Cachaça no Espaço e em blogs de “informação”

O complexo fenômeno linguístico
Quando é hora de dizer adeus... Para sempre!

Pense no pior que o G1, Terra, HyperScience e UOL podem oferecer em termos de notícias científicas. Pensou? Ok, você agora conhece o Gizmodo. A quantidade de asneira que sai lá é algo assustador, mas não tão assustador quanto o que aparece nos comentários. Entretanto, sigamos com a regra "Never read the comments" e continuemos felizes, lendo as atrocidades que aquele pessoal escreve.

Ontem, a pérola jornalística gizmodiana soltou o verbo: "Álcool precisa de vida para surgir. Como ele apareceu no espaço?" O que poderia estar errado?

TUDO!

O artigo é assinado por Esther Inglis-Arkell e nos fala que…

A nuvem Sagittarius B2 tem bilhões de litros de álcool flutuando ao seu redor. A maior parte disso é intragável, mas uma certa quantidade é formada de etanol, que é bebível por humanos. Cientistas ainda não sabem o motivo exato de ter bebida por lá, mas eles têm uma teoria.

Sagittarius B2 não é apenas uma "nuvem". Seu nome correto é Nuvem Molecular, uma nuvem de gás que formam moléculas aa partir de elementos em estado atômico, que irão se combinar formando moléculas, mas não moléculas "meh" tipo H2 ou H2O. Obviamente, macromoléculas (polímeros, para os íntimos) são mais difíceis, porque precisaríamos de temperatura e pressão adequadas para a reação, fora catalisadores. No espaço? Um pouco difícil, ainda mais pelo bombardeio de partículas de alta energia e raios cósmicos estragando o dia de qualquer um. Por isso, não temos vida no espaço interestelar.

Em segundo lugar, queridinhos, "bilhões" de litros para um gás é pouco ou nenhuma informação, já que gases são muito sujeitos a variações de temperatura e pressão, o que afetará drasticamente o seu volume. Peguem uma seringa com ar e aperte o êmbolo. Entenderam?

Mais uma coisa, suas mulas: "álcool" não é uma substância. Se o pessoal tivesse frequentado colégio que preste (ou não fosse filho da Denise Fraga), saberia que álcoois são uma função química orgânica. Um conjunto de substâncias com cadeia carbônica com ligações simples, com um radical funcional ~OH (esta cadeia tem que ser aberta, podendo ser ramificada ou não). O segundo detalhe é falar que é "intragável". Eu não sei os cachaceiros do Gizmodo, mas eu não bebo etanol puro. Mesmo que pudesse, o álcool mencionado não é etanol e sim metanol (vocês sabem né? Um só carbono, um só met ou vira zona!). E não, Gizmodinho do coração: ETANOL NÃO É BEBÍVEL! No Brasil, bebidas alcoólicas com mais de 50% de álcool não podem ser vendidas. Ademais, com 70% a bebida vira algo muito legal para desinfetar mesas e impedir que bactérias, fungos e jornalistas proliferem. E sim, os cientistas SABEM porque tem metanol lá. Acabei de dizer: é a bosta de uma nuvem molecular!

O artigo segue com tanta doideira que eu nem tenho saco de ficar apontando. Mas tem um detalhe. Os retardados acham que somente organismos biológicos produzem álcool. Acontece que, sim, o metanol pode ser obtido por outras fontes, como da nafta, por exemplo. Mas Gizmodo não se atenta pra esses detalhes. Pensam apenas em processos de fermentação, como se Química tivesse surgido por causa de seres vivos, quando é justamente o contrário. Questionar por que tem metanol no espaço é o mesmo que questionar como o Sol pode ter ferro se não há uma siderúrgica lá dentro como a CSN.

Outra: não existe álcool consumível, GIZMODO! O etanol é "álcool combustível" (se bem que metanol também é combustível. Perguntem pro pessoal da Fórmula Indy). E questionar que no Espaço não pode ter bilhões de litros de álcool é falar besteira. Pegue um destes fraquinhos de removedor de esmalte totalmente vazio. Obviamente, ele não está vazio, ele tem ar! Feche-o bem e leve-o para uma sala com 3 metros de lado, 27 m3, em que se tenha feito vácuo (eu sei que não existe vácuo total). Se você abrir o frasquinho, todo o conteúdo dele irá ocupar TOTALMENTE os 27 mil litros do espaço interno da sala. Eu ensino isso na 5ª Série. Deveriam ensinar isso na faculdade de jornalismo.

Agora, o mais incrível, o mais fantástico, o mais DELICIOSO é saber que esta notícia é datada. A autora publicou essa matéria em 2012, no site io9 que pegou múltiplas notícias e press releases de 2001, inclusive (vejam as referências em cada um deles).

Então, temos a agilidade da internet, nova mídia e o escambau traduzindo notícia de dois mil e doze? Pode isso, Arnaldo? É essa a agilidade da Internet? É o mesmo que colocar no SBT e vê-lo anunciar, orgulhoso, os filmes que passarão novinhos em folha, alguns com produção de 2009!

Mea Culpa

Sábado passado (09/08), compartilharam reportagem do Jornal Nacional sobre um besteirol de produzir gasolina através de gás carbônico do ar e água. Eu salivei de satisfação, salvei o link (estava na rua), e vim correndo pra casa, mais feliz do que quando recebo o meu salário. Peguei o link e comecei a fazer pesquisa para saber mais (como sempre, Globo nunca dá os devidos detalhes). Aí eu descobri que a notícia era 2012 e foi veiculada pelo JN também em 2012. Eu xinguei muito e larguei pra lá, porque avanço científico de 2 anos (sendo engodo ou não) ninguém merece! Mas, pelo menos não fiz vocês perderem tempo lendo algo velho ou corri o risco de dizer "ô seu mané, isso aí já tem 2 anos!"

Obviamente, não poderia ser diferente do que já sabemos. A culpa é da Estrela.


Fonte: Cardoso, que sabe o quanto amo esses jornaleiros!

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Sobre André Carvalho

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