A caganeira que causou uma guerra

Existem ocorrências minúsculas, até mesmo displicentes, que acabam por escalonar em algo bem maior, algo que ninguém ligaria os pontos diretamente sem saber o que aconteceu pelo meio. Chamamos isso de “Efeito dominó”, aquela situação em que uma peça cai, empurra a próxima, que empurra a seguinte, e de repente você está olhando para uma catástrofe que começou com um detalhe ridículo. A História é cheia desses momentos, mas poucos chegam ao nível do que aconteceu na noite de 7 de julho de 1937, perto de Pequim, quando um simples soldado raso deflagrou, sem querer, uma guerra que matou entre 15 e 20 milhões de pessoas e evoluiria de forma catastrófica em uma guerra muito maior.

Esta é a história de Shimura Kikujiro e como uma caganeira inadvertidamente causou a Segunda Guerra Sino-Japonesa.

Para entender como uma necessidade fisiológica virou guerra, é preciso recuar um pouco, porque o Japão de 1937 não era exatamente um país em busca de paz e sossego. Para ser sincero, Japão Kawai (fofinho) é algo que só surgiu recentemente, e se você assinar o meu Apoia.se saberá de detalhes. Os caras sempre adoraram uma guerra, aniquilação e derramamento de sangue, e desde que os militares japoneses haviam tomado conta efetiva do governo na década de 1930, o Império do Sol Nascente havia adotado uma política externa que poderia ser resumida como expansão ou morte, com forte ênfase na expansão.

Em 1931, o Exército Imperial havia invadido e ocupado a Manchúria, no nordeste da China, criando o Estado fantoche de Manchukuo com toda a discrição de quem ocupa a casa do vizinho e muda os móveis de lugar. O governo civil em Tóquio mal conseguia segurar os generais, e estes estavam, para dizer o mínimo, ansiosos por mais.

Do lado chinês, a situação não era mais animadora. O governo do Kuomintang, liderado por Chiang Kai-shek, estava havia anos numa guerra civil sanguinária contra os comunistas de Mao Tsé-tung, e a coesão nacional para resistir a uma invasão estrangeira era frágil como porcelana fina em mãos grossas. As tropas japonesas estacionadas no norte da China realizavam manobras regulares nos arredores de Pequim, e as tensões eram tão palpáveis que qualquer faísca poderia incendiar o celeiro. A questão era apenas qual seria essa faísca.

A resposta chegou na forma do soldado Shimura Kikujiro.

Shimura era apenas mais soldadeco comum do Exército Imperial Japonês; ele foi designado para participar de exercícios militares noturnos nas proximidades da Ponte Lugou, também conhecida no Ocidente como Ponte Marco Polo, uma elegante estrutura de pedra de cerca de duzentos metros de comprimento que cruzava o Rio Yongding a poucos quilômetros a sudoeste de Pequim.

A ponte havia impressionado o viajante veneziano séculos antes, o que deu ao conflito um nome com muito mais classe do que merecia. Naquela noite de verão, enquanto o pelotão executava suas manobras, Shimura foi acometido por aquilo que os registros oficiais descrevem diplomaticamente como problemas estomacais, e os registros não oficiais descrevem com muito menos diplomacia. O homem precisava ir ao banheiro. Urgente!

Sem iluminação, numa área rural escura como breu, Shimura se afastou discretamente do grupo para resolver a situação. O que ele não previu, provavelmente porque estava ocupado com outros pensamentos, foi que ao voltar o pelotão havia se movimentado. Shimura vagou pelo escuro tentando se orientar, não encontrou ninguém e simplesmente sumiu por algumas horas. Em qualquer contexto minimamente racional, isso seria tratado como um caso de um Zé Ruela distraído que se perdeu no mato. No contexto geopolítico de 1937, no norte da China, com o Exército Imperial Japonês já de olho num pretexto para ampliar sua presença, virou uma crise internacional.

Os oficiais japoneses, ao perceberem a ausência de Shimura, chegaram à conclusão mais conveniente possível: o soldado havia sido sequestrado ou atacado pelos chineses. Exigiram, então, entrar na cidade murada de Wanping, logo ao lado da ponte, para procurá-lo. Obviamente, era uma exigência absurda; os militares chineses na região tinham ordens claras de não permitir o avanço de tropas japonesas armadas para dentro de áreas sob controle chinês, ordens que existiam exatamente para situações como essa. Recusaram o pedido.

O que aconteceu a seguir ainda é disputado pelos historiadores com aquela mistura de paixão e papelada que caracteriza o campo: tiros foram disparados, mas ninguém sabe ao certo de qual lado vieram primeiro. Pode ter sido um provocador japonês, ou um soldado chinês nervoso. Pode ter sido um terceiro elemento com interesse em ver o conflito escalar, e havia candidatos de sobra; claro, pode ser a CIA (não que ela existisse na época, mas é sempre culpa da CIA).

O que se sabe é que os tiros existiram, e os japoneses usaram isso como justificativa para trazer reforços. O pequeno incidente se transformou em confronto armado. O confronto armado se transformou em invasão. Em semanas, os japoneses atacavam Pequim e Xangai, escalando de forma absurda; e, em meses, o leste da China inteiro estava em chamas.

Shimura reapareceu durante as negociações. Saudável, inteiro, sem nenhum sinal de sequestro. O estrago, naturalmente, já estava feito.

Seria tentador reduzir tudo isso a uma piada sobre diarreia e História, mas isso seria injusto com a complexidade real do que aconteceu. A guerra não começou porque um soldado precisou ir ao banheiro, mas porque se aproveitou que um soldado precisou ir ao banheiro, já que queria expandir o território, porque as estruturas de comando japonesas estavam infiltradas por militaristas agressivos que desprezavam o controle civil, porque a China estava dividida e enfraquecida, e porque a comunidade internacional assistia à escalada no Extremo Oriente com a mistura de distância e indiferença que caracterizou os anos 1930 em geral. Shimura foi apenas o estopim acidental de um barril de pólvora que o Japão havia passado anos montando desde a Manchúria.

O Incidente da Ponte Marco Polo desencadeou a Segunda Guerra Sino-Japonesa, um conflito que matou entre 15 e 20 milhões de pessoas, produziu alguns dos episódios mais brutais do século XX, incluindo o Massacre de Nanjing em dezembro de 1937, e preparou o terreno para a entrada japonesa na Segunda Guerra Mundial em 1941. Tudo isso tem raízes profundas em décadas de política imperial, militarismo e rivalidade regional. Mas tem também, em seu início, um soldado perdido no escuro, uma barriga traiçoeira e uma noite que não deveria ter terminado como terminou.

A História tem um senso de humor péssimo e uma memória de elefante. Shimura Kikujiro provavelmente morreu sem imaginar que seu nome, ou antes, sua ausência temporária, seria lembrado décadas depois como o gatilho de uma das guerras mais devastadoras do século.

A ponte ainda existe, aliás. Sobreviveu à guerra, às décadas de Comunismo e à febre construtivista moderna, e hoje é patrimônio histórico nacional chinês. Quanto à lição moral da história, ela é simples, quase brutal na sua obviedade: quando a guerra já está pronta e esperando, até uma viagem ao banheiro serve de pretexto.

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