Pesquisadores gênios descobrem o óbvio: ter computador não faz alunos lerem mais

No mundo dos adoradores da Informática (vocês sabem… aquele pessoal que acha que tecnologia tem somente a ver com computadores), basta você dar um computador a uma criança e — PUMBA! — todos os problemas educacionais foram resolvidos. Eu, chato que sou, tenho que trazê-los à realidade. Não me entendam mal, mas acontece que profissionais entendem de seus ofícios e não os curiosos. Meu ofício é ensinar e lidar com alunos (nem sempre consigo que uma coisa esteja relacionada com outra), logo estou mais gabaritado de falar sobre ensino e aprendizagem do que alguém que fica num CPD 25 h/dia, penduradão no Twitter e dando tracert em sites só por falta do que fazer.

A questão dos computadores é óbvia para quem lida com alunos o dia inteiro. Prover assistencialismos e dar notebooks de presente a crianças pode garantir muita coisa, mas não que elas tirarão boas notas e terão bom desempenho escolar. Eu arrisco a dizer que acontece justamente o contrário. Dar um PC ou notebook não fará do seu filho um luminar da pesquisa científica e um estudante exemplar.

Alega-se uma evolução no conhecimento, mas alguém aqui viu isso? Temos mais alunos nos colégios, mas nunca se soube tão pouco. A escrita é péssima e confusa, letras ilegíveis e contextos deploráveis. E isso aliado a uma leitura, no mínimo, medonha.

Ah, mas estamos no futuro e todos usam teclados.

Só se for você. Canso de preencher formulários a mão, corrijo as provas a mão, lanço o diário online (e em papel TAMBÉM), é verdade, até o dia que o Sistema deu pau e todos perderam os lançamentos do ano TODO. Quer dizer, todos menos eu, pois eu tinha escrito no meu caderno, tinha uma cópia impressa do Excel e entreguei tudo à diretora, na base do "Se vira". Disse com firmeza que eu tinha feito meu trabalho e os responsáveis pela lambança que restaurassem os dados ou digitassem os meus, porque EU é que não ia fazer. Onde estava o seu Deus-Tecnologia, hein? Eu fui curtir as minhas ferias e os demais professores perderam bons dias redigitando tudo. Isso me deixou muito popular com eles, mas meu salário estava depositado e pouco me importei.

Você acha que todos usam teclados para escrever? Venha para a realidade, Caroline, a maioria dos médicos escreve a receita a mão (desnecessário comentar a letra). Não podemos generalizar tomando por base profissões que ficam em escritórios fazendo musculação nos dedos de tanto clicar em mouse (sim, eu sei que dedos não possuem músculos).

Eu já tinha escrito como o Google está nos emburrecendo, e nenhuma linha ali mudou de situação. Em reportagem do Estadão, alguns GÊNIOS chegaram à conclusão que computador não garante aprendizado. De acordo com um texto pra lá de mal-escrito, alunos acessam direto redes sociais, facebooks, twitteres etc e mesmo assim não leem livros. Se os manés prestassem mais atenção, bastava ver que pelo número de horas que essa molecada perde tempo em besteiras internéticas, eles não poderiam ler livro nenhum. A pérola da má redação vem no resultado de uma pesquisa, a qual transcrevo ipsis litteris, uma expressão que alunos de hoje com certeza não sabem o que significa (não conseguem nem escrever "com certeza" corretamente:

De acordo com pesquisa efetuada pelo Instituto Mapear para a Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro com 4 mil estudantes e 1,2 mil responsáveis, 93% dos alunos do ensino médio da rede pública do estado tinham celulares em dezembro de 2011 e 78% possuíam computador, sendo que 92% tinham acesso frequente à internet.

Em contrapartida, 14% dos alunos declararam não ter lido nenhum livro nos últimos cinco anos. Entre os que não leram nada, 17% residiam no interior e 12% na região metropolitana. Um livro foi lido no período por 11% dos estudantes; dois ou três livros por 26% e quatro ou cinco livros por 17%.

Entre os alunos que leram mais que um livro em média nos últimos cinco anos, a pesquisa registrou que 14% leram entre seis e dez livros, 8% entre 11 e 20 e 10% leram mais que 20 livros em cinco anos.

Dos que não leram nada 17 moram no campo, 12 moram na cidade e os outros 71% moram ONDE?

Os que leram, aposto, leram aquelas merdas de livros paradidáticos vagabundos. Isso SE leram, e não como era nos tempos do século I, onde a pessoa dizia que, sim, tinha lido alguns livros, quando na verdade ele apenas ouvia alguém ler um livro para um enorme grupo de pessoas. Eu, particularmente, acho que temos que dar uma reformulada no que os garotos devem ler para os trabalhos escolares. Convenhamos, "Lucíola" é um pé no saco, "Senhora" é um livro vagaba e os de Machado de Assis até são bons, mas o vocabulário assusta uma criança de 13 anos. Sério, gente. Eu li um livro paradidático do Josué Montello, o qual eu tive que pegar um dicionário. Eu já não estava entendendo nada (aliás, que história vagabunda, hein, Josué? Seus ensaios eram bons, mas você não sabia escrever para crianças).

Monteiro Lobato sabia escrever para crianças e… ops. Esqueci. Ele é racista e sexista. Vamos banir seus livros. Melhor mesmo é disponibilizar Bíblias para as crianças. Laicismo? Meh! Se bem que é uma história com muitas páginas e muitos personagens. Se "pastores" nunca a leram integralmente, não será o aluno.

Eu gostei, entretanto, das versões dos clássicos brasileiros sob a forma de quadrinhos. Muito melhor e com texto original. Mesmo complicado, o formato de quadrinhos atrai a atenção. Existem edições dos clássicos da literatura universal em quadrinhos também. Se bem que as psicopedarretardadas são capazes de serem contra. Eu visitei um colégio certa vez em que a Biblioteca estava proibida de receber quadrinhos e gibis da Turma da Mônica, pois a diretora achava que era anti-cultural. TURMA DA MÔNICA É ANTI-CULTURAL!!!!! Do alto do meu ceticismo, eu disse na hora: Ah, eu não acredito!!!

Monteiro Lobato e racista, Turma da Mônica é anti-cultural. Vamos dar o que para a meninada ler? Paulo Coelho? (bem, melhor Paulo Coelho que Ruth Rocha).

Eu proponho coisas mais modernas. Harry Potter, O Hobbit, Invenção de Hugo Cabret (este livro é FANTÁSTICO!)  e até mesmo o Contos de Fada Politicamente Corretos (muito engraçado. Recomendo). Desde História Sem Fim até a Trilogia da Herança, nós temos que dar a droga de um motivo pra ler. Dar um PC fará justamente o oposto, afastará as crianças da leitura. Tablets? Não, deem um Kindle Fire. Maravilhoso em suas limitações, e voltado para livros e multimídia.

Sejamos sinceros, a Internet não ajudou a Educação, mais atrapalhou. Por culpa de quem? DE VOCÊ, pai vagabundo, que prefere dar uma droga de computar ou um iDroga qualquer e acesso à internet. E por que você fez isso? Para se ver livro daquilo que você fez: seu próprio filho.

Acesso à Internet tem que ser monitorado sempre. Computador na sala, à vista de todos.Facebook? Sim, claro. Diversão? Eu jamais mandaria tirar isso das crianças. Responsabilidade no uso? IMPERATIVO! Ver com quem falam, o que comentam em blogs e se trapaceiam nos trabalhos copiando e colando texto da wikipédia, enquanto jogam os deveres de casa no Yahoo Respostas. Professores ficam de mãos atadas e coordenadores querem puxar o saco de diretores que visam apenas a mensalidade. Culpa de quem? Do pai vagabundo que escolhe colégio onde é fácil passar e não um rígido (obrigado por existirem, colégios católicos e militares), que fará você se aporrinhar em dar limites para aquela pequena praga malcriada que você jogou no mundo.

As crianças não leem mais, não escrevem mais e mal entendem o que falamos em sala. E isso não será resolvido com o mais caro dos computadores e a velocidade de banda mais rápida.

14 comentários em “Pesquisadores gênios descobrem o óbvio: ter computador não faz alunos lerem mais

  1. Confesso que a internet me permitiu descobrir mais coisas. Muita coisa que eu sei devo à internet (leitura de diversos assuntos, tanto em blogs como em sites voltados para divulgação de Ciências).

    Temos que reconhecer que estamos em um mundo novo e esse tipo de tecnologia está realmente presente em nossas vidas. O fato é que as redes sociais e quaisquer outras coisas na internet chamam mais a atenção (muito mais a atenção) que livros que “devemos” ler para tal prova. O que era pra ser prazeroso se torna enfadonho.

    Acho mesmo que os livros atuais podem ser uma boa saída para essa falta de leitura. Não é por que o aluno está lendo um livro X que não foi feito por um autor clássico acabe significando que o livro é uma porcaria.

    E como você mesmo disse, acharam a Turma da Mônica como anti-cultural. Temos que mudar nossas cabeças para a realidade.

    P.s.: Hugo Cabret é realmente fabuloso!

  2. Hunnnn… relutei em comentar pois tratar de um assunto tão discutível e ainda por cima, na sua sala de estar é difícil. De qualquer forma, lá vai… André, nascemos numa diferente ( melhor? pior? ) pode até ser, mas era diferente. Concordo que INÚMERAS crianças, hoje, não saem mais de suas casas para brincar de pique-esconde, pular corda, brincar de pião, bola de gude, soltar pipa, andar com pés descalços e curtir um gostoso banho de chuva!! Elas ficam “internadas” em seus PC´S e afins! Com isso cria-se inúmeros comprometimentos, desde leitura até a escrita! Porém temos que culpar também o sistema à nossa volta, tanto o familiar quanto o educativo! Você mesmo comentou a falta de bons livros… isso tudo pesa!! A internet é uma ferramenta, como qualquer outra, temos é que saber usar. Existe um ditado que diz o seguinte: “pais omissos, filhos desajustados”… isso é uma realidade. Sei que você briga por uma educação melhor ( sempre deixa isso transparecer em seus textos ), parabéns… mas creio que antes mesmo de existir a internet, a letra do médico “nem todos” era uma merda (desculpe algum médico presente)
    alunos eram rebeldes, a educação SEMPRE foi precária, professores SEMPRE mal remunerados, livros paradidáticos passavam pela censura dos militares antes de entrar na sala de aula… enfim, meu amigo… creio que nossa geração viveu um momento diferenciado. Desculpe se estendi o meu comentário! Valeu

    1. Não há falta de bons livros. O que falta é pais responsáveis e escolas que vise ensinar ao invés de servirem de creche e depósito de aborrecente.

      mas creio que antes mesmo de existir a internet, a letra do médico “nem todos” era uma merda (desculpe algum médico presente)

      A questão não é a letra do médico ser uma merda. Simplesmente estamos institucionalizando que escrever à mão é coisa retrógrada, pois os modernosos amantes da tequinolojia têm letra ruim, mal sabem escrever corretamente sem um corretor ortográfico e acham que todos devem ser tão idiotas quanto eles.

      alunos eram rebeldes, a educação SEMPRE foi precária, professores SEMPRE mal remunerados, livros paradidáticos passavam pela censura dos militares antes de entrar na sala de aula…

      Não é verdade. Já teve tempo que escolas públicas eram melhores que as particulares e professores eram bem remunerados. hoje temos professores bem remunerados: são a racinha que servem de showman em cursinhos e se dizem professores, quando não passam de uma escumalha maldita.

      1. @André, No quesito de remuneração você tem conhecimento de causa, mas eu lembro, desde criança, que salário de professor sempre foi minguado ( escutei isso minha vida toda). Quanto as escolas públicas, concordo, pois cursei meu primário numa escola aí no Rio e no meu peito ainda tinha aquele escudo com as letras E.P ( escola pública ) bordado em azul no bolso ( lembra dessa época???).

  3. Quem dera sir Isaac Asimov tivesse acertado aquela previsão no famigerado vídeo do yt. Para cada um que usa os PCs a seu favor, há um mundaréu de pessoas usando orkut, ainda.
    Bem, pelo menos aqui em SP as coisas não estão tão ruins, na escolinha (publica) da minhã irmã já deram para ela alguns livros, e o mais recente é justamente Hugo Cabret. Tudo bem que é um acerto entre 20 erros, mas é alguma coisa.

    Mas, de quê adianta se na casa da maioria dos colegas dela não há incentivos para estudo? Gostava muito de ver minha mãe voltando das reuniões e dizendo que “esculhambava” as outras mães que não gostavam quando os professores reclamavam de seus filhos, como se o dever de educá-los fosse exclusivamente deles; note como o sentido de “educação” já encontrava-se distorcido faz alguns anos, que dizer de agora? Imagino o que vc deve passar sendo professor inclusive para aborrecentes. A escola, os professores e a “tecnologia” são o escape para este tipo de pais que não têm responsabilidades.

  4. Bah, eu só ganhei computador aos 12 e nem por isso lia antes. Depois que ganhei, fiquei pendurada o dia inteiro em orkut e MMORPG da vida (parei com isso :mrgreen: ), mas não atribuo isso exclusivamente ao acesso à internet, mas principalmente por falta de incentivo. É necessário estimular a criança a criar o hábito da leitura, não é por que tem internet em casa que isso será necessariamente mau, é culpa de pais omissos, além do nosso excelente sistema educacional que é porco e desestimula o aluno, como aconteceu recentemente comigo, fiz um texto para um jornaleco da escola mês passado e [ironia] usei palavras extremamente difíceis, sabe, aquela coisa que só gente erudita vai entender, como “vilipendiados”, “chafurdar”, “subjugar”, “pixotada” [/ironia] e a professora alterou ele o texto inteiro, pois “quem vai ler não vai conseguir entender” :x Peeeeraí, eu não escuto desde a quinta série que devemos ir pelo contexto? Ela não deveria ter de forma alguma ter alterado meu texto. Se eu usei palavras “difíceis” (não vi nenhuma, mas tudo bem) ela deveria ter então elogiado. É bobagem, eu sei, mas fiquei chateada com isso. Enquanto em casa, tenho acesso a internet e se quiser fico o dia inteiro, mas não é por isso que deixo de ler. Desviei um pouco, sei disso, mas acho que a causa do problema é a falta de compromisso dos pais com a educação dos filhos (e do Estado também).

    1. Dicionário é uma coisa que não ensinam mais aos alunos como se usa. É engraçadissimos vê-los procurar alguma palavra lá, já que eles não sabem o que significa ordem alfabética.

  5. O computador hoje em dia é usado mais para o entretenimento do que para a busca do conhecimento. As redes sociais que o digam.

  6. É a primeira vez que posto aqui, mas acompanho o blog há algum tempo.

    Minha formação inclui um curso de magistério no antigo CEFAM, mas nunca exerci a profissão. Atualmente estou graduando como tecnólogo em TI

    Sou adepto do minimalismo tecnológico e penso que alunos não precisam de computadores em sala de aula. Por outro lado, os professores podem usar computadores para enriquecer o conteúdo apresentado aos alunos, basta que vejam necessidade.

    Concordo que corretores ortográficos e outras facilidades nos tornam acomodados, pois sinto isso em meus textos, mas uso um corretor em respeito ao possível leitor que venha a se interessar pelo meu texto.

    Computadores são apenas ferramentas.

    Gosto muito do blog! :smile:

  7. “Prover assistencialismos e dar notebooks de presente a crianças pode garantir muita coisa, mas não que elas tirarão boas notas e terão bom desempenho escolar. Eu arrisco a dizer que acontece justamente o contrário.”

    A sua intuição está funcionando bem, André. Lembrei-me de uma pesquisa (feita a uns quatro ou cinco anos atrás), mostrando que o uso cotidiano de computador com Internet não só não melhora o desempenho escolar como pode até piorar.

    Aqui a pesquisa (http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-73302007000400003&lng=en&nrm=iso&tlng=ptt). Deliciem-se.

  8. Pois é, na década de 70 as melhores escolas eram as públicas e as católicas.

    Lembro que Monteiro Lobato despertou minha sede pela leitura. Li todos os que consegui ter acesso. Tinha 12 anos…

    Meu record foi 150 livros lidos em um ano, aos17. Papillon foi lido em 72h (comprei na sexta, ao meio-dia e terminei na segunda).

    Criei um esquema onde eu lia um livro durante o o dia e outro a noite

    Hoje em dia tenho tempo apenas para ler dois jornais online e visitar alguns blogs.

    Mas, acredito, continuo lendo. (Sem contar que assino a Veja).

  9. Pingback: Blog do Lucho

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