A mulher atrevida que driblou a Marinha do Rei e circunavegou o planeta

A audácia, em sua mais pura raiz etimológica, nasce do latim audere: o ato de atrever-se, de ousar cruzar a fronteira do que já está posto. Na prática da vida, essa herança linguística se manifesta naqueles raros indivíduos que conseguem despir o olhar dos grilhões invisíveis e dos impedimentos sociais que moldam a maioria de nós.

Enquanto o mundo caminha sob o peso de regras tácitas, expectativas alheias e o medo paralisante do julgamento, o audaz enxerga a realidade sem filtros ou amarras. Para ele (ou ela), as convenções não são muros intransponíveis, mas linhas imaginárias desenhadas pelo hábito; sua mente opera em uma frequência de liberdade que transforma o risco em espaço de criação e o “impossível” em mero ponto de partida. Olhar a existência através dessa lente de desapego social não é apenas uma demonstração de coragem, mas uma rebeldia silenciosa contra as prisões cotidianas que nós mesmos aceitamos construir.

Nossa história se passa na França do século XVIII, e a Marinha do Rei tinha opinião sobre tudo o que subia a bordo de um navio francês: a quantidade de pólvora, a ração de biscoito, a dose diária de vinho, o castigo para marujo insubordinado. Sobre mulheres, a opinião cabia numa palavra: nenhuma. A proibição vinha de uma mistura conhecida de superstição (mulher a bordo dava azar), receio de confusão (centenas de homens confinados por meses ou anos olhando pra dadivosa não ia dar coisa boa) e a certeza geral de que o mar era assunto masculino.

Tudo isso junto era o tipo de regra confortável que o regulamento podia dar por cumprida sem fiscalizar, porque partia do princípio de que ninguém sequer tentaria.

A imaginação da instituição encontrou seu limite em Jeanne Baret (ou Barret, ou Baré, porque o sobrenome dela variava conforme o humor do escrivão), camponesa da Borgonha que deve ter concluído que a norma se referia a outras mulheres, não ela. Sendo assim, Jeanne, a geniosa, embarcou assim mesmo na expedição de Louis-Antoine de Bougainville ao Pacífico, de calça, faixa no peito e chapéu enterrado até as sobrancelhas; o que, por sinal, deu certo.

Mais que isso, Jeanne voltou, e por um caminho tão comprido que hoje é tida como a primeira mulher conhecida a dar a volta ao mundo.

Nascida em 27 de julho de 1740, em La Comelle, na Borgonha, filha de gente do campo, sem dote e sem sobrenome que abrisse porta em Paris, Jeanne tinha um talento que a lama ensina de graça: conhecia plantas. Foi por isso que se aproximou de Philibert Commerson, naturalista respeitado e viúvo, que a contratou como governanta e, a julgar pelo que veio depois, a promoveu a algo mais. Em 1764 ela declarou uma gravidez, e o filho, atribuído a Commerson, ficou na França.

Quando Commerson foi nomeado naturalista da expedição, ele precisou de um assistente que colhesse espécimes, carregasse caixas e não reclamasse. Um homem resolveria o problema, mas Commerson preferiu a solução que também resolvia o escândalo.

Embarcou primeiro na Étoile, alegando uma perna em mau estado que exigia um criado. Jeanne apareceu depois, em Rochefort, como “Jean Baret”, rapaz de traços finos e nenhuma barba, e o navio zarpou dali em 1º de fevereiro de 1767. Conta-se que a cabine do naturalista tinha privada própria, luxo de capitão num navio onde ninguém tinha intimidade nem para pensar, e que a hipótese mais caridosa da tripulação era a de que o rapaz imberbe fosse eunuco, e ninguém foi conferir.

Numa novela das nove, o segredo não passaria do segundo capítulo; ali, sobreviveu mais de um ano de convivência apertada, com o pudor da marujada fazendo o trabalho de um bom figurino, e ninguém tinha dúvidas que o dotô estava indo nas carnes do moleque que ele trouxe (os marinheiros não estavam muito errados).

A Botânica de verdade aconteceu entre paradas que convém pôr na ordem certa: Rio de Janeiro, em junho de 1767, depois Montevidéu, e só então o Estreito de Magalhães, entre o fim de 1767 e o começo de 1768. Commerson, de saúde frágil, ficava muitas vezes na base, e era Jeanne quem subia encosta e atravessava pântano com o material nas costas. Nos relatos da viagem ela aparece chamada de “besta de carga”, e não vale a pena tentar suavizar a expressão. Foi no Rio que se colheu a buganvília que hoje forra muros brasileiros de Norte a Sul; há quem atribua a colheita à mão dela. O nome ficou com o comandante, as flores ficaram com o Brasil, e a mochila ficou com Jeanne, divisão de bens que a história da ciência conhece de longa data.

O segredo caiu em 1768, e a versão depende de quem conta. A mais famosa é a do próprio Bougainville: no Taiti, Jeanne desceu à praia com plantas e foi logo cercada por taitianos que perceberam, sem treino naval algum, o que os europeus não tinham notado em mais de um ano. Ela teria confessado chorando que queria ver o mundo, e o comandante registrou o feito com evidente admiração.

Convém lembrar, porém, que Bougainville estava a bordo da Boudeuse, não da Étoile, cujo comandante era François Chenard de La Giraudais. A cena é bonita e limpa demais, e outros diários sugerem que a identidade já era suspeita a bordo havia tempo e que a exposição pode ter vindo depois, na Nova Irlanda (hoje uma província de Papua-Nova Guiné), com uma violência que a versão oficial prefere omitir.

Em novembro de 1768, os dois desembarcaram na Ilha de França, a atual Maurício. Commerson foi explorar Madagascar e acabou morrendo em 1773 sem rever Paris e deixou a Jeanne, no testamento, uma pensão e os móveis do apartamento parisiense. Ela ficou do outro lado do mundo, abriu uma taverna em Port-Louis e se casou em 1774 com Jean Dubernat, militar francês.

Só ao pisar de novo na França, em 1775, fechou a volta completa; os “dois anos de expedição” que se repetem por aí cobrem apenas o trecho a bordo até a ilha, uns 21 meses. Em 1785, a Marinha que a teria barrado no cais lhe concedeu uma pensão de 200 libras tornesas por ano (a moeda de conta francesa, nada a ver com a esterlina), num texto oficial que reconhece o disfarce e a circunavegação.

A audaciosa Jeanne morreu em 5 de agosto de 1807, aos 67 anos, em Saint-Aulaye, hoje parte do município de Saint-Antoine-de-Breuilh, na Dordonha.

A reparação foi lenta. A biografia de Glynis Ridley, The Discovery of Jeanne Baret (2010), levou a história ao grande público, embora seja criticada por especular além do que as fontes permitem, e vale ler com esse aviso na cabeceira. Nas plantas, a homenagem também demorou. Commerson tinha criado o gênero Baretia, depois reclassificado em Turraea. Vieram então a Polyscias baretiana (1975), o Solanum baretiae (2012) e a Acalypha baretiana (2018). O Solanum é o gênero da batata e do tomate, de modo que quem passou a viagem carregando plantas dos outros acabou, séculos depois, aparentada com a salada.

Ninguém, que se saiba, revogou o regulamento por causa dela. É fácil entender: explicar em ata como uma faixa de tecido e um chapéu tinham derrotado a Marinha do Rei exigiria mais criatividade do que qualquer comitê naval jamais reuniu. As 200 libras anuais foram o que a instituição achou razoável pagar para admitir, em papel timbrado, que tinha sido enganada por uma simples, mas corajosa, camponesa da Borgonha.

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