Fóssil encontrado nos traz mais informações sobre os antepassados dos seres humanos

Cientista italiano reproduz o Sudário de Turim com tecnologia medieval
Entendendo o agnosticismo

Bem-vindos a mais um capítulo da história da humanidade. Há muito tempo, há cerca de 4,4 milhões, numa galáxia que trata-se da nossa mesma, um hominídeo caminhava pela Terra, mas não na cidade de Tóquio. Este indivíduo recebeu o nome de Ardipithecus ramidus (retratado artisticamente na ilustração ao lado: clique para ampliar), o qual vivia nas florestas na Etiópia pré-histórica. Quinze anos atrás, o Dr. Tim White, da Universidade de Berkeley, chefiando uma equipe de cientistas etíopes e norte-americanos, publicou o primeiro relato do Ardipithecus, que acabara de descobrir. Mas era apenas um relatório preliminar, e White prometeu mais detalhes mais tarde, uma vez que ele e seus colegas tinham cuidadosamente preparado e analisado todos os fósseis que haviam descoberto. Esse “mais tarde” foram esses 15 anos, mas a Ciência não tem pressa.

Reconstruir um fóssil particularmente tão delicado como Ardipithecus é algo trabalhoso, sujeito a sérios problemas, como desmontar tudo ou mesmo destruir a amostra. Assim, é preciso muita habilidade e cautela. Mas valeu a pena. O trabalho gerou uma profusão de artigos na prestigiosa revista Science, mostrando que nosso amigo Ardipithecus trata-se de uma coleção de ossos enigmática, e que desnuda mais um trecho de nossa história pessoal, quando nossos ancestrais hominídeos começaram a se espalhar pelo planeta. Abaixo, vemos parte dos fósseis encontrados. Dê “Olá” pro seu tatatatatatatatatatatatataravô.

Ardipithecus ramidus

Obviamente, meus poderes mediúnicos dizem que o pessoal vai chiar porque não encontraram uma ossada perfeitinha, como coisa que algo ficaria perfeitamente inteiro depois de mais de 4 milhões de anos. Só podemos perceber a real importância disso quando olhamos um pouquinho para trás e nos lembrarmos da descoberta de outro fóssil importantíssimo na história humana: O Australopithecus afarensis que ficou conhecido como Lucy (ou Luzia, caso você seja um purista lusófono)

No início dos anos 1970, o próprio Tim White fazia parte de uma equipe de pesquisa que encontrou o que era, na época, o mais antigo hominídeo conhecido: um fóssil de 3,2 milhões anos de idade, o qual batizaram de Australopithecus afarensis. Para facilitar, deram o nome de Lucy. E é aqui que chegou a vez dos paleoantropólogos, que analisaram o fóssil e determinaram que Lucy possuía medidas semelhantes a um chimpanzé, com braços longos e mãos curvas e outras características insinuando que ela podia subir em árvores. Mas ela também tinha os pés rígidos, com polegares avançados, o que conferia uma adaptação para andar na terra firme.

A bem da verdade, Lucy não foi exatamente o fóssil mais antigo encontrado. O hominídeo Tschadensis Sahelanthropus remonta entre 6 e 7 milhões de anos. Mas os cientistas só encontraram pedaços de seu crânio. Outra espécie, o Orrorin tugenensis, é de 6 milhões de anos, mas seu único vestígio foi um osso da perna. No entanto, Lucy nos trouxe mais do que um único osso, e os cientistas têm aprendido muito com estes fósseis pré-Lucy. O problema é a reconstrução dos esqueletos de todas as criaturas encontradas.

O Ardipithecus ramidus ofereceu um probleminha similar no início. O primeiro relatório ofereceu detalhes sobre parte de um osso da mandíbula de 4,4 milhões de anos. Logo depois, a equipe de White encontrou mais ossos fossilizados; da mão do hominídeo, crânio, pélvis, pés e assim por diante, somando um total de 110 peças ao todo. Contudo, encontrar essas peças foi apenas o início de trabalhos da equipe. Através de tomografia computadorizada, os cientistas conseguiram remontar as peças, num quebra-cabeças que contou-lhes seus segredos escondidos por milhões de anos.

Tudo isso, claro, aconteceu em rigoroso sigilo. Não se publica achismos na Ciência. No máximo, publicam-se hipóteses, junto com as evidências que as sustentam, enquanto estas são testadas. Cientistas do mundo todo acompanham as publicações, muitas vezes fornecendo dados para complementar a pesquisa. Em contrapartida, não se pode afirmar nada com leviandade; mesmo porque, muitas instituições de pesquisas recebem financiamento e não podem dar de bandeja seus achados para outros pesquisadores, pois estes podem acabar com o reconhecimento sobre o trabalho de outras pessoas.

A pesquisa sobre o A. ramidus mal está no início, mas algumas coisas interessantes já foram divulgadas, como com relação aos dentes dele.

Normalmente, nós, seres humanos do sexo masculino, possuímos dentes caninos de tamanho similar aos caninos das mulheres (salvo se você for um vampiro, mas estou deixando as mitologias de lado). Em outras espécies de primatas, os machos possuem caninos maiores que os caninos das fêmeas, onde uma explicação seria a competição entre machos por uma determinada fêmea ou para defender seu território.

Seres humanos possuem caninos atarracados, que muitos cientistas tomam como um sinal que a competição entre nós, primatas sem rabo, tornou-se menos intensa na nossa linhagem dos hominídeos. Isso foi provavelmente devido a uma mudança na vida familiar. Chimpanzés machos competem entre si para acasalar com as fêmeas, às vezes de forma violenta, mas eles não ajudam com os filhos quando eles nascem. Humanos formam títulos de longo prazo, com os pais ajudando as mães, por exemplo, para obter mais alimento para as crianças comerem. Com crianças mais bem alimentadas, há uma probabilidade maior de elas se manterem vivas, caso contrário, essas crianças não sobreviveriam muito tempo para crescer, acasalarem, gerarem novos descendentes e assim por diante. A Seleção Natural dá, a Seleção Natural toma…

Como qualquer um que vá numa boate pode atestar, ainda existe competição entre machos humanos, mas é muito menos intensa do que em outras espécies, se bem que muitas vezes agimos muito mais selvagemente e de maneira irracional, mas nada é perfeito, não é mesmo?

White e seus colegas encontraram muitos dentes de diversos indivíduos diferentes, de modo que puderam comparar os caninos de machos e fêmeas com alguma confiança. Os dentes do sexo masculino revelaram-se surpreendentemente embotados. Este resultado sugere que os hominídeos deslocaram-se de uma estrutura social tipicamente de macacos, no início de nossa ancestralidade, isto é, eles passaram a se diferir do que seriam os futuros macacos, já que o homem não veio do macaco, nem o macaco veio do homem. O A. ramidus é um ancestral comum a homens e macacos. Isso há 2 milhões de anos antes da mais antiga evidência de ferramentas de pedra, o que sugere que a tecnologia não foi o gatilho para a evolução dos hominídeos. Outros fatores entraram em cena, então.

C. Owen Lovejoy, da Universidade Estadual de Kent, no estado norte-americano de Ohio, liderou os estudos sobre como as mudanças do A. ramidus. Lovejoy, que não tem nada a ver com o reverendo do desenho dos Simpsons, e seus colegas argumentam que a pélvis do A. ramidus poderia sustentar a parte superior do seu corpo durante a marcha bípede. Muito provavelmente, ele não era um caminhante fabuloso, e como corredor deve ter sido péssimo. No entanto, foi o início do que daria lugar aos nossos músculos da bacia, coisa que os chimpanzés e outros macacos não possuem. Sua pélvis era, em outras palavras, uma mistura de características que se especializariam com o tempo, através de mutações genéticas. Lucy, como agora pode-se notar, representa um passo mais adiante no caminho rumo ao andar ereto.

Os pés do Ardipithecus pés eram uma miscelânea também. Os quatro dedos menores estavam adaptados para andar na terra. No entanto, o dedão opositor era ainda, muito parecido com os polegares, o que é um resquício da vida nas árvores; mas só um resquício. Ao que os cientistas puderam perceber, o Ardipithecus ramidus não podia subir em árvores, como os modernos chimpanzés. Chimpanzés têm muitas adaptações em seus braços e ombros que os auxiliam a subir em árvores com uma velocidade incrível. As mãos do Ardipithecus não era rígida o suficiente para deixá-los mover-se como os chimpanzés. Tudo isso serve de mais uma prova que nós, seres humanos, não viemos de macaco algum, e se alguém começar de história assim, pode rir da pessoa.

Só depois que nossos antepassados ramificaram-se no que se tornaria humanos e chimpanzés, em dois galhos distintos da imensa árvore evolutiva, é que passamos a ter chimpanzés bem adaptados à vida nas árvores, enquanto nós, primatas pelados, acabamos em terra firme. Os nossos primos chimps não possuem um determinado osso em seus pés, deixando o membro menos rígido, mais adequado a se locomover pelas árvores. Nós, humanos, possuímos este osso. Assim, nós conseguimos nos mover bem no chão, enquanto que os chimps andam daquela forma engraçada. Os Ardipithecus tinham esse mesmo osso do pé que nós temos. Este padrão sugere que os chimpanzés perderam o osso logo após a sua separação com nossos antepassados, tornando-se ainda melhor em escalar árvores. Assim, a Seleção Natural “escolheu” quem estava mais bem adaptado a o que, e quem não estava? Bem, os predadores deram conta. Ninguém disse que a luta pela vida era algo gentil e sim uma briga onde a selvageria comanda.

Obviamente, a pesquisa continua. Ainda sabe-se muito pouco sobre o A. ramidus, mas como eu disse, a Ciência não tem pressa. Os remédios que vocês tomam hoje vêm de uma pesquisa que durou décadas. Mas uma linha a mais na nossa história evolutiva elucida muito sobre nós mesmos, humanos de hoje. Os registros fósseis são, por assim dizer, diários onde a memória do mundo foi escrita, esperando por aqueles que fosse alfabetizados nessa linguagem.

Cientista italiano reproduz o Sudário de Turim com tecnologia medieval
Entendendo o agnosticismo

Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας