
Negócio com múmias nem sempre dá boa coisa. Que o diga que teve o desprazer de ver o filme com Tom Cruise. Um exemplo disso aconteceu em outro do ano 2000. Um certo sujeito chamado Ali Aqbar, residente em Karachi (a maior cidade, principal centro econômico, comercial e portuário do Paquistão), aparece com uma proposta de negócio que mistura Arqueologia, mercado negro e uma autoconfiança verdadeiramente admirável para quem estava prestes a ser preso (para ser justo, ele não sabia disso… ainda). O que ele tinha em seu poder era a múmia de princesa persa, supostamente com 2.600 anos de idade, embalada num caixão dourado dentro de um sarcófago de pedra, disponível pelo módico preço de onze milhões de dólares.
Não era um iFony nem um Rolex de camelô. Era uma múmia com um preço bem camarada, diga-se de passagem. O que poderia dar errado?
Tudo. Absolutamente tudo. Mas vamos por partes, porque essa história merece ser saboreada devagar, como um bom veneno.
A história começa, como toda boa história de arqueologia suspeita: um terremoto. Segundo Aqbar, um amigo iraniano chamado Reeki havia encontrado a relíquia após um abalo sísmico numa região fronteiriça entre Irã e Paquistão. Um terremoto conveniente, não? Porque,. Com certeza, ninguém ia achar estranho um tremor de terra e uma múmia surgindo do nada, cortesia da Mãe Natureza. Os dois, Aqbar e Reeki, movidos pelo espírito empreendedor que só a ganância pura consegue despertar, decidiram vender o achado e dividir os lucros. Os meganhas paquistaneses, alertados por uma fita VHS na qual Aqbar exibia orgulhosamente sua mercadoria como se fosse um item de Mercado Livre da Antiguidade, não compartilhou do entusiasmo comercial. Seguiram o cara até o esconderijo, apreenderam a múmia e a levaram ao Museu Nacional de Karachi. E foi ali que o circo começou de verdade.
O objeto, é preciso admitir, impressionava. Dentro do sarcófago de pedra havia um caixão de madeira folheado a ouro. Na cabeça da múmia repousava uma coroa dourada com sete ciprestes em relevo. Amuletos e adornos preciosos estavam cuidadosamente dispostos ao redor do corpo. O estilo de enfaixamento remetia ao egípcio, e inscrições em persa antigo cobriam o sarcófago. No peitoral, uma placa proclamava, com a pompa própria dos grandes da história: “Eu sou a filha do grande Rei Xerxes. Mazereka, proteja-me. Eu sou Rhodugune.” Não faltava nem a invocação de divindade zoroastriana para dar aquele toque de autenticidade de última hora.
Xerxes, para quem não se lembra das aulas de história ou sobreviveu ao filme “300”, foi um dos reis mais poderosos do Império Aquemênida, governando a Pérsia no século V A.E.C. Nenhum membro mumificado da família real persa havia sido descoberto até então, já que a tradição iraniana simplesmente não incluía mumificação como prática funerária. Isso tornava o achado extraordinário. E, como qualquer pessoa com experiência em golpes sabe, quanto mais extraordinário, mais suspeito. Irã e Paquistão partiram para a disputa diplomática pela posse da múmia. A imprensa foi à loucura. Acadêmicos viajaram do mundo inteiro. Parecia a descoberta arqueológica do século.
Parecia.
Então, chegaram os especialistas de verdade com seus equipamentos, e a festa acabou numa velocidade impressionante. A análise foi meticulosa: tomografia computadorizada, datação por carbono-14, testes químicos e estudo aprofundado das inscrições. E cada resultado era uma rasteira no conto de fadas.
Para começar, o caixão de madeira era mais novo que o corpo. A máscara tinha apenas cem anos, um detalhe charmoso para uma relíquia de dois milênios e meio. Mas o momento mais glorioso da investigação, aquele que merece ser emoldurado e pendurado na parede da Sala da Incompetência Criminosa, foi a descoberta de marcas de lápis de chumbo servindo de guia para os entalhes no sarcófago. Os falsários eram, simultaneamente, talentosos o suficiente para montar uma fraude multimilionária e descuidados o suficiente para esquecer de apagar o rascunho.
Mas calma que piora!
Uma das inscrições hieroglíficas no peito da mulher dizia “Eu sou o rei desta terra”, frase que, além de estar no gênero errado para uma suposta princesa, simplesmente não faz sentido algum em contexto persa. Os falsários claramente estudaram muito, mas estudaram errado, com aquela energia de aluno que decorou o conteúdo na véspera e misturou tudo na hora da prova. A curadoria do Museu Nacional de Karachi foi direta: Asma Ibrahim, a curadora responsável, olhou para tudo aquilo e decretou, sem rodeios, que o objeto era uma fraude.
A tomografia revelou que a múmia pertencia a uma mulher adulta de aproximadamente 24 anos e 1,37 metro de altura. Todos os órgãos internos haviam sido removidos. A cavidade abdominal estava preenchida com uma substância em pó. As análises químicas mostraram que o corpo e o cabelo foram descoloridos artificialmente, e que o abdômen havia sido recheado com agentes dessecantes modernos, incluindo cloreto de sódio e bicarbonato de sódio. A datação por carbono foi a sentença final: a mulher havia morrido em 1996, apenas quatro anos antes de aparecer embalsamada como princesa milenar.
É aqui que o tom muda. Porque uma coisa é um golpe arqueológico elaborado. Outra coisa é o que veio a seguir.
Se a mulher morreu em 1996, e o processo de mumificação precisava ter começado dentro de 24 horas após a morte para funcionar, alguém precisou ter tido acesso ao corpo quase imediatamente. Os investigadores passaram a suspeitar que os falsários obtiveram o cadáver de ladrões de túmulos que operavam nas regiões funerárias entre Paquistão e Irã. Mas a hipótese mais perturbadora não pôde ser descartada: a mulher pode ter sido assassinada especificamente para o esquema. Não foi vítima colateral do crime. Pode ter sido o ponto de partida dele.
A polícia paquistanesa abriu formalmente um inquérito por homicídio. Aqbar e Reeki foram interrogados. E aqui o roteiro de true crime se complica da pior maneira possível: a mulher jamais foi identificada. Sem nome, sem família que a reclamasse, sem registro que a ligasse a qualquer pessoa. Tinha 24 anos, 1,37 metro, e alguém achou que seu corpo valia onze milhões de dólares transformado em produto. Ganância no nível expert, humanidade no nível zero.
A falsificação, por mais criminosa que fosse, era impressionante em sua arquitetura. Executá-la exigiu, no mínimo, um especialista em anatomia e embalsamamento, um entalhador de pedra, um marceneiro, um ourives e alguém com conhecimento funcional de línguas antigas, além de um espaço adequado para conduzir a mumificação e armazenar os produtos químicos. Não era golpe de amador. Era operação com divisão de tarefas digna de um roteiro de filme de assalto, só que com menos glamour, mais formaldeído e uma vítima real no centro de tudo.
O caso permanece oficialmente aberto. Aqbar foi preso por violação da Lei de Antiguidades do Paquistão, que, diante de um possível homicídio, soa como prender Al Capone por evasão fiscal. Reeki, o misterioso iraniano, teve um destino igualmente obscuro nos registros públicos do caso. A múmia, essa mulher sem nome e sem história oficial, foi repatriada e hoje repousa numa vitrine do Museu Nacional de Karachi, onde visitantes ocasionais passam sem saber que estão olhando para um crime não resolvido embalsamado em bicarbonato de sódio.
A “Princesa Persa” existiu de verdade: foi uma mulher de 24 anos que morreu em circunstâncias que ninguém quis explicar e cujo corpo foi transformado em mercadoria por pessoas que entendiam de entalhes e de línguas mortas, mas que esqueceram de apagar o rascunho a lápis. Rhodugune era mentira. O que era real, e perturbador, era ela.
Já se passaram 26 anos e, em algum lugar, alguém que sabe o nome dela e por que fez isso. Essa pessoa ainda não falou, e duvido muito que vá falar.
