
A humanidade enviou ao Espaço Interestelar uma sonda lançada quando Jimmy Carter era presidente dos Estados Unidos, o Brasil vivia sob ditadura militar e Guerra nas Estrelas (Fuck you e seu “Star Wars”) tinha acabado de estrear nos cinemas, e agora, quase meio século depois, os engenheiros da NASA precisam fazer exatamente o que qualquer pessoa faz quando o carregador do celular está sobrecarregado: desligar algumas coisas para economizar energia.
A Voyager 1, o objeto mais distante já construído pelo ser humano, está a cerca de 25 bilhões de quilômetros da Terra, ou seja, 170 vezes a distância da Terra ao Sol (chamamos isso de UA, Unidade Astronômica). E ainda assim, essa relíquia dos anos 1970 cruza a Fronteira Final com a dignidade de quem sobreviveu a tudo, mas depende de uma fonte de energia que perde cerca de quatro watts por ano. Para quem não tem noção do que isso significa: é como se, a cada doze meses, você perdesse a capacidade de acender uma lâmpada de pisca-pisca de Natal.
A sonda foi lançada em 1977 com uma missão aparentemente simples: investigar Júpiter e Saturno, e fez isso com distinção. Passou por Júpiter em março de 1979 e por Saturno em novembro de 1980, enviando imagens e dados que redefiniram o que sabíamos sobre esses gigantes gasosos. E depois, em vez de simplesmente aposentar-se com dignidade como fazem os satélites descartáveis, a Voyager 1 simplesmente continuou, e continuou e continuou, e continua até hoje! A fonte de energia que a mantém viva é um gerador termoelétrico de radioisótopos: um bloco de plutônio-238 que decai espontaneamente, liberando calor, que é então convertido em eletricidade por termopares.
Não há combustão, não há partes móveis, não há botão de liga e desliga. Há apenas decadência, lenta e inevitável, como em tudo que envelhece. Não se escolhe a hora de desligar: espera-se o momento em que o calor gerado já não é suficiente para manter os sistemas funcionando. É uma metáfora tão boa sobre a condição humana que chega a ser constrangedor que estejamos falando de uma sonda espacial.
O problema, claro, é que o plutônio não é diamante e, por isso, não é eterno. A margem de potência disponível na sonda está ficando criticamente estreita, e em fevereiro deste ano a situação piorou subitamente: os níveis de energia caíram tanto que qualquer nova redução poderia acionar um sistema automático de proteção que desligaria componentes da sonda por conta própria, o que obrigaria a equipe da NASA a um processo de recuperação longo e arriscado.
Para evitar esse cenário, os engenheiros do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) tomaram uma decisão dolorosa: desligar o experimento de partículas de baixa energia (LECP, na sigla em inglês), um instrumento que mede íons, elétrons e raios cósmicos provenientes do sistema solar e da galáxia. O desligamento aconteceu no dia 17 de abril. Como a Voyager 1 está tão longe que os sinais de rádio levam cerca de 23 horas para chegar até ela, o processo inteiro levou mais de três horas para ser concluído depois que o comando finalmente chegou.
A perda não é trivial. O LECP fornecia dados únicos sobre o meio interestelar, esse imenso espaço de gás, poeira e radiação que existe entre os sistemas estelares. Para chegar até lá, a Voyager 1 precisou cruzar a heliopausa, que é a fronteira além da qual o Sol deixa de mandar. Não metaforicamente: é o ponto exato onde o vento solar perde força para a pressão do Espaço Interestelar e a influência da nossa estrela simplesmente se dissolve no nada. A Voyager 1 atravessou essa linha em 2012. A Voyager 2 fez o mesmo em 2018. São as únicas sondas humanas que já estiveram do outro lado. O LECP era o instrumento que ouvia o que há por lá. O da Voyager 2 havia sido desligado em março de 2025. Agora é a vez da sua irmã mais famosa. Das dez ferramentas científicas com que cada sonda partiu, apenas duas permanecem ativas na Voyager 1.
“Desligar um instrumento científico não é preferência de ninguém”, admitiu Kareem Badaruddin, gerente de missão da Voyager no JPL, com a resignação de quem estava comunicando algo doloroso da forma mais clínica possível. “Mas é a melhor opção disponível.” É o vocabulário da medicina de emergência aplicado à engenharia espacial: amputa-se um membro para salvar o corpo. O LECP tinha quase 49 anos de operação contínua.
Foi desligado não porque falhou, mas porque a sonda que o carrega não tem mais energia suficiente para mantê-lo funcionando e ainda sobreviver. Há algo perturbador nessa equação: o instrumento estava perfeito; foi a estrela que o alimentava que envelheceu. A Voyager 1 ainda mantém dois instrumentos em operação, um que monitora ondas de plasma e outro que mede campos magnéticos, e ambos seguem funcionando com uma fidelidade que envergonharia qualquer aparelho fabricado nos últimos dez anos.
E o LECP pode não estar definitivamente morto. A equipe está trabalhando num plano que batizou, com uma criatividade nominativa inversamente proporcional ao seu conteúdo prático, de “Big Bang”: a ideia é desligar simultaneamente um conjunto de dispositivos e substituí-los por alternativas de menor consumo. A operação consiste basicamente em trocar lâmpadas por versões mais econômicas, mas a ironia não diminui a importância da manobra: se der certo, prevista para não antes de julho, o LECP pode ser religado. A equipe teve o cuidado de deixar um pequeno motor do instrumento, o que consome apenas 0,5 watt, ainda em funcionamento, justamente para preservar a possibilidade de uma ressurreição.
John Casani, ex-gerente do projeto Voyager, resumiu a filosofia por trás dessa longevidade improvável com uma frase que merece ser gravada em bronze: “Não as projetamos para durar 30 ou 40 anos, as projetamos para não falhar.” É uma distinção que parece sutil e não é. Projetar para durar implica uma estimativa de tempo; projetar para não falhar é uma declaração de guerra contra a entropia. É exatamente o que acontece no gerador de plutônio: não há como interromper o decaimento, mas o sistema foi construído para extrair o máximo possível de cada watt enquanto ele existir. Quase cinquenta anos depois, a batalha ainda não está perdida.
Suzanne Dodd, gerente de programa da Voyager no JPL, disse certa vez que sua meta pessoal é ver uma das sondas comemorar o 50º aniversário do lançamento. A Voyager 1 partiu em setembro de 1977. O prazo é 2027. Dois anos para que uma sonda movida a plutônio, construída com a tecnologia da era Nixon, cruzando sozinha o vazio interestelar a mais de 60 mil quilômetros por hora, continue mandando sinais para uma equipe de engenheiros que em muitos casos ainda não havia nascido quando ela partiu.
Enquanto isso, o smartphone que você comprou há três anos já começa a travar. A Voyager 1 está a 170 distâncias Terra-Sol de distância, abrindo mão dos próprios órgãos um a um para sobreviver, e ainda assim funciona. Talvez o problema não seja o plutônio. Talvez seja o modelo de negócios.
Fonte: Mãe da Criança
