As pontes que fizeram ratinhos andarem

Há momentos na ciência em que a realidade supera qualquer roteiro de ficção científica, e não é preciso nem invocar viagem no tempo ou aliens. Às vezes, basta uma impressora 3D, algumas células-tronco e uma pitada daquele otimismo científico que faz pesquisadores passarem madrugadas no laboratório. Na Universidade de Minnesota, esse impossível acaba de ganhar patas… literalmente. Ratos que tinham a medula espinhal completamente cortada voltaram a caminhar.

Os pesquisadores de Minnesota tiveram uma ideia fascinante: Se quando se tem um trecho de estrada separado por algum obstáculo natural, constrói-se uma ponte. Por que não imprimir uma ponte? E não qualquer ponte; uma inteligente, microscópica, que literalmente ensina células como crescer no lugar certo, como um GPS celular de alta precisão.

O dr. Guebum Han é engenheiro mecânico com mais de 9 anos de experiência em pesquisa em materiais, dispositivos e processos de fabricação, resultando em sistemas de impressão 3D adaptativos habilitados para visão de máquina, dispositivos de suporte para medula espinhal impressos em 3D, identificação de falhas e respostas em tecidos moles e materiais, amortecedores de banda larga inspirados em cartilagem, eletrodos transparentes flexíveis para dispositivos vestíveis e displays, e sondas de microscopia de força atômica de alta rigidez.

Como ele sabe muito bem que não dá pra ficar rico com Ciência (pelo menos, licitamente), ele hoje trabalha na Intel, mas antes foi o líder da pesquisa que busca fazer uma pontezinha na via de informação entre a medula espinhal. Nos Estados Unidos, mais de 300 mil pessoas convivem com lesões na medula espinhal, e até hoje a medicina tinha tanto sucesso em reverter esses danos quanto um técnico tentando consertar cabo submarino cortado usando fita isolante.

O problema sempre foi duplo: neurônios morrem (e não ressuscitam) e fibras nervosas se recusam a crescer através da lesão. Como uma estrada interrompida por um abismo, sem ponte para reconectar os lados.

A técnica de Han e seu pessoal é elegante como sinfonia executada por robôs. Primeiro, criam um “andaime” com impressão 3D, construindo uma estrutura microscópica com canais perfeitamente desenhados, como um labirinto em miniatura. Depois, povoam esses canais com células progenitoras neurais espinhais: células-tronco adultas humanas com vocação específica para virar neurônios.

O conceito é brilhante: em vez de forçar regeneração natural (que teimosamente se recusa a acontecer), criaram sistema de revezamento, que nem a corrida olímpica que os atletas fogem com um bastão, sendo o bastão é o impulso nervoso e os corredores são neurônios novos, prontos para levar mensagem do cérebro aos músculos.

Quando implantaram esses andaimes nos ratos com medula seccionada, aconteceu algo fantástico: as células não só viraram neurônios funcionais, como estenderam fibras nas duas direções: rostral (cabeça) e caudal (cauda). Como se tivessem lido o manual da medula espinhal e decidido seguir à risca.

O mais impressionante: essas células se integraram ao tecido como se sempre pertencessem ali, formando conexões reais com circuitos existentes. Os ratos paraplégicos começaram a mover as pernas novamente. A beleza está na elegância conceitual. Em vez de tentar forçar o corpo a regenerar neurônios mortos, criaram solução de engenharia que trabalha com a biologia, não contra ela. Como se, em vez de ressuscitar mortos, tivessem criado substitutos que se integram naturalmente ao sistema.

Obviamente, a realidade esbarra na cautela científica. Por mais extraordinários os resultados, ainda falamos de ratos, e o caminho do laboratório à clínica é pavimentado com expectativas frustradas. Mas há algo diferente nesta pesquisa: solidez metodológica que sugere que dessa vez pode ser diferente.

A pesquisa foi publicada no periódico Advanced Healthcare Materials. Tá lá completinha, pronta pra ser lida.

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