Tratando da imundície que nós não vemos

Meu primeiro computador era um 586 — 133MHz, com 8MB de memória e HD de 1 GB. Veio junto um monitor CRT de 14 polegadas (aspas são símbolos normatizados para segundos de arco), um teclado (101 teclas) e um mouse de bolinha (não, não tinha kit multimídia, pois a grana não deu). Depois comprei uma impressora HP 680. Hoje, eles não estão mais comigo. O que aconteceu com eles? Eu sinceramente não me lembro mais. A melhor alternativa é o lixo mesmo. A impressora eu sei que graças à Light, uma sobrecarga deu fim a ela, junto com uma geladeira, 2 radio-relógios e meu video-cassete. Estou esperando pela indenização até hoje, mas naquela época eu não tinha dinheiro para pagar advogado. Que fim levou tudo aquilo? A geladeira eu consertei e o vídeo eu dei para um técnico amigo meu, em troca de um pichulé, e os rádio-relógios foram ofertados num ritual cármico junto à COMLURB. O que aconteceu com o micro, com monitor, teclado etc? Não deve ter sido diferente dos rádio-relógios.

Diariamente, toneladas de "lixo computacional" (e eu estou me referindo ao hardware e não àquele monte de besteiras que você salva em seu HD) são jogados no ambiente. Provavelmente, ainda hoje encontraremos computadores da década de 80 apodrecendo em algum lixão esquecido por Deus e imundo por natureza. Peças de ferro, plástico e metais nobres e não tão nobres assim estão lá, esperando o fim inexorável, ditado pelas leis da Química. No caso dos plásticos, isso demorará décadas, no caso do ferro, sem problemas. Das cinzas às cinzas, do óxido de ferro ao óxido de ferro. Mas e os metais mais pesados, como o cobre? E as terras raras? Tintas (não só da pintura do equipamento, mas dos cartuchos das impressoras) normalmente são derivados de petróleo e não-raro tóxicas ao meio-ambiente e ao ambiente inteiro (adoro esta piadinha daquela prova falsa do ENEM).

Isso parece muito, não é? Eu já tive 4 celulares.  Estou no quinto. Todos eles usando metais como mercúrio, cádmio e lítio. Some-se também o plástico da carcaça, borracha etc. A cada momento, estamos jogando toneladas de lixo de tecnologia de informação fora. Computadores, notebooks, impressoras, scanners, máquinas fotográficas, pilhas recarregáveis, baterias, telefones (celulares ou não), GPS, DVD players etc. Tudo indo pro ambiente. Seus materiais sendo muito difíceis de serem reaproveitados, restando a reciclagem. Estamos preparados para isso? Os 5 R da educação ambiental (Reduzir, Reutilizar, Reciclar, Reeducar e Replanejar) são suficientes? Creio que não, é mais profundo que simples palavrinhas bonitas, que usam a mesma inicial para ter apelo de marketing. O mundo platônico onde as ideias são perfeitas não se sustenta frente à realidade.

Se isso já parece ruim, o que dizer da informação em si. Sim, estou falando do monte de uns e zeros que produzimos todos os dias. Desde artigos informativos, inteligentes e enormemente elucidativos como este aqui, até aquelas besteiras que são defecadas nos Orkuts, Twitters e Yahoo Respostas da vida. Isso aliado a todas as "informações" (informação não é conhecimento) que produzimos e acaba lotando não só nossos HD, como fica solto em algum lugar esquecido pelos deuses da Internet lá pelos cantos da Morávia setentrional, onde foi parar um pacote de envio do seu e-mail enviado para sua amante que mora num sobradinho na av. Mem de Sá.

A rigor, os dados dos computadores não são apagados nem quando você formata a máquina. Eles estão, esperando o Jack Bauer chegar e colocar uma 9 mm na sua cabeça e exigir que você entregue tudo oque tem no redondo (estou falando do disco rígido). Mesmo que se formate, isso não é garantia de estar a salvo, posto que a formatação apenas apaga a indexação que o Sistema Operacional fez. Você pode ter dificuldade de acessar os dados, mas eles estão lá, guardadinhos. Para isso, existem empresas especializadas de reaver os dados, para o caso de seu irmão desgraçado ter formatado a sua maquina depois de ter pego um vírus por acessar conteúdo pornográfico.

Esse tipo de poluição digital é discreto a ponto de não sabermos mais o que se esconde nas entranhas de nossas próprias máquinas. Então, se você pensa que aquelas suas fotos completamente bêbado e vestido de Carmem Miranda do Brejo foram pro limbo, tome cuidado! Nossa mente habitou-se a separar o que é material do não-material. O que é material é sólido (ou líquido ou gasoso, mas você compreendeu o que quis dizer) e pode ser visualmente descartado, onde fixamos em nossa mente que nos livramos da praga e/ou destruimo-la completamente. Mas como lidar com o que não é material? Como fazer uma pré-seleção do que serve, o que não serve e como nos livrarmos dessa montoeira de besteiras e dados desnecessários? De princípio, como determinar o que é realmente importante e o que é lixo?

O dr. Ragib Hasan, professor do Departamento de Ciências da Computação e da Informação da Universidade do Alabama,  e o dr. Randal Burns, professor associado do Departamento de Ciência da Computação da Universidade Johns Hopkins, se debruçaram sobre este tema. Diferente dos eco-chatos que ficam bradando que temos que usar os malditos 5 R por causa de uma garrafa PET, os dois pesquisadores se preocupam com o que não é material, com sugestões do que pode ser feito. Para tanto, eles necessitavam primeiramente descobrir que tipo de dados de computador pode se qualificar como "lixo". Em um artigo muito interessante publicado no arXiv.org, sob o título The Life and Death of Unwanted Bits: Towards Proactive Waste Data Management in Digital Ecosystems (A Vida e a Morte dos Bits Indesejáveis: Gerenciamento Proativo de Dados de Resíduos em Ecossistemas Digitais), cujo PDF você pode baixar AQUI (sim, em inglês. Faça um curso).

Os pesquisadores sugerem que trechos de dados de programas que serão apagados para se instalar uma nova versão sejam reaproveitados pela nova versão a ser instalada; o tipo de coisa que não me parece uma boa ideia. Segundo eles, deve-se haver uma melhor sistemática na feitura de programas, de forma a gerarem arquivos de menor tamanho, evitando que bits se percam nos recônditos do seu disco rígido.

Levando em conta a (ao meu ver estúpida) ideia de colocar nossas informações na "nuvem", onde dados e programas ficariam armazenados num proto-skynet, vai de vento em popa, mais dados ficarão dançando para lá e pra cá, gerando mais lixo digital, muitas das vezes mais inútil do que o seu cunhado. Mas nem tudo é caos nessas previsões. Os restos de informações digitais que ficam perdidos podem ser transformados em conhecimento. Hasan e Burns argumentam que os dados obsoletos também podem ser extraído para reunir padrões sobre as tendências históricas, o que pode não valer nada agora, mas servirá como uma espécie de livro de histórias sobre o nosso comportamento hoje, ajudando cientistas do futuro a entender essa bagunça que chamamos de sociedade atual (isso se ainda houver alguma sociedade num futuro não imediato).

Vale a pena dar uma lida no documento, mesmo você sendo profissional da área ou não.

12 comentários em “Tratando da imundície que nós não vemos

  1. A rigor, os dados dos computadores não são apagados nem quando você formata a máquina. Eles estão, esperando o Jack Bauer chegar e colocar uma 9 mm na sua cabeça e exigir que você entregue tudo oque tem no redondo (estou falando do disco rígido). Mesmo que se formate, isso não é garantia de estar a salvo, posto que a formatação apenas apaga a indexação que o Sistema Operacional fez. Você pode ter dificuldade de acessar os dados, mas eles estão lá, guardadinhos.

    Isso quer dizer que mesmo abrindo espaço no HD o arquivo está lá ainda? Mas por que quando o apagamos os arquivos o espaço livre no HD aumenta?

    (Desculpe a pergunta leiga)

    1. @Nihil Lemos, O SO tem uma “tabela de índices” que referencia “partes” do HD, quando você deleta um arquivo, o que o SO faz é marcar o índice como “vazio”, mas ele não apaga a informação do HD.
      A formatação física é uma opção para fazer o HD voltar a um estado quase de fábrica e é muito complicado recuperar dados de um HD formatado fisicamente, uma vez que os setores do HD são preenchidos com “informações fictícias”, mas é um processo mais complicado e demorado.
      No fim, se quiser que as informações desapareçam mesmo, taque fogo no HD!

      Sobre a questão de reaproveitar bits, acho que é um excesso, além de complicar muito o processo de desenvolvimento.

    2. @Nihil Lemos, Meu professor de T.I. afirma que é possível recuperar dados de até 8 formatações passadas de qualquer HD… Eu só consigo recuperar até 3 e olhe lá. Assim como o Skin disse, se quiser realmente livrar-se de alguma informação, melhor destruir a fonte :3

  2. Eu conheço um bocado de gente que se descabela de preocupação com a possibilidade de não conseguir zerar o HD por completo. Penso que só o fato de garantir mais espaço no disco rígido já deveria resolver o problema, não? Não. Tem a indefectível questão da segurança. Afinal, precisamos evitar o acesso dos agentes da alta espionagem aos nossos segredos…
    Sem querer ofender se alguém aqui sofre desse temor, mas a preocupação com a recuperação de dados ultrassigilosos de nossos HDs refletem um egocentrismo latente e inútil do ser humano. Acredito que apenas uns 7,2% da população mundial deve realmente justificar essa preocupação. O restante, onde nos enquadramos, não. A gente tem mania de se considerar mais essencial e importante do que realmente somos. O que tem nos nossos HDs que interessaria a um espião digital ou um ex-agente da KGB freelando na área da informática? Nada. A não ser que você seja pedófilo, ninguém quer investigar o que você guarda no seu HD. Hoje em dia, nem seu irmão mais novo.
    Ah tá, temos dados bancários… ok. Então é só consultar o valor e o trabalho que se gasta para recuperar um HD formatado para vermos que nossa conta bancária nem de longe compensa o esforço. A minha, por exemplo, não compensa nem desrosquear o primeiro parafuso.

    Enfim, como nos lembra o texto “àquele monte de besteiras que você salva em seu HD”, podemos ficar tranquilos porque ninguém está interessado no que guardamos em nossas lixeiras de 500GB. Temos inúmeras outras coisas para nos preocupar… as contas a pagar por exemplo, que ninguém mais, além de nós e os credores, está interessado em saber também.

    PS.: se meus bits obsoletos servirem para nortear futuros estudiosos, temo que a história da humanidade está f…

    Abs

  3. @André,

    Notei um ponto interessante em seu post:

    “Levando em conta a (ao meu ver estúpida) ideia de colocar nossas informações na “nuvem”, onde dados e programas ficariam armazenados num proto-skynet, vai de vento em popa, mais dados ficarão dançando para lá e pra cá, gerando mais lixo digital”.

    Diariamente surgem serviços de hospedagem na “nuvem” (Que de “nuvem”, não tem nada. Ocupam espaço físico e consomem energia).

    Eu mesmo, tenho contas em alguns desses serviços, que criei para testar (E nem me lembro mais do login).

    Estão lá megas e megas de dados (chupa Laguna!!!) que nunca mais serão acessados.

    É lixo! Está lá, ocupando espaço e consumindo energia!

    O lixo que eu coloco em meu HD não consome nenhuma energia adicional, apenas espaço.

    1. Isso aliado ao fato que estes serviços mantém backup. Uma hora todo mundo terá seus dados na “nuvem”, e então alguém puxa a tomada.

      Daria um livro cyberpunk excelente. ;)

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