa…
    Sobre a dimensão espelho, pelo jeito não serve pra porra nenhuma, porque o Miranha manipula ele com matemática e a Wanda brinca com ele como se fosse um fluido não newtoniano (é isso, né?)…
    No final, o Sam Raimi salvou mesmo esse desastre, e eu nem sou fã de filme de terror. Eu nunca imaginei ver uma briga de notas musicais tão bem feita. Mas quer apostar quanto que aquela fumaça vermelha que vimos quando o monte Wundagore desaba é a deixa pra Wanda voltar redimida?

    1. nem sei qual foi a real utilidade de colocar aquele time [Illuminatis] todo lá

      Apresentá-los ao MCU depois que a Disney comprou a Fox Films

      Ora, se a mulher tá desesperada pra encontrar os filhos, como ela consegue ser razoável?

      Ela estava sob poder maligno do Darkhold, mas tem hora que estava lúcida. Ela poderia ter recriado os moleques novamente, mas não fez. Ademais, ficar pulando de universo pra encontrar a cura pra doenças? Ela poderia curar com seu poder. Não faz um puto de sentido

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