
Todo mundo já passou pela humilhação de tomar um suco com canudo de papel, que mal dura o tempo que você mistura o suco com o gelo no seu copo para ele ficar completamente gelado. O mundo inteiro reclamou, mas quem se importa? O Canadá, sempre politicamente correto e preocupado com o que realmente interessa, como pagar indenização a terroristas, está preocupado com seus presos que estão metendo o focinho no pó que passarinho não cheira. Pois bem, os cannucks se esforçaram na missão redentora dessa prática: serão distribuídos em prisões federais canudos de papel para que os detentos possam dar suas cafungadas com segurança.
Sim, com segurança e provavelmente um pedido de desculpas por não ter fornecido antes.
Os fatos, que são melhores que qualquer piada que eu consiga inventar: o Serviço Correcional do Canadá (CSC) confirmou que os canudos de papel serão distribuídos para “cheirada mais segura”. A história vazou quando alguém publicou nas redes sociais fotos de um memorando interno enviado aos funcionários, e o CSC, sem espaço para o clássico “isso é fake news”, confirmou que o documento é autêntico, por meio do porta-voz Laurence Côté.
O texto informa que os canudos se destinam a inalar substâncias em pó ou o vapor de substâncias aquecidas. Para as substâncias aquecidas, aliás, também virão tiras de papel-alumínio “para fumar com mais segurança”. E, para completar o pacote de boas-vindas, tiras de teste que detectam fentanil, benzodiazepínicos e xilazina. É praticamente um combo de lanchonete, uma espécie de McNóia Feliz.
A justificativa oficial é de uma lógica “dificilmente contestável” (mas que contestamos mesmo assim). Segundo o memorando, o canudo de papel diminui o risco de cortes internos no nariz, que acontecem com canudos plásticos ou com aquelas engenhocas caseiras que só um preso com tempo livre, criatividade ilimitada e noção limitada consegue produzir. Menos machucado na mucosa significa menos sangue, e menos sangue compartilhado significa menos hepatite B e C circulando de nariz em nariz.
O memorando ainda faz questão de reconhecer que o risco de overdose e de toxicidade continua lá, firme e forte, como o convidado que não foi chamado mas não vai embora. É a versão penitenciária de “beba com moderação”, só que sem muita fé na moderação.
O motivo da medida, dizem os papéis, é o aumento do uso de substâncias inaladas, fumadas e cheiradas entre os detentos federais. Ou seja, alguém olhou o cenário e concluiu que a “reeducação” da população carcerária estava seguindo por um caminho meio… alternativo. A resposta foi adaptar a redução de danos à realidade, que é aquele ambiente onde, por definição, não deveria haver droga nenhuma. Se isso soa a paradoxo, é porque é. Na base de “se não podemos vencê-los, deixe eles cheirarem esta merda!”.
Há, claro, o contrapeso burocrático, sem o qual nenhum governo se sente confortável. Os itens, quando encontrados sozinhos, não devem render acusação criminal. Se aparecerem junto com substâncias ilícitas ou parafernália não autorizada, aí valem os “procedimentos operacionais padrão”.
Traduzindo: o canudo é legal, o pó é ilegal, e o guarda precisa decidir, em tempo real e com cara de paisagem, o que ele está vendo. O CSC ainda garante que mantém “medidas robustas” contra a entrada, o tráfico e o financiamento de substâncias não autorizadas, e que responsabiliza os envolvidos. Ótimo, maravilhoso! Distribuímos o canudo e perseguimos o pó, e cada um cuida da sua metade do problema.
A defesa final vem em números, ou melhor, em economia. O CSC lembra que a redução de danos é “custo-efetiva”, porque evita HIV e hepatite C, cujo tratamento de longo prazo custa muito mais que um canudo. E o Estado que passou décadas gritando “responsabilidade fiscal” descobre que, no fim, a moral cede diante do orçamento. O treinamento dos funcionários da saúde começa em 1º de outubro, e a implementação está marcada para 13 de outubro.
Nessa data, a equipe oferecerá “educação e orientação” para o uso “informado e apropriado” dos materiais. Um curso de boas maneiras meter o focinho no pó que passarinho não cheira ministrado por profissionais.
Moral da história: depois de tanta luta para banir o canudo de plástico e salvar as tartarugas, o canudo de papel encontrou seu destino na história. Não salvou o oceano, não salvou o suco, mas talvez salve um nariz. Nunca subestime o potencial de uma invenção ruim quando ela encontra o problema errado.
Fonte: National Post
