
Eu vi uma foto da Mari hoje e fiquei com inveja. Inveja da noite escura, de poder ver as estrelas. Ela consegue ver um mundaréu de estrelas e eu, por morar em capital, só consigo ver algumas, e isso é muito, muito ruim. Os astronautas como os da Estação Espacial Internacional veem nosso planeta à noite, uma esfera azul e silenciosa pontilhada de luzes. É belo, poético e, se você prestar atenção, ligeiramente alarmante. Aquelas luzes não estão diminuindo. Estão crescendo. E um novo estudo confirmou, com a mais detalhada análise de satélites já feita, que o planeta está ficando progressivamente mais brilhante durante a noite, embora não de forma uniforme, e não pelos motivos que você talvez imaginasse.
Os dados vêm do instrumento VIIRS DNB (Visible Infrared Imaging Radiometer Suite Day/Night Band), embarcado nos satélites Suomi NPP, NOAA-20 e NOAA-21, operados pela NASA e pela NOAA. Esses satélites fotografam a Terra toda noite, entre 1h e 4h da manhã, cobrindo quase todo o planeta entre 70° Norte e 60° Sul. Cada pixel da imagem equivale a aproximadamente 0,5 km². Entre 2014 e 2022, os dados mostram um aumento global de cerca de 2% ao ano nas emissões de luz artificial, totalizando 16% no período. Até aqui, nada surpreendente para quem acompanha as notícias sobre poluição luminosa. O problema (ou, melhor dizendo, a revelação) está nos detalhes.
O dr. Christopher C. M. Kyba é físico, mas ninguém é perfeito (só químicos, com eles a oração e a paz). Ele pesquisa a poluição luminosa e iluminação sustentável na Ruhr-Universität Bochum e no GFZ Helmholtz Centre em Potsdam. Kyba é um dos maiores especialistas mundiais em luz noturna artificial: coordena projetos de ciência cidadã como o Globe at Night, desenvolveu ferramentas online para rastrear mudanças na luminosidade do céu noturno em tempo real e já demonstrou, em estudos anteriores, que as estrelas estão desaparecendo do campo visual de populações urbanas numa velocidade alarmante. É o tipo de pesquisador que transformou “olhar para o céu à noite” em carreira científica séria, o que, convenhamos, é uma das escolhas de vida mais civilizadas que existem.
O que Kyba e seus colegas encontraram desta vez vai além do óbvio aumento global. Nas regiões onde a luminosidade cresceu, as emissões subiram 34%. Mas em outras áreas, houve queda de 18%, o que significa que a média de 16% esconde dinâmicas radicalmente distintas dependendo do lugar. China e Índia, em plena expansão urbana, puxaram o crescimento para cima com força. Parte da Europa, ao contrário, ficou mais escura, em grande medida graças à adoção de LEDs mais eficientes e a políticas deliberadas de redução da poluição luminosa. A França, por exemplo, registrou uma queda de 33% nas emissões noturnas, pois muitas cidades simplesmente apagam as luzes das ruas depois da meia-noite. O que seria um escândalo em outro contexto, aqui é política pública exemplar.
Nem todas as mudanças são, porém, fruto de boas intenções ecológicas. A Ucrânia registrou uma queda abrupta na luminosidade noturna após a invasão russa: apagões de guerra, não sustentabilidade ambiental. É o tipo de dado que lembra que os satélites não distinguem entre eficiência energética e catástrofe humana: ambas produzem escuridão no mapa. A Alemanha, por sua vez, ficou quase estática: as regiões que clarearam cresceram 8,9%, enquanto as que escureceram recuaram 9,2%, resultando num equilíbrio geral que é mais empate do que política. A Europa como um todo apresentou redução de 4% nas emissões, o que soa promissor, mas que o próprio Kyba alerta pode não corresponder ao que o olho humano percebe no chão, já que os satélites captam a luz de forma diferente da retina.
Um dos avanços técnicos mais importantes deste estudo foi o uso dos dados em resolução máxima, analisados noite a noite, em vez das médias mensais ou anuais que dominavam as pesquisas anteriores. Isso permitiu captar mudanças rápidas e localizadas que antes passavam despercebidas. A equipe também desenvolveu um algoritmo que corrige as distorções causadas pelo ângulo de visão do satélite: bairros residenciais tendem a parecer mais brilhantes quando vistos obliquamente, enquanto centros urbanos densos ficam mais visíveis quando o satélite passa por cima. Sem essa correção, comparar um subúrbio com um centro financeiro seria como comparar laranjas com holofotes.
As implicações práticas são consideráveis. A luz artificial é um dos maiores consumidores de eletricidade no período noturno e um fator de perturbação comprovado para ecossistemas inteiros: afeta o comportamento de insetos, aves migratórias, anfíbios, peixes e, sim, humanos, cujos ritmos circadianos foram esculpidos por milhões de anos de alternância entre luz e escuridão, não por postes de sódio de alta pressão. Kyba está liderando, no âmbito da Agência Espacial Europeia (ESA), o desenvolvimento de um satélite dedicado exclusivamente ao monitoramento da luz noturna, parte da missão “Earth Explorer 13”. Ao contrário dos EUA e da China, que já possuem múltiplos satélites com essa capacidade, a Europa ainda carece de um instrumento próprio , lacuna que o projeto pretende preencher com resolução muito superior à atual.
No fundo, o que esta pesquisa ilumina (DSCLP) é que a humanidade ainda não decidiu o que quer fazer com a noite. Parte do mundo a está abolindo em nome do crescimento econômico; outra parte está aprendendo, a contragosto ou por convicção, a respeitá-la. Os satélites registram tudo, imparciais, enquanto lá embaixo a espécie mais iluminada do planeta debate se a escuridão é um desperdício ou um direito. As estrelas, caladas, aguardam o veredito.
A pesquisa foi publicada no periódico Nature.
