Super-Krypto contra Baixo Astral

Paulo Autran, célebre ator, disse numa entrevista certa vez que é muito difícil contracenar com animais e crianças, porque fatalmente eles irão roubar a atenção. Foi mais uma vez provado que ele tinha razão, e quem roubou a atenção no filme do Super-Homem (foda-se que querem que chamem de Superman. É SUPER-HOMEM!) foi um cachorro que a rigor não existe, já que o Krypto é feito em CGI, mas o filme é muito mais que aquele cachorro burro feito uma porta, mas que roubou corações.
Eu não quis postar este artigo cedo demais, por isso só fui ver o filme no último sábado. Se eu tivesse visto o filme antes, teria vindo correndo contar tudo, mas é isso. O maravilhoso filme do Super-Homem, que é tudo o que um filme do Super-Homem deve ser. Prepara que lá vem spoiler. UMA TONELADA DELES!
Em dezembro do ano passado eu postei o teaser do filme do Super. O trailer me encheu de esperança, me encheu de lágrimas, me encheu de alegria. Eu sabia que teria finalmente um filme do Super à altura do Christopher Reeve. Eu não estava enganado.
O filme é um festival de referências. Tem de tudo! Mas antes de mais nada ele já te coloca na seguinte posição: Olha só, há 300 anos sabemos que existem meta-humanos. Há 30 anos uma nave caiu na Terra. Há 3 anos, o Super-Homem se revela ao mundo. Há 3 horas ele começou uma batalha contra exércitos de uma nação invasora psicopata. Há 3 minutos ele perdeu a briga contra outro meta-humano. Assim, desse jeito. Não é uma história de origem. Todo mundo sabe quem é o Super. Todo mundo sabe dos seus feitos. James Gunn sabe que o público não é imbecil, e todo mundo conhece a história do Super. Ele não perde tempo, porque ele não está fazendo um filme pro maldito jovem reclamão do Twitter. Ele fez um filme para os fãs de longa data. Os fãs que como eu contavam moedinhas para ir na banca e comprar o último número e saber como o Super escaparia das artimanhas de Lex Luthor.

Quer história de origem? Taí a orginal: Uma página. Quer parar de encher o saco?
O filme começa na ação. Super está ferido, é levado para a Fortaleza da Solidão, que nessa versão fica na Antártida, e é recebido pelos autômatos. Lá ele é curado tomando uma dose cavalar de Sol Amarelo e se recompõe para mais um dia salvando o mundo… um mundo que parece odiá-lo.
Nesse filme, o Super ainda é muito ingênuo e acredita no melhor das pessoas e luta pelo mundo melhor. Apanha como condenado, mas por um motivo simples que você verá adiante. De qualquer forma, ele não é um Super-Homem invencível e com poderes infinitos que arrasta um sistema planetário inteiro pelo Espaço; e isso faz dele um personagem melhor. Ele retém seus golpes, ele não quer machucar ninguém, nem mesmo aquele kaiju que cospe fogo. De onde veio o Kaiju? Ah, o Lex Luthor criou, dane-se, não é preciso explicar isso. Lex Luthor quer dar trabalho pro Super.

Eu consigo ver tudo!
Super ainda tem outra briga que ele também não pode vencer: ele não aguenta a entrevista com a Lois, porque ela não aceita o ponto de vista dele: você tem que lutar pelo que é certo. “Ah, mas não pediu permissão do governo americano”. E por que diabos alguém precisaria de permissão de um país para ajudar numa guerra desigual entre dois outros países? Ah, porque o agressor é amiguinho do governo americano, e não pode ser tocado. Mas não seria a obrigação de uma pessoa boa se opor ao que é ruim?
Deveria. Mas a realidade não é assim. O Super sofre com isso, porque nem seu momô acredita no que ele defende. Isso o deixa mal e eles tem a primeira DR. Nisso, a popularidade do Super cai e todo mundo o xinga. Lois, bancando a namorada escrota insensível e nada compreensiva não entende que sua visão cínica do mundo não é compartilhada por alguém puro de coração. Sim, deu raiva dela.
Luthor é um filho da puta que manipula tudo e no final sabemos que ele criou uma guerra sabendo que o Super iria se meter, para que ele levasse à alta cúpula do governo americano para que os EUA ficasse contra uma suposta ameaça alienígena, fora a grande campanha massiva que Luthor criou, fazendo postagens viralizarem artificialmente com macacos treinados (mais gibi que isso, impossível, e no filme faz sentido). Inventa ataques de monstros e seres transdimensionais para que o Super vá lutar e como não se pode lutar com um monstro de 50 metros de altura sem quebrar nada, isso serve para cada vez mais a imagem do Super fique prejudicada.
Esse Luthor é muito mais implacável, assassino, vingativo, invejoso e inteligente que todos os outros filmes, muito distante do Superman de 1978, escrito por um autor de livro/filme de máfia que saiu algo… esquisito e caricato. Amo aquele filme, claro, mas convenhamos que afundar a costa oeste e lucrar com terras é um plano bem merda, e Superman, o Retorno (com o Brandon Routh), volta com essa temática bosta. O Luthor do Gunn é movido por ódio, inveja e ressentimento. Ele quer ser reconhecido como único protetor de Metrópoles, mas não consegue porque o Super-Homem é… bem, é o Super-Homem.
Luthor consegue invadir a Fortaleza da Solidão com os meta-humanos que ele mesmo criou em laboratório. Lá ele consegue acessar integralmente uma antiga mensagem dos pais biológicos do Super, que instavam que Kal-El tomasse conta da Terra e produzisse vários superominhos. Luthor usa isso contra o Super e aí mesmo que a população passa a odiá-lo, como se os filhos herdassem os pecados dos pais, além de finalmente ter a sanção governamental dos EUA para conter o Super. Isso acaba minando mais ainda o Super, pois, ele quer o bem das pessoas e elas não reconhecem seus esforços. A maioria é burra e facilmente manipulável por qualquer postagem de rede social.
Luthor conseguiu prender Krypto, o cachorro que na verdade é da Supergirl, o que vamos descobrir no final. Sim, Luthor é pérfido a ponto de torturar cãezinhos, e se você não tinha muito motivo para detestar Lex Luthor, passa a odiá-lo ali. Super acaba se entregando à Justiça e é preso e levado em companhia do Ultraman, mas não é o Ultraman líder do Sindicato do Crime dos quadrinhos.
Ao ser preso, Super vai pro Universo de Bolso criado por Luthor e fica preso junto com outros indesejáveis, inclusive o Metamorfo, capaz de sintetizar qualquer coisa, inclusive kryptonita. Luthor tortura o Super, não apenas fisicamente, mas psicologicamente quando faz roleta russa com alguém que o Super ajudou uma vez, e na segunda tentativa a arma dispara, matando o homem, levando o Super ao desespero. Seu grito é cortante e depois ele chora pela vida perdida.
O Super-Homem desse filme se importa com todos os seres vivos. Quando o Senhor Incrível usa suas esferas para explodir o kaiju por dentro, o Super fica puto e triste ao mesmo tempo, pois, queria levá-lo para algum zoológico intergaláctico. Super-Homem desse filme salva até um esquilo de ser pisoteado e afasta um cãozinho com seu sopro, pois, toda vida é sagrada para ele, e é aqui que vemos uma mudança totalmente do estilo snyderverse, criado por aquele maldito Zack Snyder.
Why is this real wtf DC pic.twitter.com/avIBljbe6p
— IronSmashWebYT (@iron_smash_web) August 5, 2025
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O Super-Homem do Isnáider é um ser abjeto, não é o Super-Homem idealizado. Na cena que o Capitólio explode e todos lá são mortos, exceto o Super, claro, ele não esboça reação. Ele está lá, indiferente, como se não fosse com ele. Ele não liga para as vidas perdidas naquele ato terrorista.
Aquilo me incomodou muito, como na cena que ele olha de cima, como um deus indiferente, uma família no meio de uma enchente. Não, isso não e uma nova roupagem do herói. É simplesmente virar o herói do avesso. Seria como se fizessem o Alfred um funça que só trabalha de 9 às 5 e está pouco se fodendo pro Batman. Você não vira a principal característica de um personagem de ponta cabeça.
Eventualmente, o Super consegue escapar da prisão de Luthor e vai salvar o mundo, porque o Universo de Bolso vazou e está destruindo tudo. Luthor no seu acesso de ódio, disse que se as pessoas preferiam o Super, que elas morressem. Enquanto isso, no outro lado do mundo, no país invadido, a Gangue da Justiça, financiada por Maxwell Lord (por quê? Sei lá. Isso não importa) liderada por Guy Gardner, com o Senhor Incrível e a Mulher Gavião (essa cumprindo cota de mulher e latina, mas chuta bundas) estão lá ajudando as pessoas.
Super salva o Krypto, que depois de liberto tem a sua chance de se vingar de Lex Luthor.
O filme tem ação o tempo todo, dando um break pro Super se recuperar na casa de seus pais adotivos, onde ele entende quem realmente é, e não é porque Jor-El era um cuzão que ele tem que ser. São as escolhas que as pessoas fazem que as caracteriza, e o Super escolheu ser… escolheu ser o que é. Depois, do momento com papai Jonathan, hora de voltarmos pra porrada. É um excelente episódio da animação da Liga da Justiça.
Mas… o que tem de diferente desse filme pros até agora?
O Super-Homem desse filme é o segundo Super-Homem mais poderoso do cinema. Super Reeve levantou uma placa tectônica inteira e depois voltou no tempo para salvar Lois (não, ele não faz o planeta todo voltar no tempo. Ele é que volta). Super Reeve até mudou a órbita da Lua quando enfrentou o Nuclear em Superman IV.
Super Corenswet é poderoso também. Quando os prédios começam a desabar como dominó, ele segura o último, aguentando o peso de todos eles para salvar uma senhora num carro. Ele nada num rio de Antiprótons e não é afetado, e com um supersopro vence o campo gravitacional de um mini-buraco negro. Mas o poder do Super continua sendo em um dos seus músculos, mas não os dos braços e sim do seu coração, como eu expliquei em outro artigo. O poder da esperança, o poder de fazer a coisa certa, pouco importando o que seus pais biológicos disseram, pois as nossas escolhas são o que nos definem. Isso até o tornaria “fraco”, porque o Ultraman não pensa, apenas luta mediante os comandos de Lex Luthor que opera como num vídeo game, já que tinha estudado o modo de lutar do Super.
Alguns vão querer criticar a parte de Jor-El ser um cuzão e querer que o Super governe o mundo com mão de ferro, mas no reboot do Super no pós-Crise, escrito pelo magnífico John Byrne, meu autor favorito do Super, a própria Lara queria que Kal-El dominasse os humanos. Isso é repetido em Smallville, quando a consciência de Jor-El fica que nem uma assombração enchendo o saco de Clark para que ele domine o mundo com força.

O Super não se deixou afetar por isso, e a reação das pessoas foi insana ao atirar coisas nele, quando ele as salvou tantas vezes. Mas é canônico, aparecendo em várias mídias. James Gunn não inventou isso, aliás, ele não inventou nada. Ele bebeu de todas as fontes, usou de inúmeras referências, diferente do Isnáider que resolveu criar um herói que não é heróico só para agradar ao próprio ego. Na boa, eu odeio mais o Super-Bundão do Isnáider do que odeio Lex Luthor. Luthor tem a desculpa que é o vilão.
O final, se descobre que Ultraman é um clone do Super feito por Lex Luthor, o que ele fez em Superman IV e nos quadrinhos, gerando o Superboy Não-Prime. Como ele fez a clonagem? Com um fio de cabelo, exatamente como Luthor de Superman IV fez para gerar o Nuclear. O Super Clone é burro, idiota, sem vontade própria (detalhe pra roupa com a máscara que parece a roupa do Apocalipse em A Morte do Super-Homem). Apenas um marionete em que Luthor o controla dando ordem pra sequência de golpes. Por sinal, esse clone tem os cabelos compridos, da mesma forma que o Super-Homem quando volta à vida em O Retorno do Super-Homem. Super Corenswet vence o Super Clone e este cai no buraco negro, e as especulações é que ele volte como o Bizarro. Será? Não sei.
Gunn fez tanta referência que você só tem vontade de ficar apontando: olha aquilo, e aquilo, e aquilo! Fora o tema do John Williams, o ÚNICO tema que o Super-Homem deve ter, nos créditos finais ele usa a animação das letras no padrão de Superman de 1978, mas em muitas ocasiões, dá para ouvir alguns acordes do tema do Super do Isnáider, escrito pelo Hans Zimmer; James Gunn não seria tão escroto a ponto de não colocar pelo menos uma referência aos outros filmes (o Isnáider seria e é escroto. Vide ele trocar o tema da Mulher Maravilha no filme da Liga segundo sua visão).
Mais do que tudo, o filme tem algo diferente do Isnáider: Gunn entende e ama o Super-Homem. Isnáider ama o SEU Super-Homem. O filme é claro, é colorido, você sabe o que está acontecendo. Um resumo de comparação:

O Super-Homem afastado, indiferente, arrogante pode caber muito nos Novos 52, e quem gosta de quadrinhos odeia os Novos 52. Eu odeio tanto que não o mencionarei mais. Isnáider seguiu por esse caminho, com um Jonathan Kent babaca que diz que Clark deveria ter deixado um ônibus de crianças afundar e as crianças morrerem afogadas de forma horrível. Super-Homem, o Homem do Amanhã, jamais faria isso! Jonathan Kent foi o responsável pela formação ética e moral do Super. Ele não pode mandar deixar crianças morrerem! Porra, Isnáider!
Gunn brinca com tudo o tempo todo. Escalou Nicholas Hoult como Lex Luthor (excelente, por sinal!) sabendo que Hoult tinha feito teste para ser o Super e não foi escolhido, com David Corenswet ficando com o papel. Acho que seria algo que faria Lex Luthor odiar o Super, mesmo. Outra coisa foi ter escalado Nathan Fillion para ser o divertidamente odioso Guy Gardner. Por que eu digo isso? Porque em quase todas as animações com os Lanternas Verdes, Nathan dubla Hal Jordan. Escalá-lo como Guy Gardner foi muito divertido, e ele entregou um perfeito Gardner, com direito a cabelo de cuia.
Ah, sim. A Gangue da Justiça tem um quartel general. Onde é? Uma pista:

Eu quero muito ouvir num próximo filme:
Encontram-se no Grande Hall da Justiça, as forças mais poderosas jamais reunidas.
E uma das coisas que o Gunn conseguiu foi acabar, matar, exterminar, aniquilar, destruir, esmagar, pisotear tudo o que o Isnáider fez.

E eu estou pouco me fodendo que Snyderbot não tenha gostado. “Ain, parece Marvel, tem cachorrinho”. Vá tomar no seu rabo, porque Superpets é mais do que canônico. Tem Super-Gato, Super-Cavalo e até Super-Macaco.

E se falarem muito, eu escrevo pro Gunn e peço para colocar o Ace, o cachorro do Batman, mordendo a bunda de vocês, seus merdas que nunca abriram um gibi.

Gunn mudou tudo o que o Isnáider fez; ele praticamente voltou no tempo como Super Reeve e desfez todas as cagadas que o Isnáider cometeu. Até o nome da empresa do Luthor foi mudado, não sendo mais LexCorp e sim LuthorCorp. E a ideia de homenagear seu próprio cachorro colocando o Krypto foi genial. Krypto é apenas um cachorro comum (ok, com superpoderes, mas comum). É um imenso bebezão voluntarioso que faz o que quer, algo como um beagle. Não quer saber de nada além de brincar, mas atende (ok, mais ou menos) o seu tio emprestado, já que, como falei, ele é da Supergirl, que aparece rapidamente e terá filme próprio; e, sim, o Krypto estará nele. É impossível você não amar o Krypto, é impossível não odiar Luthor ao torturar o Krypto. Porra, matar pessoas e fomentar uma guerra? Er… ok, é coisa de vilão, né?
MAS NÃO TOCA NO DOGUINHO, SEU MISERÁVEL!
Outro ponto a ser observado é como o Corenswet traduziu bem o Super, sua interpretação é primorosa. Você vê como ele se importa, como ele mostra preocupado com todos os seres. Mais do que isso. James Gunn não ia trazer o cuecão por cima da calça, mas o Corenswet o convenceu dizendo que o Super-Homem se vestiria assim para não dar medo às crianças. Mais Super-Homem que isso eu não consigo imaginar.
O Super-Homem é mais que um personagem para mim. É um exemplo. Eu sempre digo: o Batman é aquele que todos nós queremos ser. Super-Homem é quem deveríamos ser. Eu me senti muito feliz em ver a minha infância de volta, de ver meu herói favorito nas telas de novo. O filho de Jonathan e Martha Kent, o garoto do Kansas que quer apenas fazer a coisa certa e ajudar as pessoas, mesmo quando elas não o querem. Não teve a cena final com o Super-Homem voando em órbita da Terra, protegendo-a. Ele estava na Lua, ao lado do seu maior amigo, olhando para a sua casa, para a sua família. 6 bilhões de pessoas que ele ama, uma miríade sem fim de seres vivos. Eu vi esta cena rápida no pós-crédito e me senti conectado. O mundo é maravilhoso, mas só quando temos a inspiração de sermos melhores, de fazermos o melhor que pudermos.
Como o Super disse:
Eu sou tão humano quanto qualquer um. Eu amo, eu fico assustado; eu acordo toda manhã, e, a despeito de não saber o que fazer, coloco um pé na frente do outro e tento fazer as melhores escolhas que posso. Eu cometo erros o tempo todo, mas isso é ser humano. E essa é minha maior força.
A vida é feita de escolhas. Essa é a mensagem do filme. É sobre isso que ele é. Escolhas. Você tem todas as escolhas a serem feitas, mas você só será definido pelas que realmente fizer.
Obrigado por ter nos dado isso, James Gunn.
PS:


Que leitura deliciosa, que artigo maravilhoso! Não esperava menos de vc.
Up, up and away!
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Texto perfeito. Parabéns.
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