O problema nº 1 de fazer o nº 2 no Espaço

A corrida espacial nos deixou imagens gloriosas: marcas de botas no solo lunar, bandeiras fincadas e frases para a posteridade. O que não entrou nos cartazes foi a logística do outro extremo do corpo humano. Nos tempos do programa Apollo, o banheiro era um saquinho preso com adesivo, e a tripulação da Apollo 10 teve a companhia inesperada de um visitante flutuante que ninguém quis assumir. Meio século depois, a engenharia evoluiu: existe vaso sanitário em órbita, e o problema de fundo segue ali, teimoso como boleto de condomínio: a prisão de ventre no Espaço.

Sabia-se que o intestino de quem deixa o planeta fica preguiçoso, mas faltava uma explicação sólida. Pesquisadores da Universidade de Copenhague, em colaboração com a NASA, foram buscá-la onde ela estava escrita em letras químicas miúdas: no sangue de 52 astronautas: 488 amostras, em missões de dois a nove meses a bordo da Estação Espacial Internacional. O achado sugere que, poucas semanas depois de sair da Terra, as bactérias intestinais mudam de cardápio, e não para melhor.

A drª Giorgia La Barbera é professora associada do Departamento de Nutrição, Exercício e Esportes da Universidade de Copenhague, integra o grupo de Nutrição e Saúde e acumula dezenas de artigos científicos. Sua especialidade é a metabolômica aplicada à alimentação, incluindo a busca de biomarcadores do consumo de laticínios fermentados e carne vermelha. Metabolômica, que parece nome de personagem da Pixar, é o estudo abrangente dos metabólitos e sua atuação num organismo, tecido ou fluido biológico.

O ponto de partida é que a fermentação proteica é o que acontece quando as bactérias do intestino, tendo esgotado a fibra disponível, passam ao plano B e decompõem proteínas. Não é exclusividade de astronauta e ocorre em qualquer pessoa na Terra, sobretudo quando o alimento demora a percorrer o intestino, mesmo que ninguém se sinta constipado, ou seja, o cocô não sai de jeito nenhum como se estivesse com vergonha e não faz questão de ir audaciosamente a nenhum lugar.

A hipótese é que a microgravidade desacelera esse trânsito; segundo o coautor Henrik Roager, a falta de gravidade provavelmente faz a comida andar mais devagar, o que combina com os sinais de fermentação e ajuda a explicar a constipação. Imagine um restaurante que ficou sem verdura e passou a servir o que sobrou na câmara fria: a cozinha funciona, mas o cardápio piora.

Giorgia e seu pessoal fizeram uso de um método elegante e um tanto improvável: em vez de caçar substâncias predeterminadas, a equipe usou uma abordagem não direcionada, que examina o conjunto amplo de metabólitos no sangue, aquelas moléculas pequenas que circulam pela corrente sanguínea e dão pistas sobre dieta, metabolismo e o que se passa nas entranhas.

As amostras vieram de missões distintas na ISS, com pouquíssimo sangue disponível, e ainda assim os pesquisadores extraíram análises adicionais do material existente. O metabolismo varia tanto de pessoa para pessoa que costuma embaralhar esse tipo de estudo, e ali eram astronautas de missões diferentes ao longo de muitos anos, receita aparente de caos.


Sim, é aqui que os astronautas fazem seu número 2

Os pesquisadores consideraram impressionante que o método tenha mostrado com tanta clareza uma fermentação proteica consistentemente maior. O aumento surge pouco depois da entrada em microgravidade e reflui em poucos dias após o pouso. Apareceram também alterações menores ligadas ao consumo de peixe, cafeína e algumas gorduras.

Os produtos da fermentação proteica costumam ser associados a consequências negativas, como efeitos adversos em células e órgãos descritos em estudos anteriores, possíveis efeitos sobre o humor e redução da capacidade de concentração. Os metabólitos entram na circulação e podem influenciar o cérebro pelo eixo intestino-cérebro, o sistema de comunicação de mão dupla entre o trato digestivo e a cabeça. Estudos anteriores já ligaram esses compostos à ansiedade e à dificuldade de foco. Convenhamos que ansiedade e falta de concentração são justamente o que você não quer em quem for tripular uma missão a Marte.

É aí que a coisa fica séria, pois missões à Lua e a Marte manterão astronautas longe da gravidade por muito mais tempo que as atuais temporadas na ISS. Para La Barbera, contramedidas serão necessárias, e aqui temos caminhos a seguir: mais fibras na dieta, suplementação com prebióticos ou tratamentos que estimulem o peristaltismo, as contrações musculares coordenadas que empurram o conteúdo intestinal adiante, e reduzam o tempo de trânsito. E o benefício não é só espacial. Pacientes acamados também sofrem de constipação e provavelmente têm fermentação proteica aumentada, o que pode agravar seus quadros.

O estudo analisou metabólitos no sangue, sem medir diretamente o tempo de trânsito intestinal: o padrão é compatível com trânsito intestinal mais lento, mas não prova que a microgravidade seja a causa, e a parceria com a NASA ressalta a cooperação científica internacional que a ISS tornou possível; afinal, só a ciência une povos em busca do conhecimento e pela necessidade de fazer cocô, e isso é mais do que todos os acordos diplomáticos que têm sido feitos.

Moral da história: gastamos bilhões para vencer a gravidade e descobrimos que o intestino, esse velho conservador, sente falta dela. Antes de sonhar com colônias marcianas, talvez seja prudente incluir no manifesto da missão uma linha discreta e sagrada: mais fibra, por favor.

A pesquisa foi publicada no periódico Nature Communications.

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