Racistas miseráveis pressionam para apagar conquista de mulher negra

Anteontem eu postei sobre o quebra-quebra geral, em que um bando de idiotas – que os russos chamariam de nekulturnyi – resolveram destruir monumentos históricos para apagar o passado. O tipo de coisa que o pior dos racistas daria graças a Deus, de forma que ninguém se lembraria mais das merdas que ele fez. Eu até sugeri alguns monumentos, por sinal. Hoje, chega a notícia que a HBO Max removeu do seu catálogo o filme “E o Vento Levou…”, por motivos que ele tem negros escravos e isso é errado, pois parece que negros são estereotipados como escravos num filme que se passa na Guerra de Secessão.

Se você não conhece o filme, ele fala sobre a decadência de uma família aristocrata plantadora de algodão na Geórgia, em 1861. Deu para notar o reforço na narrativa de um livro, que foi um fracasso de vendas até que a Metro-Goldwyn-Mayer comprasse os direitos, fizessem uma super-produção, gastando rios de dinheiro com atores de primeira linha e arrecadando uma grana preta (ops!) com isso. Querem algo mais estereotipado que isso? Sim, tinha escravos, óbvio, já que a abolição da escravatura nos EUA só aconteceria em 1863; e não, Lincoln não era bonzinho. Ele assinou a abolição da escravatura porque era politicamente interessante a ele, mas a verdade é que ele era racista e ajudou a despachar os negros pra África. O Cardoso conta esta história.

Scarlett O’Hara é a típica patricinha que não faz nada por ninguém, está de olho numa perna de calça, só que ele está de olho em outra, casa com um, acaba se enrabichando por um bon vivant. Uma xaropada digna de qualquer novela mexicana, mas com atores e atrizes que prestam e figurinos riquíssimos e cenários monstruosos. Isso em 1939! (prestem atenção a esta data)

A história é sobre quem cai ao inferno e se ergue. Ela mesma diz que se tivesse que matar, mentir, roubar ou trair para não ter que passar fome, ela faria. É o juramento de uma alma amargurada só tomando na cabeça quando tem que enfrentar horrores da guerra. Mas assistindo ao filme (coisa que eu fiz, mas os justiceiros sociais não), ela nem é ruim com sua aia, Mammy, interpretada por Hattie McDaniel, que pelo contrário. É sarcástica e a única que bota Scarlett nos eixos. Mas não importa. O que importa é que tinha escravos e isso é errado, mesmo sendo um filme que se passa na época da escravatura. Temos que apagar.

“Todos os registros foram destruídos ou falsificados, todos os livros foram reescritos, todos os quadros foram repintados, todas as estátuas, todas as ruas, todos os edifícios renomeados, todas as datas foram alteradas. E o processo continua dia a dia, minuto a minuto. A história se interrompeu. Nada existe além de um presente interminável no qual o Partido tem sempre a razão.”

– 1984, de George Orwell

Estão apagando a História, passando uma borracha. Agindo como tinham acusado gente como o presidente dos EUA ia fazer, acabando por mentir e deturpar a História, de forma que se assentasse absoluto ao Poder, se recusando a sair de lá e instituindo uma ditadura.

Estou falando de George W. Bush.

Apagando E O Vento Levou, apagaram a história. A história da primeira mulher negra a ganhar o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante (a Hattie). Apagaram a história que Hattie NÃO PÔDE receber. Motivo? Lembram que eu falei para prestar atenção eu o ano era 1939? Pois é, as leis de segregação racial iam de vento em popa. Hattie McDaniel não pôde se sentar na mesma mesa que seus colegas de elenco na noite da premiação.

Então, estava em voga o Motion Picture Production Code (ou Código de Produção de Cinema), um conjunto de normas morais aplicadas aos filmes lançados nos Estados Unidos entre 1930 e 1968 pelos grandes estúdios cinematográficos, à guisa de ser um conjunto de normas morais, chamado de “Código Hays” por derivar de Will H. Hays, advogado e político presbiteriano, presidente da Associação de Produtores e Distribuidores de Filmes da América. Ou os filmes se adequavam ao Código Hays ou não recebiam o selo de aprovação da MPAA; isso acarretava no filme não ir pro grande circuito de cinemas, pois ninguém ousava contrariar a MPAA, que de raiva proibia que os filmes fossem distribuídos para as salas que exibissem os filmes sem o selo, por meio de pressão política. Algumas salas fecharam por imposição da MPAA, já que Will Hays era um político também e sabia mexer pauzinhos.

Coisas que estavam terminantemente proibidas no Código Hays:

  • Profanidade
  • Nudez (de fato ou insinuada)
  • Tráfico de drogas
  • Insinuação de perversões sexuais
  • Escravidão de brancos (de negros e índios tá beleza)
  • Miscigenação de qualquer espécie
  • Higiene sexual e doenças venéreas
  • Cenas de parto (mesmo que insinuadas)
  • Órgãos sexuais de crianças
  • Ridicularização do clero
  • Ofensa deliberada a qualquer nação, raça ou credo

Por miscigenação, não podia ter negros e brancos como casais. O primeiro beijo interracial foi em Jornada nas Estrelas, entre Kirk e Uhura. De início, ninguém queria violar o Código Hays, mas os atores erraram proposital e seguidamente as cenas. Tempo de estúdio significa dinheiro e isso pressionou os produtores, os quais jogaram tudo para cima e mandaram um “ok, vocês venceram!”

 

Outra coisa a ser mencionada é que, como dito, era proibido mencionar Deus, Jesus, Cristo, inferno ou qualquer outra palavra similar que não fosse numa cena de um serviço religioso. Muitos filmes mostravam o Diabo de forma insinuada, mas não nominal. Não podia praguejar, também, e isso rendeu uma multinha ao E o Vento Levou por causa desta cena:

Sim, o “damn” rendeu uma grana na mão dos censores.

Ah, sim. Beijos também não podiam, só com muito custo, e na base do beijo no canto da boca, algo como algumas séries coreanas de hoje. Pelo mesmo Código Hays, atores negros ocupavam papéis subalternos como motoristas, garçons e empregados domésticos. Isso quando tinham sorte, porque normalmente faziam apenas figuração e em vários casos sequer eram mencionados nos créditos.

Está achando um absurdo até agora? Não cheguei nem na metade. E o Vento Levou estreou em 15 de dezembro de 1939, no Loew’s Grand Theatre, Atlanta. Cerca de 300 mil pessoas compareceram numa cidade que por três dias estava enfeitada para festejar o maior acontecimento de sua história. 300 mil pessoas viram luxuosas limusines desfilando na rua principal, bandeiras confederadas agitaram-se e houve um baile à fantasia.

300mil pessoas viram isso. Menos uma: Hattie McDaniel. Ela não foi convidada, e mesmo que quisessem, não poderiam. Estava em vigor a Lei Jim Crow de segregação racial nos espaços públicos. Uma lei publicada em 1877 e que durou até meados da década de 1960.

Mas isso não importa. Não para Hattie. Em 29 de fevereiro de 1940, Fay Bainter leu seu nome na noite do Oscar, e Hattie McDaniel, a primeira mulher negra a subir no palco como premiada, recebeu seu merecido prêmio, ainda que dali não tivesse mudado a sociedade.

Muitos a criticaram, principalmente outros negros, que achavam um absurdo ela ter aceitado o papel num filme racista. O problema, é que era um filme, como já falei, que se passava numa época que ainda existia escravatura, e mesmo exibindo o filme num mundo que ainda era racista, mas sem escravatura, devemos imaginar o que seria melhor: ter uma mulher negra representando uma personagem negra ou um branco vestido de negro? Ainda assim, foi uma demonstração altiva e digna de nota, e não deveria ser apagada da História. Como não deve ser esquecido que David Selznick, o produtor do filme, brigou para que Hattie tivesse permissão de subir ao palco, já que a Califórnia tinha suas próprias leis de segregação. Chegaram ao consenso que ela poderia receber sim, mas desde que não se sentasse junto com ninguém nem posasse para fotos ao lado dos outros atores.

Hattie voltou a trabalhar, novamente como empregada. Dessa vez, no rádio, que como não tem os problemas de apresentar a imagem dos atores, era comum que personagens negros fossem interpretados por brancos. Dessa vez, era uma mulher negra interpretando uma mulher negra, ganhando cerca de 10 mil dólares levando em conta dinheiro de hoje.

Hattie McDaniel morreu em 1952, aos 57 anos. Seu testamento pedia para ser enterrada no cemitério Hollywood Forever, mas as leis de segregação impediam que o cemitério aceitasse negros; com isso, Hattie foi sepultada Angelus-Rosedale. Muitos colegas de trabalho mandaram flores, mas somente o ator James Cagney estava lá pessoalmente.

Mas nada disso importa, é passado. Passou-se uma borracha e o HBO Max jura que qualquer dia vai passar o filme de novo, mas com um debate sobre racismo, fazendo com que o filme – que já era grande! – tenha mais de 6 horas.

Uma mulher negra descendente de escravos subiu ao estrelato e ao invés de ser festejada é apagada da História pelo mesmo grupo que alega defender o direito dos negros. Defensores da mais torpe Justiça Social que anda com cartazes como:

Nas profundezas do Inferno, em meio a fogo e enxofre num lago de chamas eternas, Jim Crow e Will Hays brindam com um sorriso de vitória. Eles jamais teriam sido tão eficientes.

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