A mágica poesia da Química

As pessoas costumam destilar seu ódio à Química. Mas elas não odeiam Química. Elas odeiam o que acham que é Química. Aquelas fórmulas sem sentido, equações, spins, números quânticos e tabela periódica. Odeiam esse negócio de decorar tabelas e reações e constantes. Mas isso não é Química. É matéria de provinha vagabunda, exigida por um MEC que não é composto nem por químicos e muito menos professores.

A Química é mais que saber que o Hidrogênio está na família (ou grupo) 1A. Química é mais do que saber que a água se expande quando congela. Química é mais do que isso, e simplesmente menos do que isso ao mesmo tempo. A Química é tão mágica quanto as cordas dos elfos, que para os Hobbits é mágica, mas pros elfos é apenas uma corda. Onde está a diferença? Está no olhar daquele que a vê (corda e Química).

Esta é mais uma edição especial do Livro dos Porquês, e eu espero que gostem, entendam e apreciem a beleza escondida da Química.

Vamos ser sinceros: você não faz a menor ideia do que é Química, mas eu vou te dizer. Antes, contudo, não obstante, todavia, entretanto, sugiro que você leia Primeiros apontamentos de uma aula de Química.

Se você acha que entende Química, você não entendeu nada dela, simplesmente porque você nunca a viu. Não com os olhos de um Químico. Vou dar um exemplo ilustrativo:

Eu vi, pelo menos, duas vezes a queima de fogos em Copacabana, no reveillon. O primeiro eu achei mágico, incrível, lindíssimo. Na segunda vez, eu já formado, vi muito mais! Eu vi a magia da Química em ação. Eu vi a poesia de compostos unidos de forma bem arranjada para que desse aquele show pirotécnico de luzes e formas. Foi o triunfo de milhares de anos de conhecimento acumulado, só para um breve instante de felicidade perene, porém marcante.

A ementa da disciplina fala em dar aula do Postulado de Bohr. Depois, se os alunos tiverem sorte, o professor faz um ensaio de chama. Mas se um professor de literatura vê magia em como os sonetos de Shakespeare foram ordenados em obras inesquecíveis, eu vejo a poesia da Química num pipocar de elementos que se transformam em maravilha aos nossos olhos. Shakespeare pode ter sido o autor dos versos, mas ele não criou as letras, não criou a comunicação. Isso foi desenvolvido ao longo do tempo. Shakespeare apenas usou sua criatividade em ordená-las. Da mesma forma, os elementos não são responsáveis pelo show pirotécnico. Técnicos~apenas usam as propriedades dos compostos. Mais nada.

As pessoas interpretam mal a Química. Veem maravilha na água por ela expandir ao se congelar. Em ela poder dissolver proteínas, açúcares e sais. Mas isso não quer dizer nada para um químico. Ele sorri amavelmente e pergunta "E…?" Porque um químico sabe uma pequena idiossincrasia da Natureza: nenhuma substância, simples ou composta, possui todas as propriedades de uma outra substância.

Temos a água como exemplo de substância perfeita, apenas por simples arrogância. Nós somos dependentes dela, e acabamos conferindo poderes mágicos, mas não existe magia ou aleatoriedade na Química. Entre os trilhões de compostos que podem ser formados, algum fatalmente terá todas as propriedades que você sugira. Uma questão de amostragem grande.

Tomemos o cromo, por exemplo. Ele também é tão interessante quanto a água, pela quantidade de compostos coloridos que ele pode formar. Outro exemplo é o gálio, um metal sólido mas que se funde facilmente, apenas colocando uma peça num copo com água morna. O que a água tem de melhor que o cromo e o gálio? Eu não vejo nada.

Outro ponto que eu vejo de forma unânime (entre pessoas que gostam de "química" e pessoas que odeiam "química") é a Tabela Periódica. Ambos a interpretam de maneira errada. Começando por quem a deia, ainda há o ranço que professor manda decorar Tabela Periódica. Não conheço um professor, por mais psicopata que seja (e eu conheci vários!) não pede pra aluno decorar tabela periódica. Ela é uma excelente ferramenta, mas temos que resguardá-la em suas limitações. Ela foi criada por pessoas, e não é a real representação de toda verdade, mas uma primeira aproximação.

Por exemplo, e o mais emblemático: o hidrogênio está na família (ou grupo) 1. Por que? Porque possui um elétron no último nível. Ele não é metal e não é sólido. Ele não pode ser alocado na família 7, porque embora forme hidretos metálicos, não possui 7 elétrons no último nível, apesar de receber apenas um elétron. Ainda assim, ele não tem propriedades semelhantes aos demais halogênios (flúor, cloro, bromo, iodo e astato). Ele não pode ficar entre os gases nobres, pois o hidrogênio é muito reativo e qualquer faísca o detona, em presença de mínimas quantidades de oxigênio. Sem lugar para ficar, colocaram-no na família 1, mesmo. E está de bom tamanho.

A magia da Química está em mostrar as reações e, mais que isso, que como toda Ciência ela nos permite fazer previsões. Tendo substâncias similares, é muito provável que elas tenham propriedades similares (mas não iguais, como já disse). Não é feitiçaria élfica. É apenas saber como as coisas acontecem e, mesmo que erremos e não prevermos direito, nós inclinamos a cabeça pro lado, murmuramos "engraçado" e tentamos descobrir o motivo de não ter dado o que esperávamos. Erro nosso? propriedades desconhecidas até então?  Iremos descobrir.

É este fascínio, a vontade de querer descobrir as coisas que devemos passar pros alunos, e não fórmulas e contas e fórmulas e tabela periódica e níveis e subníveis. As crianças crescem tomando ojeriza àquilo tudo. Odeiam a Ciência, tudo o que tem Química faz mal. Quando poderiam simplesmente estar fazendo descobertas simples, mas que aguçam nossos sentidos, forjam nossa curiosidade e despertam nosso interesse para o mundo que está lá fora. E de resto: que se dane se água se expande quando congela!

Não há magia, não há aleatoriedade, ou toda vez que você dissolvesse sal na água, apareceria vinho, caldo de feijão, subo de abacate etc, sempre mudando a cada vez. É fantástico entender tudo, conseguir compreender o que está havendo, ler um´rótulo de água mineral e dar uma risadinha, assim como ler que uma fruta é orgânica e pensar "eu queria ver uma maçã inorgânica" .

A Química é pura e bela, constante, mas ardilosa. Existem regras, existem leis e existe nossa capacidade de querer entender o mundo.

Que você nunca perca a sua!

Um comentário em “A mágica poesia da Química

  1. Meu e-book de cabeceira atual é “A colher que desaparece”. Muito bom. Ele explicas as semelhanças/diferenças entres os elementos químicos, como foram descobertos, suas utilidades, histórias curiosas como a do Tungstênio e do Mobidilênio, ácidos com pH -30, etc.

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