Plágios, fofoqueiros e lavagem de roupa suja diplomática

No dia 6 de agosto último, eu contei a história do professor de Cambridge que foi pego com a boca na botija kibando trabalho alheio e usando IA para redigir os trabalhos até o ChatGPT fazer bico. A ascensão meteórica de Jason Arday se tornou um pesadelo humilhante pra Cambridge depois de tanta coisa errada foi descoberta, e isso culminou com ele pedindo demissão do cargo (o que também acusaram ter feito com uso de IA) para depois ser encontrado morto no dia 14 de agosto, em condições pra lá de misteriosas e até agora nada foi divulgado das investigações, o que eu acho que será acobertado.

A polêmica virou nota de rodapé acadêmico em luto público e, adivinhem, munição política, com embaixadores, presidentes e o início a uma Caça às Bruxas.

O dr. Nathan Cofnas está em vias de ser pós-doutor no Departamento de Filosofia e Ciências Morais da Universidade de Ghent (isso já me fez fazer rolar os olhos, mas enfim…). Foi ele quem passou julho e início de agosto expondo, com aquele entusiasmo particular de quem adora provar que tinha razão, as evidências de plágio na tese de doutorado e nas pesquisas de Arday.

Que o material batia, batia mesmo, é fato pouco contestado. O problema é que Cofnas não é exatamente um denunciante neutro pego de surpresa fazendo o bem: é um sujeito que já havia sido demitido de Cambridge em 2024 por defender publicamente o chamado “realismo racial”, uma teoria que ele adora chamar de Ciência Incompreendida, e que a maior parte da comunidade científica trata com o mesmo entusiasmo que trataria alguém insistindo que a Terra é achatada, mas com powerpoint.

Ou seja: o homem certo, com as credenciais erradas, encontrou o alvo certo. E, convenhamos, poucas coisas rendem tanto quanto um crítico do mérito acadêmico alheio encontrando finalmente um caso de má conduta real para apontar o dedo.

Foi depois da renúncia e da morte de Arday que a Universidade de Ghent decidiu que hora de agir tinha chegado, só que na direção oposta à que qualquer manual de integridade acadêmica sugeriria. Suspenderam Cofnas preventivamente, abriram investigação disciplinar, e a reitora Petra De Sutter, ladeada pelo vice-reitor Herwig Reynaert, declarou que a universidade defende a liberdade acadêmica, mas que essa liberdade “não é ilimitada” e vem acompanhada de “responsabilidade social”.

Em linguagem direta e honesta: a liberdade acadêmica em Ghent tem prazo de validade, e ele expira exatamente no momento em que a imprensa liga perguntando por que a universidade emprega esse sujeito. É o tipo de reviravolta que só faz sentido se você entender que a instituição não estava reagindo ao conteúdo das acusações (que ninguém rebateu tecnicamente com sucesso), mas ao clamor público que se seguiu à morte de Arday.

Puniram o mensageiro porque a mensagem, por acaso, coincidiu no tempo com uma tragédia. Isso não é integridade institucional, é gestão de crise disfarçada de princípio, o equivalente acadêmico de trocar de assunto numa festa quando alguém menciona algo constrangedor.

E é aqui que a farsa ganha um terceiro ato digno de série de streaming: entra o embaixador americano na Bélgica, Bill White, que condenou a suspensão “nos termos mais fortes possíveis” e chamou a postura de Ghent de recompensa a “comportamento de multidão em busca de bode expiatório”.

Ah, sim! Eu não contei? Cofnas não é inglês British fish ‘n chips chá das 5 God Save the King. Ele é murican fuck yeah star-spangled man sobrinho de mr. Sam.

É até lindo, bonito e cheiroso esse discurso do Billy Branquinho sobre liberdade de expressão, cujo governo trata esse mesmo princípio como acessório opcional dependendo de quem fala e do que se diz. Como você pode imaginar, a bagaça foi escalando, e o que se seguiu foi o anúncio de revisão completa das relações institucionais, científicas e financeiras dos Estados Unidos com a Universidade Ghent (valores que circulam entre 1,3 e 2 milhões de euros anuais, ainda que nem essa cifra pareça fechada), numa demonstração clara de que defender livre debate acadêmico e ameaçar cortar verba de quem discorda de você são, aparentemente, atividades perfeitamente compatíveis.

Betty Billy (not the Kid) White lembrou, com razão factual mas conveniência seletiva, que as posições de Cofnas já eram conhecidas quando ele foi contratado. Só esqueceu de mencionar que o mesmo governo raramente estende esse raciocínio a qualquer outro tipo de discurso impopular que não sirva à sua narrativa preferida do momento.

O resultado é um trio perfeito de hipocrisias sobrepostas: uma universidade que abandona seus próprios princípios de liberdade acadêmica no minuto em que eles se tornam desconfortáveis; um denunciante cuja credibilidade científica em outras áreas é, no mínimo, discutível, mas que por acaso acertou o alvo dessa vez; e um governo que descobre paixão súbita por livre expressão sempre que ela serve para bater em instituição estrangeira e ainda ameaçar o bolso alheio de quebra.

Como costuma acontecer na maioria das vezes, ninguém aqui é o santinho. Ghent errou ao punir o mensageiro em vez de lidar com o conteúdo da mensagem. Cofnas construiu carreira de polêmica em polêmica e tropeçou, desta vez, em algo que por acaso era verdade. E os muricans, fiéis à tradição, transformaram um caso universitário europeu em oportunidade de bater no peito em nome de um princípio que aplica com bastante seletividade em casa e sair cortando valores porque… sim.

No fim, fica a lição de sempre, só que com bandeiras de país estampadas: quando a resposta institucional a evidências de má conduta vira punição contra quem denunciou, a credibilidade de todo o sistema desmorona, não importa quão nobre pareça o mensageiro nem quão conveniente seja para o embaixador de plantão bater continência para a própria plateia; e, no final, é sempre uma questão de dinheiro.


Fonte: The Hill, via Gustavo.

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