Pesquisa diz que escolha religiosa faz cérebro encolher. Como assim?

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Eu sou um defensor da Ciência. É ela que nos diferencia dos outros animais, pois um chimpanzé até pode fazer ferramentas, mas apenas seres humanos questionam o seu funcionamento e procura melhorá-las. Eu achei muito estranho a notícia que a Ciência Hoje trouxe (por sinal, MUITO mal escrito!). Segundo a reportagem, uma pesquisa diz que dependendo da escolha de uma determinada religião, partes do cérebro podem ficar atrofiados. Estou esperando ver quando isso sairá no Terra…

A drª Amy Owen é psicóloga pela Luther College, com doutorado em Psicologia Educacional pela Universidade Wisconsin-Madison (eu realmente preciso comentar?). Atualmente, ela trabalha na Universidade Duke, no Centro para Espiritualidade, Teologia e Saúde.. A Duke é considerada uma das 10 melhores universidades norte-americanas; seu lema é Ervditio et Religio (Aprendizagem e Religião), e não, Wikipédia, não é Conhecimento e Fé; seu latim fede. Eu ainda me recuso a escrever U em qualquer coisa em latim. A letra "U" não existe no latim clássico. Os "eruditos" da Duke parecem não saber isso.

Voltando ao que interessa: O artigo da Ciência Hoje já dá uma suave patinada ao dizer que "experimentos já mostraram que praticar uma religião traz benefícios para a saúde na terceira idade". Daí, o artigo vem com o trabalho questionável da "dona" Amy, o qual diz que voluntários submetidos a uma entrevista, para depois serem analisados num imageamento por ressonância nuclear magnética (ou "emarái", se você assiste ao House). Na magnífica redação da Ciência Hoje, a conclusão dos autores foi que "protestantes têm cérebro maior que o de cristãos (no caso, também protestantes) que tiveram uma epifania ou experiência de conversão, bem como  o de católicos apostólicos romanos e de pessoas sem religião" (sic).

Senhor redator da Ciência Hoje, QUE DIABOS ISSO SIGNIFICA? Protestantes são ou não são cristãos? Então, os cristãos protestantes "normais" (se é que algo é normal no tocante à psique humana) possuem mais cérebro que os que estão recém-convertidos, católicos e os que não possuem religião? Bem, vamos à pesquisa original da "dona" Amy. Ela publicou o seu trabalho na PloS One (que já não goza de boa reputação), cujo resumo (abstract) podemos ler abaixo, com tradução minha:

Apesar de um crescente interesse nos caminhos espirituais, crenças e práticas estão refletidos na atividade cerebral. Houve relativamente poucos estudos com dados de neuroimagem para avaliar possíveis relações entre fatores religiosos e neuroanatomia estrutural. Este estudo examinou as relações entre potenciais fatores religiosos e alteração do volume do hipocampo, usando dados de imageamento por ressonância magnética de alta resolução de uma amostra de 268 adultos mais velhos. Os fatores religiosos avaliados incluíram mudança de vida com experiências religiosas, práticas espirituais e os membros do grupo religioso. Volumes do hipocampo foram analisados ??utilizando o programa GRID, que é baseado em um método de contagem de pontos manual e permite a determinação semi-automatizada da região de volumes de interesse. Significativamente, a maior atrofia do hipocampo foi observada em participantes que relataram uma experiência de mudança de vida religiosa. Uma atrofia do hipocampo significativamente maior também foi observada desde o início até a avaliação final entre os nascidos de novo protestantes, católicos e os que não possuem nenhuma filiação religiosa, em comparação com os protestantes não se identificam como "renascidos". Essas associações não foram explicadas por fatores psicossociais ou demográfica, ou o volume de base cerebral. O volume do hipocampo tem sido associado a resultados clínicos, como depressão, demência e doença de Alzheimer. As conclusões deste estudo indicam que a atrofia do hipocampo no fim da vida podem ser singularmente influenciados por certos tipos de fatores religiosos.

Entendi. Nossos protestantes são melhores do que os demais. Ok.

As idades dos pacientes examinados variam de 58 a 84 anos, e não foi dito, ao que parece, o grau de instrução dessas pessoas, estilo de vida, renda etc. Esta pesquisa demorou cerca de 10 anos (!), para analisar 268 pessoas apenas? Eu gostaria de saber: Hindus foram entrevistados e analisados no "emarái"? Católicos ortodoxos? Judeus? Espíritas? (não falarei umbandistas nem adeptos do candomblé). E quais protestantes foram analisados? Protestantes seguidores do protestantismo clássico (Lutero, Zwinglio e Calvino) ou essa coisa neo-pentecostal dos Jim Carey, digo, Jimmy Swagart da vida? Que diabos de pesquisa é essa?

Eu acho temerário qualquer associação de uma determinada posição filosófica/religiosa em relação à inteligência. Conheço ateus idiotas (muitos dos quais saem daqui me xingando), como conheço religiosos inteligentes, e na mesma medida conheço religiosos imbecis (que também saem daqui me xingando) e ateus inteligentes. Se imbecil ou não vai muito além do fator religioso. Quando pesquisas como essa procuram dizer que A possui hipocampo melhor que B, não é muito diferente de um idiota dizer que o número de ateus subirá a ponto de eliminar a religião. Ser religiosos não o fará ser m,ais inteligente ou mais burro. Você continuará inteligente ou burro, é algo plenamente seu, independente do que você queira ser.

Isso aliado a artigos pessimamente escritos como este da Ciência Hoje, acabam mais confundindo do que elucidando; e isso numa revista que se diz um dos melhores portais de Ciência no Brasil, pois ficaria imparcial dizer que é o melhor (sic), é muito, muito sério. Não que eu espere que jornalistas (cuja profissão poderia ser extinta de vez, ao lado de pedagogos) tenham a menor noção do que estão escrevendo, mas fica a pergunta: quem é o editor desta revista? Outro jornalista?

Sobre a pesquisa, não há muito mais a ser dito além do que escrevi: é idiota e cheia de incongruências. A PloS One é criticada pelo fato que basta você pagar 2 mil doletas que seu artigo é publicado, apesar de eles jurarem de pés juntinhos que há uma revisão por pares séria. Estou começando a criar dúvidas a este respeito.


Fonte: Ciência Hoje, vol 48 / nº 283, página 16.

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Sobre André Carvalho

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