Quando um batom ajudou nossas avós a vencer a Guerra

Uma guerra (as de verdade, não arranca-rabo temporário) causam sérios problemas nos países envolvidos. Não, não estou falando de democracia caindo no seu quengo. Estou falando a população depender de recursos básicos, como comida, por exemplo. Os governos tentam (ou deveriam tentar) garantir que sua população tenham o mínimo do mínimo possível. Mas esse mínimo pode dar uma resvalada, quando é por um bem maior.

Num momento que tudo começa a ser racionado, alguns itens de primeira necessidade são indispensáveis e escapam ao racionamento; isso inclui pães, remédios e… batons.

Pensem no caso da Inglaterra durante a Segunda Guerra Mundial. Sendo uma ilha, Hitler achou que podia dar uma pancada imensa ao impedir que ela recebesse navios mercantes com mantimentos. Os U-Boats começaram a mandar os comboios irem conversar com Posseidon. No desespero, o governo de Sua Majestade instou que todo terreno disponível fosse usado para produzir alimento. Fiscais iam de fazenda em fazenda pontuando como estava o aproveitamento da produção de comida. Quem tivesse nota baixa, teria sua fazenda desapropriada. Gado de um modo geral foi reduzido, exceto o leiteiro, porque leite foi considerado uma emergência nacional por causa das crianças, já que não havia vegans enchendo o saco e o leite é o alimento mais completo com proteínas, vitamina e gordura. Havia cota para produção mínima.

Alimentos começaram a escassear e os Ministérios da Agricultura e da Alimentação promoviam cursos, panfletos e profissionais para auxiliar no aproveitamento de qualquer canteiro de flores disponível. Dane-se as suas petúnias, fome é uma urgência nacional. Aço era outro problema, então era preciso fabricar maquinários com o mínimo de metal possível, já que eles eram preciosos para a fabricação de navios, tanques, aviões etc. era pedido cada vez mais da população. Pouquíssimos itens escapavam do racionamento. Entre eles pão e produtos de quitanda (não havia horti-fruti na época, mas pode chamar de horti-fruti se quiser)

O racionamento era um esforço de guerra e usado como medida patriótica. Você racionava pelo bem maior. Você fazia a sua parte. Em troca, o governo liberou outros itens de suma importância para vencer a guerra: maquiagem.

Péra! Maquiagem? Maquiagem é item de primeira necessidade?

É.

Napoleão dizia que um exército marcha com o estômago. É importante o serviço de intendência, mas tem outro fator decisivo: você tem que convencer a sua população, ainda mais quando você depende dela para alimentar o exército. O moral da população é fundamental, ou todo mundo começa a entregar os pontos e o país é derrotado por dentro, e por si mesmo.

O moral da população é fenomenal, por isso, a propaganda de guerra é tão importante. Você tem que convencer seu povo que você é um dos bonzinhos e estão lutando contra os mauzinhos. E numa guerra, a primeira vítima é a verdade.

Claro, a participação popular é importante, ainda mais quando você depende do dinheiro da população. O problema é convencer a população a lhe dar dinheiro. Sim, claro que você mora no Brasil e sabe que a melhor forma é criar um novo imposto ou um novo tributo ou uma contribuição provisória que ficará ad aeternum. Não funciona assim no restante do mundo. Você tem que massagear o ego, de preferência para vender bônus de guerra. Foi feita toda uma indústria de produção de filmes específicos para isso:

Muitos shows foram organizados para coleta de doações. Sim, a cena do Capitão América é baseada em fatos reais (exceto, talvez, a parte do soro do Super-Soldado. Talvez.)

A Inglaterra tinha outros problemas, e um desses problemas era dinheiro. Mas quando falo problemas, são problemas MESMO, já que ela sempre viveu na pendura quando o Império começou a ruir. E isso porque ela cismou de se meter nas campanhas napoleônicas.

A dívida nacional britânica remonta ao reinado de Guilherme III, também conhecido como Guilherme de Orange (1650 – 1702). Este sujeito, não muito esperto ou esperto até demais, contratou um consórcio de comerciantes para oferecer à venda uma emissão de dívida do governo, que evoluiu para o Banco da Inglaterra. Sustentar guerras sai aro (mais do que você pensa), e em 1815, no final das Guerras Napoleônicas, a dívida do governo britânico atingiu o pico de 1 bilhão de liberas esterlinas. Deu para entender por que não queriam abrir mão de muitas colônias, como a Irlanda, por exemplo?

Esse valor absurdo era o dobro do PIB da época, mas com as medidas (arrasando com a economia das colônias e promovendo fome, como aconteceu na Grande Fome na Irlanda, entre 1845 e 1849), no início do século 20, a dívida nacional foi reduzida para cerca de 30% do PIB. Aí veio outro probleminha: uma tal de Primeira Guerra Mundial, e o governo britânico foi forçado a tomar empréstimos pesados para financiar o esforço de guerra, chegando a absurdos 7,4 bilhões de libras esterlinas em 1919.

Vai uma guerra mundial, veio outra. Com a Segunda Guerra Mundial, o governo foi pegar mais empréstimos pesados para financiar a guerra com os toscos da “Raça Superior”. A população estava ferrada, a economia indo pra vala.

No verão de 1940, a França havia caído nas mãos dos nazistas e a Inglaterra estava lutando praticamente sozinha contra a Alemanha em terra, no mar e no ar, os idiotas dos japoneses só teriam a brilhante ideia de atacar Pearl Harbor um ano depois. Churchill apelou pessoalmente ao presidente Roosevelt por ajuda, e Frank concordou em trocar mais de 50 destróieres americanos (desatualizados, mas é melhor que nada) por arrendamentos de 99 anos em bases britânicas no Caribe e na Terra Nova, que seriam usadas como bases navais. Dinheiro e suprimento mesmo só veio com o Lend-Lease Act, a ajuda financeira e de recursos dos EUA, só viria em 1941. E era a maior parte com material bélico ou para os soldados. A população civil não teria muita facilidade, mas em compensação sua produção poderia se voltar apenas para atender os civis.

O moral do povo estava indo pra vala, a guerra estava demorando demais (algo mais que um dia já é tempo demais, certo?). Uma forma de manter a população ao seu favor seria dar dinheiro, mas nem sempre todo mundo podia dar dinheiro. Com isso, algum gênio pensou e veio com a máxima “e se fizermos a população ser parte do esforço?”

O Ministério da Produção de Aeronaves fez um alarmante apelo à população em julho de 1940:que as pessoas doassem o que tivessem de alumínio, principalmente panelas, travessas, caçarolas ou o que fosse. Era a iniciativa Vingadores Pots And Pans For Planes. Tudo o que pudesse dar de alumínio seria sado para construir aviões de combate, para defender a nação dos nazistas e manter o mundo livre. A população reagiu imediatamente!

Se você já viu uma panela na vida e olhou para algum avião deve rter estranhado. Só o Spitfire tinha de massa, vazio, 2.251 kg. Fazendo de conta que uma panela tivesse um quilo, seriam necessários mais de 2 mil panelas, o que nem é tanto assim se toda a nação respondesse ao apelo. O problema é que foram construídos 20.351 unidades de Spitfires. As panelas seriam insuficientes.

Mas nada disso importava. Isso agiu como um impulsionador do moral, pois o público sentiu que eles estavam “fazendo sua parte”. Fuck you, Hitler!

Tá. Mas você tinha falado sobre batons.

Pois é.

Durante a guerra, a Inglaterra tinha adotado, também, racionamento de roupas, mas não toalhas de mesa. ESPERTAMENTE, os fabricantes vendiam toalhas de mesa com instruções de como tirar cuidadosamente as etiquetas e havia grupos de mulheres ensinando como transformar aquelas toalhas em vestidos novinhos em folha. Afinal, a grande questão é que as mulheres ficaram praticamente sozinhas tocando as fazendas e boa parte dos negócios, já que os homens foram lutar contra o Eixo.

O British Women’s Land Army foi estabelecido pela primeira vez em janeiro de 1917 para a Primeira Guerra Mundial, e pelos mesmos motivos: os homens foram para a guerra, alguém tinha que cuidar do país. O Women’s Land Army voltou à ativa em junho de 1939, em preparação para a Segunda Guerra Mundial.

Mais de 200.000 Land Girls trabalharam na WLA de junho de 1939 até novembro de 1950. Elas substituíram os trabalhadores homens, vindas de todas as esferas da vida, as Land Girls foram essenciais para aumentar a produção de alimentos do país. Para tanta produção, é preciso que elas estivessem satisfeitas e… bem… mulheres são mulheres.

O governo sabia disso, e sua maior preocupação era com o moral (não “a” moral. Tem diferença) das mulheres; isso foi um fator tão importante, que liberaram do racionamento todos os cosméticos, só tinha um porém: foi instituído um imposto tornando-os muito mais caros, o que não pareceu incomodar as mulheres. De qualquer forma, o próprio governo estimulava que as mulheres estivessem sempre atraentes. Isso ajudava a levantar a bola da mulherada como ainda faturava uns dinheiros com o imposto, e uso como propaganda “This is fine”, enquanto pessoal ralava dia e noite para produzir comida. Win-Win.

Claro, muitos malditos millenials hoje achariam um absurdo, mas um memorando do Ministério de Suprimentos disse que batons eram tão importantes quanto cigarros.Sim, cigarros. Cigarros faziam parte das rações para os soldados. Cigarros estavam entre os itens não racionados. Há um motivo pra isso, mas é um outro assunto.

Como na época os sapatos para quem realmente trabalhava não podiam ser altos, o ministro entendeu que as mulheres precisavam de algo que as mantivessem confiantes, femininas e no controle. As revistas imploravam às mulheres que continuassem a se maquiar, com sessões de fotos atraentes e slogans patrióticos.

Sim, era solicitado para guardar o estojo, cartucho, sei lá como se chama o troço que acondiciona o batom em si. Metal era economizado ao máximo

Era um DEVER PATRIÓTICO a mulher se maquiar, se produzir, mostrar que era superior, mesmo quando estavam com as mãos calejadas do trabalho braçal. Ainda assim, eram superiores àquele bando de krauts filhos da puta que se diziam da Raça Superior. Hoje, as feministas teriam surtos. Naquela época, as mulheres adoraram a lembrança e abraçaram a causa! Fuck Hitler!

O batom vermelho era moda, ajudava a destacar, mesmo as mulheres uniformizadas. Os homens apreciavam, as mulheres nem se fala. Mesmo entre as trabalhadoras das fazendas podiam se sentir melhores. Pois mantinham a sua essência. A cor ficou conhecida como Victory Red, o Vermelho da Vitória e se você achou o estojo parecido com um bala, não é mera coincidência.

Todas as mulheres que meteram a cara no trabalho pesado, seja no front ou em casa, foram e são um exemplo a ser seguido. Diferente das netas delas que diriam que empoderamento é não raspar o sovaco sem sair da cama o dia inteiro, vendo série. Não é o batom que trouxe o empoderamento. O batom foi o estímulo para o moral da pessoa não cair e mostrar o verdadeiro empoderamento:

Algumas pessoas acham que o bem-estar consigo mesmo é não descuidar da aparência mesmo nos piores momentos. Outras entram em ansiedade se algum homem dá “bom dia”. Nossas avós estavam sem tempo para isso, irmão. Elas estavam ocupadas chutando bundas de nazistas ou alimentando não só suas famílias, mas as famílias de um país inteiro.

Este é o verdadeiro empoderamento e não o penteado que você fez no cabeleireiro para depois postar foto no Instagram ou escrever um blog como o meu. A verdade, é que há dois tipos de pessoas. Aquelas que passam pela História e aquelas que a escrevem. Olhando pro passado vemos quem foi quem; e com base nisso, vemos quem somos nós.


Fontes

5 comentários em “Quando um batom ajudou nossas avós a vencer a Guerra

  1. Eu sinceramente nunca vi uma Grande Guerra de verdade acontecer….e nunca vai ocorrer.

    Nem sei como nos dias de hoje alguém ainda consegue levar a sério, PERSONAGENS como Hitler e Churchill.

    A Segunda Guerra, sem comentários…. isso nunca foi uma guerra. Só a narrativa oficial desse evento já é terrivelmente sem sentido.

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