
Os Estados Unidos têm um problema sério com ataques de gente surtada armada varando geral em escolas. Eu até entendo quando olho para os meus alunos, mas alguns casos são meio extremos. Combater isso não é simples: dá para colocar detectores de metal na entrada, reforçar o policiamento, aumentar a segurança… só que nada disso parece resolver de verdade. Foi aí que surgiu a solução definitiva: uma versão Terminator baiano tacando pimenta no lazarento que resolve se meter numa escola com fuzil.
Esse tipo de cena a gente imaginaria em algum filme futurista dos anos 90, cheio de neon nos prédios e robôs patrulhando tudo, só faltando o Juiz Dredd aparecer. Só que o caso em questão é o de hoje e já está a caminho de algum corredor de uma escola pública da Geórgia; o robô gigante trocado por um drone de plástico e a arma por um borrifador de pimenta. A vida imita a arte, mas em versão econômica, com orçamento de prefeitura.
A empresa por trás da ideia se chama Mithril Defense, sediada em Austin, Texas (porque, obviamente, tinha que ser no Texas), e batizou seu produto de Campus Guardian Angel, um nome que soa como anjo da guarda só se o seu anjo da guarda tiver hélices, sirenes e capacidade de arremessar-se contra um alvo a 110 km/h. Gostei até do nome Mithril, e já adianto que o dono é fã do Senhor dos Anéis.
O conceito é simples e, ao mesmo tempo, digno de um episódio de Phillip K. Dick, depois de ter tomado uns gorós em birosca de favela: professores identificam um atirador ativo, acionam um botão, e uma caixa na parede se abre liberando o drone, que voa pelos corredores, arrebenta janelas se precisar, dispara luzes estroboscópicas, toca sirenes ensurdecedoras e, finalmente, borrifa spray de pimenta no alvo até a polícia chegar. Tudo isso operado remotamente por alguém em Austin, o que é reconfortante do jeito que é reconfortante saber que seu piloto de avião está pilotando de casa, vestindo um pijama e de pantufas de coelhinho.
O fundador da empresa, Justin Marston, ex-fuzileiro naval, garante que os primeiros 120 segundos de um tiroteio são os mais letais, e que o drone consegue alcançar o atirador em 15 segundos. É uma promessa tecnológica tocante, do tipo que só existe porque o problema que ela tenta resolver, o acesso irrestrito a armas de fogo em um país que decidiu que isso é um detalhe cultural, permanece irresolvido havia décadas.
Desde o massacre de Columbine em 1999, mais de 398 mil estudantes americanos já foram expostos a algum tipo de violência armada dentro da escola. Diante desse número, alguém no Texas olhou para o problema e concluiu, com toda lógica do Vale do Silício, que a solução não era regular o acesso a fuzis, mas automatizar a resposta ao caos com um ED-209 em miniatura, sem a parte de atirar em executivos desarmados numa sala de reunião (esperamos).
Por outro lado, estou aqui pensando que um maluco entra atirando, professor tem que sair correndo até achar o controle, acionar o controle, o drone sair de sua caixinha de presentes e ter seu controle ativado remotamente. Sim, Justin acha que 120 segundos é crucial, mas parece que ele tem uns probleminhas de imaginação para cronometrar esta ação toda em apenas 2 minutos.
Obviamente, políticos são políticos e quando viram isso ficaram babando com as potencialidades (se você conhece bem a classe política, já sacou qual é essa “potencialidade”). Pelo menos nove escolas na Flórida, Geórgia e Colorado já fecharam contrato, com programas que chegam a custar mais de meio milhão de dólares. Pais estão divididos: alguns acham a iniciativa reconfortante, outros preferem lembrar que seus filhos vão estudar num ambiente patrulhado por máquinas voadoras controladas a distância, o que nunca deu errado em nenhum filme já feito sobre o assunto.
Obviamente, não posso me furtar em imaginar isso sendo aplicado no Brasil, em que tudo tem orçamento digno de produção de Hollywood com execução do Zimbábue: em vez do spray de pimenta industrial produzido em laboratório texano, imagine um baiano de Feira de Santana, historicamente equipado com as pimentas mais assassinas do hemisfério sul, abastecendo o drone com sua própria produção artesanal, daquelas que fazem chorar só de olhar de longe.
O drone, evidentemente, será algum xing ling modelo genérico comprado de um camelô por trinta reaus, com bateria que dura oito minutos (parado), hélice que solta parafuso e um aviso de “não usar sob chuva” colado com fita crepe. Funcionaria? Provavelmente não. Assustaria mais o professor que aciona o botão do que qualquer invasor? Sem dúvida.
A ironia mais amarga de tudo isso é que a tecnologia funciona como metáfora perfeita de uma sociedade que prefere investir em soluções de ficção científica a enfrentar o problema estrutural na raiz. É mais fácil comprar um Exterminador do Futuro de plástico cuspindo tempero do que investir em segurança, apoio psicológico ou acabar com bullying (que é sempre onde a bagaça começa).
No fim das contas, trocaram o debate sobre por que existem tantas armas circulando livremente por um debate sobre qual drone reage mais rápido a elas, o que é, no mínimo, um jeito curiosamente americano de tratar sintoma como se fosse cura.
Próximo passo: tasers e balas de borracha. Será que a Mithril vende um para mim? Eu tive umas ideias depois do resultado dos meus alunos na última prova
Fonte: Guardian via Gustavo, que com certeza tem um drone desses.

Um comentário em “Drone gringo joga pimenta para conter gente doida atirando em escolas”