
Existe um tipo de pessoa que não é só burra. Ela é perigosamente burra. Daquelas que acham uma boa ideia usar um maçarico para matar uma mosca… em cima de um botijão de gás. E o pior não é a ideia em si, é que esse tipo de criatura acha que lógica e consequência são luxos dispensáveis. Pensou, sentiu, agiu. Nada de refletir, ponderar ou lembrar que o Google é um péssimo cúmplice de crime. É desse tipo de gente que nasce a história que você vai ler agora: a saga gloriosa do site RentAHitman.com, que soa como piada, mas é real. E, spoiler: já mandou gente para a cadeia.
Dando um tiro em toda a burrice do mundo, esta é a sua SEXTA INSANA!
Tudo começa em 1999, com um californiano chamado Bob Innes. Recém-formado pela Academia de Polícia de Napa Valley, ele queria ser policial, mas a Califórnia estava numa seca de contratações. Sem vaga na lei, ele resolveu entrar no mundo da informática, especificamente na área de segurança digital — afinal, hackers e vírus nunca tiram férias.
Num projeto com colegas de curso, Innes teve a ideia de criar uma empresa que ofereceria testes de penetração em sistemas — não pense besteira, estamos falando de simulações de invasão a sites para encontrar vulnerabilidades. E como todo bom projeto de faculdade precisa de um nome criativo, eles batizaram o negócio de… Rent A Hitman. Um nome que, à época, parecia só uma brincadeira entre nerds com senso de humor duvidoso.
Em 2005, Bob comprou o domínio RentAHitman.com por US$ 9,20. O projeto naufragou logo depois: colegas formados foram embora, conseguiram empregos, e ele ficou com o domínio sozinho. Tentou vendê-lo — ninguém quis. Então deixou uma página no ar com um e-mail de contato e… esqueceu.
Alguns anos depois, por curiosidade, resolveu checar a caixa de entrada. Surpresa: havia 300 mensagens. A maioria eram brincadeiras idiotas do tipo “quero eliminar meu chefe” ou “quanto custa pra dar fim no meu cunhado?”. Só que uma mensagem era diferente. Veio de uma mulher chamada Helen, do Reino Unido, que dizia estar presa no Canadá após perder a herança para familiares traíras. E sim, ela queria que três desses parentes fossem mortos. Mandou nomes, descrições, endereços. Innes, perplexo, ignorou. Mas Helen insistiu: mandou novo e-mail com “URGENTE” no assunto e ainda mais detalhes. Foi aí que ele decidiu responder com um: “Você ainda precisa de nossos serviços?”. E ela, sem hesitar: “Sim”.
Nesse momento, o que era uma piada virou denúncia. Innes imprimiu tudo e levou para um amigo sargento da polícia local. As autoridades canadenses rastrearam Helen, prenderam a cidadã por quatro meses por tentar contratar um assassino e depois a extraditaram para o Reino Unido, onde ela era procurada por outros crimes. Foi a primeira condenação obtida via RentAHitman.com. Mas não seria a última.
A partir daí, Bob decidiu reformular o site. Nada de uma pagininha simples: criou um portal completo, com um design tão ridículo que só alguém muito burro ou muito desesperado acharia real. O site oferece “descontos para idosos”, “planos corporativos” e afirma ser 100% compatível com a HIPPA: a Hitman Information Privacy & Protection Act de 1964 (um trocadilho com a HIPAA real (Health Insurance Portability and Accountability Act), misturado com uma referência nada sutil ao assassinato de JFK no ano anterior). Há até “depoimentos de clientes satisfeitos”.
Mesmo assim, começaram a chegar mais mensagens sérias. Gente querendo de fato contratar um matador. Sim, existe alguém que digita no Google “alugar assassino profissional”, clica num link chamado RentAHitman.com, ignora as piadas óbvias e manda dados completos da vítima.
Quer exemplos? Em 2022, Wendy Wein, 53 anos, de Michigan, tentou usar o site para matar o ex-marido. Foi condenada a 7 a 20 anos de prisão. Em 2024, Leif Everett Hayman, 33 anos, do Novo México, queria eliminar a sogra, que descreveu como “controladora”. Foi pego também. E, dois dias antes da redação deste texto, DeAnn Parkin, 31 anos, foi condenada a 90 meses de prisão por querer dar fim a uma mulher que, segundo ela, devia “ficar longe do meu marido e da minha família”. Parece letra de country, mas é processo judicial.
A dinâmica de Innes é simples: ele dá 24 horas de “tempo de arrependimento” para quem envia pedidos sérios. Depois disso, responde perguntando se ainda desejam os serviços ou se preferem uma “consulta gratuita com um agente de campo”. Se a resposta for “sim”, ele encaminha o caso direto para a polícia (ele falou “agentes”, mas omitiu que eram da Lei).
Até hoje, estima que salvou cerca de 150 vidas com isso. E olha que nem todos os e-mails são de contratantes: tem gente que escreve querendo trabalhar como matador. Por isso, ele criou a seção “Carreiras”, onde aspirantes a assassino profissional podem se candidatar. Em 2023, Josiah Garcia, 21 anos, da Guarda Nacional Aérea do Tennessee, preencheu o formulário com:
“Estou procurando um trabalho que pague bem e aproveite minha experiência militar (atirar e matar alvos designados). Gosto do que faço, então se puder ser algo assim, me coloca para jogar, técnico!”
Não é piada. Innes passou o material para o FBI. Um agente disfarçado fingiu contratar Josiah, combinaram US$ 5.000, ele aceitou US$ 2.500 de entrada e ainda perguntou se devia mandar foto do cadáver como comprovante. Foi preso.
E nem tudo é cômico. Há casos verdadeiramente trágicos. Em 2023, Jazmin Paez, 18 anos, foi presa em Miami por tentar contratar a morte do próprio filho de 3 anos. O motivo? A criança atrapalhava o relacionamento com o ex-namorado, que também foi preso por conspiração. Outros casos envolvem adolescentes tentando matar os próprios pais, e investigações revelando abuso doméstico. E há quem use o site para pedir um matador para si mesmo, querendo morrer sem deixar rastros de suicídio para os familiares.
Sim, é de cortar o coração. E sim, Bob Innes ainda mantém o site, mesmo sem nunca ter imaginado que a piada de 9 dólares viraria uma armadilha digital para criminosos idiotas e trágicos. Hoje, RentAHitman.com continua no ar. Um monumento bizarro à estupidez humana, à importância do bom senso e, curiosamente, à prevenção de crimes.
Se alguém um dia escrever um livro sobre como salvar vidas com um domínio ridículo e um senso de dever cívico inesperado, esse livro vai ter um nome: “Como peguei assassinos com um site que parece meme”.
E ele já está sendo escrito, e-mail por e-mail.

2 comentários em “Os mortais “assassinos” de TI: quanto a estupidez encontra o Wi-Fi”