A Crise do Hélio que assombra nosso mundo tecnológico

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Estamos com problemas sérios. Você pode achar besteira, mas estamos com falta de gás hélio; sim, o mesmo hélio dos balões. Em 2006 e 2007 o setor de produção de hélio entrou em crise. Em 2013, isso voltou a se repetir e estamos correndo o mesmo risco de novo. Isso não só nos EUA, mas na Europa, também. Vários fornecedores disseram que estavam incapazes de fornecer o gás. Mas por quê? E que diferença faz, se eu não como hélio (somos apenas bons amigos)?

Para você, o hélio é apenas aquele gás engraçado que lhe deixa com voz de pato e é usado em balões de gás para ele subir, já que é a única coisa que você verá subir por muito tempo.

Para um químico (conosco a oração e a paz), o hélio é mais do que fazer dirigível ficar flutuando ao sabor dos ventos (eu sei!). Sendo um gás nobre com dois elétrons no último nível, que é a sua camada K que só comporta dois elétrons de qualquer forma, o hélio é um gás inerte. Só irá reagir em determinadas condições e ter uma atmosfera cheia com um gás não-reativo é muito importante para certas operações em que é preciso controlar todos os passos de uma reação química. Além disso, ele é agente refrigerante a ser usado em sistemas supercondutores, sua mistura com oxigênio é usada para mergulhos a grande profundidade, pois é menos solúvel no sangue que o nitrogênio e se difunde 2,5 vezes mais depressa, eliminando o risco de narcose por nitrogênio, é empregado durante a soldadura de magnésio, alumínio, titânio e aço inoxidável por arco-voltaico, na fabricação de cristais de silício e germânio puríssimos, o que é importante na fabricação de circuitos especializados ou mesmo no processador do seu Positivão aí sobre a sua mesa, pressurização de combustíveis líquidos de foguetes e obtenção de nitrogênio líquido, é misturado com o oxigênio mais uma vez para o tratamento da asma, já que, como dito antes, ele se difunde mais rapidamente do que o ar nos canais apertados dos pulmões etc.

Mas lembre-se: Química não serve pra nada, certo?

Nem o nitrogênio é tão eficiente para certas coisas como o hélio líquido, como manter as temperaturas ultra-frias (mais baixas do que seriam obtidas com o nitrogênio líquido), permitindo que os ímãs supercondutores dos scanners de Ressonância Magnética possam funcionar adequadamente, bem como em aceleradores de partículas.

Desde o balão colorido no parque até máquinas como o LHC usam o hélio. Enquanto isso, aquele curso de estudo de gêneros no Departamento de Humanas…

O problema é que hélio não aparece em boa quantidade na atmosfera como o nitrogênio. As principais características do hélio são seus algozes, pois tendo densidade extremamente baixa e um átomo pequeno, o hélio vai embora fácil para cima, escapando da gravidade terrestre. Tchau, hélio, meu camarada!

Depende-se de alguns campos de gás natural em todo o mundo; até recentemente, principalmente nos EUA, mas já foi descoberta uma enorme reserva na Tanzânia, já que rochas cratônicas de 2,7 bilhões de anos acumularam o gás, graças ao decaimento radioativo de urânio e tório, pois é assim que o hélio é obtido do solo. Sua origem não é atmosférica, mas radioativa.

Só que parece que ainda não disse a que veio, embora estimativas muito otimistas dizem que essa fonte de hélio da Tanzânia poderá suprir a necessidade global por até uma década e garanta alguns bilhõezinhos de dólares para a Tanzania, um país muito centrado e desenvolvido que distribui celulares a albinos, pois eles são caçados por feiticeiros para serem sacrificados a fim de realizarem algum unga-bunga sem-noção.

Em 1925, o governo norte-americano percebeu a sua importância e editou o US Helium Act tendo recebido emendas em 1937, 1954, 1960 (por causa do programa Apolo), 1996 (quando no governo Clinton privatizou-se a Reserva Governamental de Cliffside Field) e recentemente em 2013. Esta lei foi redigida com fins de conservação, exploração e aquisição de gás de hélio, autorizando a condenação, locação ou compra de terras adquiridas com o potencial de produzir gás hélio. Isso levou à criação da Reserva Nacional de Hélio.

Por causa do Programa Apolo, na década de 1960, a emenda ao US Helium Act procurou estimular a produção de hélio dando aos produtores de gás natural incentivos financeiros para separar o referido gás-nobre e vendê-lo ao governo federal. Também estabeleceu uma instalação estratégica de armazenamento de hélio no Bush Dome Reservoir, um campo de gás em Amarillo,Texas, mas que já está parcialmente esgotado.

Sim, parece estranho uma lei protegendo um gás que parece não ter nada demais, mas como vivemos no Brasil, que insiste com aquela bobagem de nióbio, como se fosse o último biscoito do pacote, não é de se admirar. Tenho plena certeza que não só a população como os próprios políticos brasileiros reconhecem esta importância. Aliás, para que falar mais no Brasil, se somos o país que odeia ciência?

O hélio é uma fonte rara e limitada, apesar de ser abundante no Espaço, ele não aparece aqui na Terra e pegar lá do Espaço ainda é inviável, e depois você fica “mimimi pesquisa espacial com criancinhas africanas”. Mas quer sua Tomografia Computadorizada funcionando perfeitamente, certo?

A estimativa norte-americana é que lá para 2020 a oferta federal de hélio estará esgotada. As fontes de hélio na Argélia e Qatar não são interessantes apenas pelo hélio, mas pelo gás natural liquefeito, que também não é eterno e está com seus dias contados. Há relatos da existência de campos de hélio na Rússia e tio Putin já sabe disso, sendo a Orenburg Gas Processing Plant a única empresa com direito a explorar o gás. Monopólio é uma coisa muito legal, não é mesmo?

A saída é começar a economizar hélio. Cientistas já se pronunciaram contra os coloridos balões de hélio. Querem saber? Not gonna happen. O apelo comercial é muito forte. O que se fará? Reciclar o hélio? Aumentar seu custo para minimizar o gasto em usos desnecessários? Alguns dizem que deveríamos cobrar 75 libras esterlinas cada balão. Quem diz isso é um pândego e não sabe como o mundo funciona, pelo visto. https://www.theguardian.com/science/2015/aug/19/potential-sources-of-helium-revealed-as-reserves-of-the-precious-gas-dwindle

Desenvolver tecnologia para “minerá-lo” no Espaço? Sim, é uma possibilidade; e há pesquisas para se obter hélio-3 no solo lunar. Vai acontecer? Não nas próximas décadas, já que ninguém está preocupado com a Lua. Ademais, é preciso desenvolver tecnologia para isso antes; ademais, é preciso recriar um programa espacial voltado para novas viagens até a Lua; ademais, nem se sabe se poderemos explorar o hélio-3 lá de forma eficiente. Ademais, nem sabemos como estocar e trazer de volta pra cá. Vai acontecer? Nah, não no meu tempo de vida, imagino. É preciso mais do que tecnologia, precisa-se vontade política, econômica e científica (mais os 2 primeiros do que o último).

Enquanto não se resolve isso, nossa moderna tecnologia depende cada dia mais de um recurso escasso e caro. Mais escasso e caro do que petróleo, além de não termos nenhum substituto, diferente daquele sua gasolinazinha batizada que você compra no posto, quando poderíamos ter mais carros elétricos (não no Brasil, com esta absurda conta de luz).

Mas é apenas um gás. É apenas química. Quem se importa com isso?


Mais dados em The US Research Community’s Liquid Helium Crisis (PDF)

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Sobre André Carvalho

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