O futuro de um passado que não virou presente

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Conselhos são sempre perigosos, mesmo de sábios para sábios. Outra coisa perigosa e frustrante é oque chamam de "Futurologia", que alguns chamam de "ciência" (mas lembrando que até homeopatia e astrologia também são chamadas assim, e os três não passam pelo crivo do Método Científico) de previsões feitas por "especialistas" no Futuro. Alguns acham lindo, eu chamo de engodo. Não há como prever o futuro, a despeito do que seu pai-de-santo favorito tenha a lhe dizer e cigana nenhuma pode ler seu destino e nem da Simone. E se você vai na onda dos atuais futurólogos, deixem-me lembrá-los do que andaram prevendo há algum tempo atrás.

Lá pelas bandas do século XVIII (sim, 18!), mais ou menos por volta de 1733, um clérigo de nome Samuel Madden escreveu um livro com algumas previsões para o futuro. Não no quesito "previsão" do tipo Mãe Dinah ou Juscelino da Luz, pois estes só preveem o futuro depois que ele vira passado. Madden era irlandês de boa cepa, já que não existem cobras na Irlanda. Samuca nasceu em algum ponto em 1686 e faleceu em 1765. Neste meio tempo, ele ajudou a fundar a Royal Dublin Society, em 1731.

O Memoirs of the Twentieth Century (Memórias do Século XX), como era de praxe, começa com um blábláblá puxando o saco do manda-chuva da época. a saber, Frederico Luís, príncipe de Gales. Curiosamente, o livro começa com uma carta datada de 3 de novembro de 1997, mas parece alguma espécie de erro. No livro (que você poderá baixar AQUI) é mencionado o uso de celeiros públicos em todas as aldeias da região e uma legislação que garantia os direitos das mulheres (além de serem consideradas apenas parideiras).

Assim como a McKayla Maroney, eu não fiquei (muito) impressionado. Silos públicos? Olha, deixem-me contar um segredinho: os egípcios já tinham isso. Obviamente, não eram tão públicos assim, pois o Estado controlava, mas garantia que os cidadãos tivessem acesso a grãos em períodos de seca (não necessariamente que durassem 7 anos, José, seu mentiroso). O livro caiu no gosto popular no século XIX, sendo mandado para ser reimpresso por ordem de George VI, rei da Inglaterra.

Mais impressionado eu fico com o filósofo Roger Bacon. Não que ele tenha inventado o bacon, a Glória da Humanidade. Seu pensamento científico transcendia a isso, a ponto de imaginar máquinas voadoras, aparelhos que podiam ver à distância (in greek, Jr!) e ver coisas muito pequenas (I said GREEK!). É algo curioso, mas parece ser lógico que alguém pensasse que numa época futura poderíamos construir máquinas que voassem. Mas Bacon foi extremamente genérico nisso, ele não descreveu como as máquinas voariam. É como eu falar que uma malha metroviária que una São Paulo ao Rio de Janeiro (se bem que o Rio não tem nem um sistema de metrô que preste).

Já na véspera século XX – em 1900, claro, já que ninguém começa a contar do zero – um engenheiro civil de nome John Elfreth Watkins escreveu um artigo para o Ladies’ Home Journal, uma espécie de Casa Cláudia da época, mas que ainda existe até hoje. O artigo chamava-se What May Happen in the Next Hundred Years e pode ser lido AQUI.

Vamos comentar um pouquinho. Primeiramente, Elfreth (um nome bem legal, parece até vilão de uma peça de Shakespeare) diz que haveria 350 milhões de cidadãos nos Estados Unidos. Bem, de acordo com o CIA’s World Fact Book, a população estadunidense (nome feio pra cacete, mas legal para se usar e bancar o revoltado pela Causa Operária) é de 313.847.465, mediante o dados de julho de 2012. Bem, nada mau. O bom engenheiro disse que a população seria mais alta e que este aumento na altura acarretaria numa melhora de saúde. Bem, mais ou menos. Primeiramente, que a altura média está aumentando isso é notório para qualquer um que tenha filhos e se lembre de como era tampinha na época do colégio. Entretanto, não se pode associar aumento da altura média com melhoria de saúde, por dois motivos: Primeiro, porque temos a ciência médica contribuindo com novos tratamentos e novos medicamentos; temos melhoria nos sistemas de limpeza urbana, coleta e reciclagem de lixo; além de termos ar-condicionado, alimentos mais nutritivos etc. Em segundo lugar, temos que levar em consideração não só o aumento da altura, mas da largura também, já que os norte-americanos. Para saber mais sobre isso, sugiro este artigo do Centro de Controle de Doenças de Atlanta.

Elfreth parece que pirou na batatinha numa contradição. Ele disse que automóveis seriam mais baratos que cavalos (salvo o pangaré do sucateiro perto da sua casa, um cavalo realmente é mais caro), mas também disse que as pessoas andariam em média 16 quilômetros diários. Bem, parece que o sedentarismo venceu o engenheiro. Ele ainda disse que haveria entrega de refeições quentes em domicílio, o que é um precursor ara o delivery, mas disse que o restaurante em questão iria recolher os pratos e talheres. Ele não contava com a invenção da quentinha.

Para ele, poucos medicamentos seriam engolidos. Er… creio que fica no zero-a-zero, pois temos muitos medicamentos por via intravenosa, mas que podem ser aplicados pela pele ou mesmo inalados. Em contrapartida, foram inventados outros remédios. Fica meio difícil saber se ele marcou ponto. Mas ele derrapou ao dizer que moscas, baratas e outros tipos de fauna indesejável não estariam mais presentes nos lares. A Seleção Natural marcou das suas. Ele também disse que não haveria mais animais selvagens. Bem, não posso deixar de ser cínico o suficiente para comentar que estamos aceleradamente cuidando disso.

Elfreth acertou ao dizer que haveria telefones no mundo todo, acertou ao relatar que poderíamos ver todo o mundo, acertou que haveria shows e concertos "telefonados" (aka, televisionados) diretamente até nossos lares. Acertou que fotos seriam telegrafadas (não, nada de e-mail; já existia telefotos em 1920). Acertou que haveria rosas negras, azuis e verdes (nem precisamos de engenharia genética. Mendel explica). Acertou que o carvão mineral deixaria de ser usado (bem, quase) para o aquecimento de lares. Elfreth só não acertou ao dizer que as letras C, X e Q cairiam em desuso na língua inglesa. Não caíram e, pior!, apareceu o miguxês. Sim, Elfreth acertou mais do que errou, mas errou ao dizer que haveria menos carros nas grandes cidades. O rodízio em São Paulo bem que tentou, mas mais fortes são os poderes do Jeitinho Brasileiro, outra coisa que Elfreth também não previu, assim como inadvertidamente previu que demoraria-se 2 dias para se viajar até a Inglaterra. Rapidamente de avião, uma eternidade esperando nos aeroportos, principalmente se forem brasileiros. 2 dias? Melhor colocar 2 semanas.

Saindo dos Estados Unidos e indo para a França, Jean-Marc Côté e outros artistas ilustraram como seria o mundo no século XX. As imagens são belíssimas e retratam (ho-ho-ho, delicioso pleonasmo não-vicioso), onde vemos como seriam as brincadeiras de crianças, os meios de transporte e as guerras. Aliás, a foto que mostra como seriam os colégios é meu sonho e me deixou com o coração embargado (sem ironia).

Ah, sim! E os indefectíveis carros voadores…

Como? Eu não coloquei imagem nenhuma? Bem, vá até o Public Domain Review e maravilhe-se.

Enquanto isso, edições de muitas revistas mostrando as tecnologias eque estavam sendo desenvolvidas requeriam uma criatividade imensa dos ilustradores, já que em quase totalidade, nem protótipo havia. Polo a cavalo sobre lanchas, estações orbitais, esquis puxados por helicópteros (Darwin de bloquinho na mão), uma máquina voadora capaz de usar íons para poder voar (??) etc. E não esqueçamos dos carros voadores. Que tara é essa por carros voadores, quando em Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley dizia que a nata endinheirada ficava zanzando de helicóptero para lá e pra cá. O que é isso senão o caminho que São Paulo está tomando, sendo a maior frota de helicópteros particulares do mundo?

Vocês poderão ver muitas capas de revistas com os artigos que citei acima AQUI (com direito a fonte que trazem outras pérolas. É diversão garantida!).

Pode ser mau-humor meu, mas não vejo com bons olhos o que chamam de "Futurologia", muito menos os lixos que designers inventam por aí em seus PC com um 3D Studio da vida. Então, vivam nos futuros, pessoal, porque nosso presente já suplantou muito do que achávamos que só apareceria nos séculos XXII, XXIII etc. Temos olhos biônicos, pernas mecânicas, medicamentos, aeronaves etc. Não temos robôs serviçais, não temos igualdade de classes e nem erradicamos a fome, miséria e a doença, por culpa do próprio ser humano que não só impede que mentes criativas resolvam os problemas da humanidade, como ainda cria outros problemas.

A despeito de tudo isso, temos mentes sonhadoras como Kepler e Tesla. Temos visionários como Elfreth e temos gênios como Isaac Asimov, Júlio Verne, Arthur Clarke e Ray Bradbury. Temos os enganadores e suas tolas ideias de bicicletas de vidro e biolamps que imitam árvores (mas bem menos eficientes) e os malditos carros voadores, quando se pode viajar de avião em preços irrisórios mediante promoções.

Continuem sonhando que estão vivendo no futuro de incertezas. Eu prefiro a maravilhas trazidas ao presente por pesquisadores do passado com uma verdadeira visão de futuro.

O misterioso mundo mágico e conspiracionista vindo dos céus
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Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

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  • Eduardo K. B.

    Hoje em dia temos o bom e velho Michio Kaku para nos fazer tais previsões :p

    Administrador André respondeu:

    O Tecmundo teve a infeliz ideia de chamá-lo de “maior físico do mundo”. Stephen Hawking é o quê? Deus não é, pois este é o Morgan Freeman.

    Eduardo. respondeu:

    @André, Ah, que jesus reencarnou em forma de negão todo mundo sabe, os documentário dele são ótimos. Enquanto ao nosso japinha,ele pode ser o maior físico no quesito visibilidade, mas mesmo assim isso não tira os créditos dele ser a pessoa que mais se aproxima com nossos queridos videntes do século XVIII.

    Administrador André respondeu:

    Videntes?

    Eduardo. respondeu:

    @André, No sentido de tentar adivinhar o futuro, não como aqueles que leem folhas de chá…

    Administrador André respondeu:

    Vc leu Perfil do Futuro, de Arthur Clarke? Compare o que tem lá e o que Michio diz.

  • Mari.

    Eu apenas desejo um futuro em que ninguém mais seja tolo de querer contar a partir do zero.

  • Ale

    Andre,acho que poderíamos chamar o Michio Kaku atualmente,como maior divulgador da Física,mas nao como o maior físico do mundo.Esse posto indubitavelmente é do Hawking.

    Administrador André respondeu:

    Acho os documentários dele muito chatos. Brian Greene é melhor, Brian Fox é melhor e o melhor de todos, em minha opinião, é Jim Al-Kalili.

    Em Física, pelo menos. Em Química, o melhor deles é Martyn Pollyakof

  • reinaldo

    Qual será o fetiche que as pessoas têm com carros voadores?
    Esse negócio nunca vai funcionar, e nem pela parte técnica, mas sim por causa da qualidade dos motoristas, que mal conseguem manobrar carro popular na vaga, imaginem um jato propelido.
    mesmo que seja totalmente automatizado, ainda será uma coisa para poucos, devido aos custos.