O livro místico de Leonhard Thurneisser

Você conhece o astrolábio, do grego strate… digo, do grego ἀστρολάβος, o “tomador de astros”. Segundo fontes discordantes, o astrolábio teria sido inventado por Apolônio de Perga (240 A.E.C. – c. 190 A.E.C.) ou Hiparco de Nicéia (190 A.E.C. – c. 120 A.E.C.). Sendo um ou sendo outro, o astrolábio com certeza tem mais de 2 mil anos, sendo uma espécie de calculadora analógica para decodificar uma série de observações astronômicas, pesquisar uma área ou calcular a latitude e o tempo.

Muitas vezes feito de metal, o astrolábio foi modificado e desenvolvido no mundo islâmico e, mais tarde, na Europa Ocidental, ao longo dos séculos seguintes. Ele foi adotado por todo tipo de estudioso e “estudioso” durante a Idade Média, em que muitos astrólogos atribuíam a ele poderes místicos. Só no século XVI o astrolábio seria uma ferramenta primordial durante as Grandes Navegações, sendo fundamental para os marinheiros até a invenção da bússola pelos chineses, que só foi cair nas mãos dos portugueses (e eu estou me referindo à bússola e o aos chineses propriamente ditos).

Um exemplar de astrolábio chegou às mãos de Leonhard Thurneisser (1531 – 1596). Thurneysser nasceu em Basileia, Suíça, filho de um ourives, profissão essa que seguiu. Em 1559 operou com sucesso como metalúrgico em Tarrenz, no Tirol, e tornou-se proprietário de uma mina. Logo Thurneysser foi considerado pelo imperador Fernando I como sendo um especialista nas áreas da Farmacêutica, Alquimia (Química ainda não existia como ciência independente), Metalurgia, Botânica, Matemática, Medicina e Astrologia. Nessa época, a Astrologia e Astronomia se confundiam, e todo rei, príncipe ou manda-chuva local tinha um astrólogo particular. Kepler trabalhou como astrólogo também.

Thurneisser era fascinado pelo funcionamento do universo, e seu amplo conhecimento lhe rendeu uma posição como intelectual e médico milagroso em uma corte nobre em Brandemburgo, Alemanha. Reconhecido como um cientista sério por alguns de seus pares devido ao seu interesse em Alquimia e Astrologia, Thurneisser publicou suas descobertas em um tomo fenomenal conhecido como Archidoxa, um grande livro na forma de um astrolábio com tabelas dos planetas publicado em 1569, contendo uma coleção de previsões e ideias astrológicas. Seis anos depois, ele lançou uma adição ao volume chamado Astrolábio, que usava volvelles, ou cartas de roda, para fornecer horóscopos individuais.

De 1569 a 1570, Leonhard Thurneysser viveu em Münster. O bispo local Johann III von Hoya encomendou ao seu médico pessoal Thurneysser a criação de uma farmácia, mas as ideias de Thurneysser sobre o equipamento da farmácia excederam os meios do bispo.

No tocante ao Archidoxa (não confundir com o Archidoxis magica, o grimório pseudo-paracelsiano também do século XVI), esta maravilha gráfica foi encadernada em couro ornamentado e dizia-se que, se usado corretamente, o livro permitia que seu possuidor e leitor pudesse prever o seu destino ou desastres naturais. O projeto gráfico foi realizado pelo gravador, xilocutor e ilustrador Jost Amman.

O livro era ricamente ilustrado com placas coloridas à mão gravadas por um artista chamado Peter Hille, cada página contém uma constelação diferente e Des Menschen Cirkel und Lauff, ou “círculo da vida do homem”. As volvelles podiam ser colocadas em camadas no topo de cada página e girados em relação uns aos outros, incluindo a localização de estrelas fixas e Baum des Lebens, ou “árvore da vida”.

Segundo alguns comentaristas da época, o Archidoxa teria funcionado como uma espécie de tabuleiro medieval de Ouija, dado os seus poderes místicos. Se tem poderes místicos, mesmo, eu não sei, mas imagino que não. Ainda assim, sua beleza é inquestionável.

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