
Você estudou na escola (espero) que os U-boats alemães foram os maiores responsáveis por dar uma imensa dor de cabeça à Inglaterra por causa do bloqueio que a Alemanha Nazista impôs para colocar os súditos do Leãozinho e do Unicórnio. Entretanto, o pessoal da época do Káiser já tinha o hábito de fazer uso de submarinos para furtivamente tocar o terror nas águas, quando ninguém esperava por eles, ainda mais quando as tecnologias de detecção eram simplificadas pelo nome “sorte”. Sim, pois é! Pouca gente sabe que durante a Primeira Guerra Mundial a Alemanha já fazia uso de submarinos para tocar o terror no Mar do Norte.
A história de hoje é sobre como algo deu muito, muito ruim naquela época, e ainda hoje ainda pode ser péssimo. Motivo? Um submarino vazando TNT (sim, o explosivo).
Nossa história começa em abril de 1917. O UC-30 tinha uma missão lançar minas ao sul da costa irlandesa, dentro do bloqueio submarino que a Alemanha movia contra o tráfego naval britânico (sim, uma tática que já era velha na década de 1910, e os britânicos nunca se resolveram com isso direito nas décadas seguintes).
O problema é que, em 4 de abril, uma avaria no motor obrigou o submarino a abortar a missão e voltar para casa pela rota norte, contornando as Ilhas Britânicas, ainda com boa parte da carga a bordo: 18 minas que nunca chegaram a ser lançadas e seis torpedos (um sétimo já havia sido disparado contra o navio Hunstanton dias antes).
No dia 19 de abril, segundo o último contato registrado (algumas fontes datam a perda em 21 de abril), o UC-30 bateu numa mina britânica e afundou nas proximidades de Rømø, na costa dinamarquesa, a cerca de 8 a 10 km a oeste de Esbjerg, a uns 20 metros de profundidade. A classe UC II costumava operar com 26 homens, mas a maioria das fontes sobre o achado fala em 27 mortos.
Senhor O’Brien, erguer periscópio e examinar o parêntese
Os submarinos alemães começavam (e ainda começam) com a designação U, de Unterseeboot (barco que navega debaixo d’água, já que alemão é língua aglutinante e pouco criativa para dar nomes às coisas por causa disso). O C é a classe deste tipo específico de submarino: costeiro-minador. O II é a geração dele, ou seja, a segunda geração de submarinos desta categoria. O “30” é, óbvio, o trigésimo submarino desta categoria que fora construído.

UC segunda geração em cima, UC terceira geração embaixo
A Marinha alemã atual (Deutsche Marine) opera a classe Type 212A, com submarinos batizados de U31, U32, U33, U34, U35 e U36, e a numeração, curiosamente, não recomeçou do zero: ela deu sequência à numeração da classe anterior, a Type 206, cujo último submarino tinha sido o U-30 (lançado em 1974). Ou seja, o U-31 moderno “continua” cronologicamente de onde a frota anterior parou, embora décadas de hiato separem os dois.
Senhor O’Brien, baixar periscópio
O submarino afundou e ficou soterrado no esquecimento até 2016, quando o mergulhador dinamarquês Gert Normann Andersen, da empresa JD-Contractor, finalmente o localizou.
Foi esse achado que puxou o fio da meada científica conduzida pela drª Katrine Juul Andresen, professora do Departamento de Geociências da Universidade de Aarhus. Especialista em Geofísica Marinha e reconstrução de paisagens submersas, ela lidera investigações que normalmente giram em torno de sedimentos e paleopaisagens, mas que, no caso do UC-30, ganharam um ingrediente bem menos geológico: explosivo ativo.
Como o mergulho civil no local é proibido por questões de segurança, Andresen precisou recrutar mergulhadores da Marinha Dinamarquesa para fazer o trabalho de campo: coletar água, sedimento e mexilhões-azuis mantidos em gaiolas junto ao casco, além de registrar em vídeo o estado de deterioração do submarino.
O UC-30 foi um de três naufrágios estudados e os resultados confirmaram o que se temia: TNT e seus produtos de transformação conhecidos por 2-amino-4,6-dinitrotolueno e o 4-amino-2,6-dinitrotolueno (podem chamar de 2-ADNT e 4-ADNT que eu deixo) apareceram nos tecidos dos mexilhões, no sedimento e na coluna d’água, com concentrações da ordem de nanogramas por litro, chegando a cerca de 72,6 ng/L no ponto mais próximo do casco no caso do UC-30.
Um nanograma é a bilionésima parte do grama e… bem… não é lá um desastre agudo, e sim uma fonte pontual e crônica de poluição, provavelmente localizada por enquanto, mas com tendência a se agravar conforme o casco continua corroendo e expondo mais material explosivo das minas ainda presas em seu interior. Entretanto, vale separar bem os problemas que costumam ser jogados no mesmo saco.
Uma coisa são os naufrágios com munição ainda a bordo, como o UC-30. Outra são os antigos campos minados da Primeira Guerra: estima-se que 190 mil minas foram lançadas no Mar do Norte entre 1914 e 1918, período que incluiu a Batalha da Jutlândia, o maior confronto de frotas de couraçados da era, com cerca de 25 navios afundados (14 britânicos e 11 alemães) e por volta de 8.600 mortos somando os dois lados. E há ainda um terceiro problema, distinto dos outros dois: as toneladas de munição convencional e química que os Aliados despejaram no Mar Báltico depois de 1945, para que não caíssem em mãos erradas, e que hoje respondem pela maior parte do esforço alemão de remediação na região, um trabalho caríssimo que envolve retirar e neutralizar explosivos um a um.
Em 2024, Andresen coordenou um relatório para a Agência de Proteção Ambiental da Dinamarca, no âmbito da Diretiva-Quadro da Água da União Europeia, mapeando 10.127 naufrágios registrados em águas dinamarquesas, dos quais cerca de 15% datam dos anos em torno e durante as duas guerras mundiais (1910-1920 e 1940-1945).
Isso não significa dez mil bombas-relógio: a maioria desses destroços não carrega munição, e vários estão parcial ou totalmente soterrados em sedimento, o que reduz bastante o risco de vazamento. O desafio é justamente separar o joio do trigo, identificando onde a ameaça é real.
Detonar tudo no lugar também não é solução mágica: dependendo das correntes e da morfologia do fundo marinho, a explosão pode espalhar contaminantes em vez de eliminá-los. É por isso que Andresen participa do projeto europeu REMARCO, sucessor do NorthSeaWrecks, dedicado a testar formas de monitoramento e remediação remota de munições submersas no Mar do Norte, fazendo uso de robôs capazes de mapear precisamente onde estão os riscos e, em alguns casos, auxiliar na retirada; mas ainda como tecnologia em teste, não como solução pronta e autônoma.
O medo, claro, não é um Kabum submarino, é o envenenamento por substâncias químicas. A rigor, o 2-ADNT e o 4-ADNT podem, em dose suficiente, agredir sangue, fígado e sacanear o seu DNA, e são tratados como possíveis contribuintes ao risco de câncer do TNT. Nos mexilhões de supermercado ou de cultivo, as quantidades medidas até agora não sustentam um alarme de intoxicação. O risco teórico só aparece se alguém fizer refeição regular de moluscos colhidos em cima de munição exposta, o que já é proibido no UC-30.
Ainda assim, é uma notícia estrondosa, com conteúdo explosivo, mediante um trocadilho que é uma bomba!
A pesquisa foi publicada no periódico Marine Pollution Bulletin.

Interessante! Nem lembrava que a tecnologia submarina existia nessa época!
Mas Unterseeboot não é muito diferente de submarino em termo de construção !!! :-)
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Meu amigo, você não é muito inteligente.
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