A desconfortável situação do finado jornalismo

Eu gostaria de falar sobre uma coisa que existia há muito tempo, mas que hoje caiu no esquecimento: jornalismo. Não existe mais jornalismo, pelo visto, e isso é ruim. Ruim, mas não é de hoje. A verdade, como eu sempre digo, é que as pessoas cometem um sério erro; elas acham que veículos de informação existem para informar. Não existem. Veículos de informação existem para dar lucro aos seus investidores.

Noticiários são um os mais desinteressantes programas para a população em geral, e isso não é só no Brasil. Há muito tempo, eles entenderam o que atrai as pessoas: previsão do tempo (não muito) e crimes, daqueles bem sangrentos. As pessoas adoram ver a desgraça alheia.

Eu diria também esportes, mas isso não é muito verdade no Brasil. Brasileiro não gosta de esportes, gosta de futebol. por isso a ideia do Luciano do Valle – quando saiu da Globo e foi pra Band – foi criar um canal de esportes nos moldes da ESPN. Deu com os burros n’água e acabou se especializando em futebol, principalmente no interessantíssimo campeonato da Segunda Divisão do Campeonato Paulista.

Brasileiro não gosta de esportes, gosta de vencedor. Ayrton Senna estava papando todos os campeonatos? Todo mundo se interessou por Fórmula 1. Seleção de Vôlei está numa excelente fase? Houve uma corrida para as escolinhas de vôlei. O mesmo aconteceu com o tênis e recentemente com o skate. Já esqueceram. Os noticiários sabem disso. Há uma seleção de notícias mediante as métricas de interesse.

Já crimes violentos são excelente e sempre viram notícia. E o mais interessante são as emissoras locais e afiliadas que repassam programação de emissoras maiores, com algum “jornalismo” local. isso leva a coisas interessantes, já que eles são passados com um roteiro como saído como de linha de montagem. Então, temos este excerto:

Clima, trânsito, esportes, crime e eventos incomuns dominam os noticiários da televisão comercial local. Estudos do Pew Research Center de noticiários de estações locais selecionadas mostraram que o tempo médio dedicado ao clima, tráfego e esportes aumentou de 32% em 2005 para 40% no final de 2012 e início de 2013. A cobertura do que Pew caracterizou como “acidentes, desastres , e eventos incomuns” saltou de 5% do tempo de transmissão do noticiário local em 2005 para 13% no final de 2012-2013, além dos 17% do tempo do noticiário dedicado a histórias de crimes.

Não há dúvida de que os boletins meteorológicos e de trânsito são serviços públicos importantes e que as notícias esportivas não apenas atraem os telespectadores, mas também ajudam a criar um senso de comunidade local. Ainda assim, a cobertura do governo local e da política diminuiu de já insignificantes 7% do tempo no ar em 2005 para apenas 3% em 2012-2013. “Por algum tempo, os consultores de televisão têm aconselhado as estações de televisão locais que os telespectadores não estão interessados ​​em política e governo”, afirmou o Pew em seu relatório State of the News Media de 2013, “e parece que o conselho está sendo seguido”.

Fonte

Uma forma de ilustrar isso é como o Conan O’Brien apontou em seu programa sobre como são as notícias locais:

Sim, estas “notícias” são compradas. Mas piora.

O Sinclair Broadcast Group, Inc., por exemplo, é um conglomerado americano de telecomunicações , sendo o maior proprietário de estações afiliadas à Fox, NBC, CBS, ABC, MyNetworkTV e The CW. A Sinclair também possui quatro redes digitais multicast (Comet, Charge!, Stadium e TBD), redes a cabo voltadas para esportes (Tennis Channel e Bally Sports Regional Networks) e um serviço de streaming (Stirr).

Em termos de notícias, eles praticamente obrigam os âncoras de jornais de cada telejornal a terem o mesmo discurso. Literalmente o mesmo:

No caso do Brasil, isso não acontece, simplesmente por não termos tantas afiliadas e canais locais assim. Claro, as notícias são sempre as mesmas (preço do material escolar, crimes, político ladrão), mas sempre com um viés e, cá pra nós, só temos duas grandes emissoras: Globo e Record, e cada uma com viés próprio. SBT significa Sílvio Brincando de TV e nunca teve intenção de ser uma emissora de verdade…  ou tinha, mas tinha que atender às idiossincrasias do Sílvio Santos. Band(eirantes) é uma sombra do que foi e o resto é o resto.

Jornais como Folha, O Globo, Estadão etc estão preocupados com números também. Não vou tocar nos Metrópoles porque… convenhamos, aquilo é um blog metido a besta, mas a Folha não fica atrás, e se você não sabe da história da Escola Base, corre atrás que aquele caso mostra a imundície que a Folha e O Globo fizeram, ficando praticamente por isso mesmo, depois de terem destruído a vida de dois donos de colégio.

Os jornais descobriram, então, que não precisavam investir em jornalismo. Basta fazer chamadas maravilhosas para angariar seguidores. Então, viram que se está viralizando em rede social, transformam em notícia, pouco importando que seja real ou não. No dia seguinte, já terá outra indignação e a de ontem já foi esquecida.

Nisso, chega o Choquei, um perfil merda de um site de bosta que fazia fofoca de celebridade. Como é descontraído, pessoal adorou e ele investiu em escrever (bobagens) sobre política e atualidades. Isso deixou a Folha MUITO PUTA. Começou uma guerra entre os dois.

E quem perde a guerra? Nós. Pessoal fica repassando estas duas porcarias, não as notícias. O jornalismo morreu, a checagem de informações morreu. O que importa são números. E antes que você fale que o jornal que você segue é bom e noticia corretamente, me responda: ele tem postagem ou artigo sobre horóscopo?

4 comentários em “A desconfortável situação do finado jornalismo

  1. Tweet virou pauta. TWEET. A coisa mais idiota pra se usar como pauta ganha atenção suficiente pra ir pra portal de notícia. Esses dias o Musk respondeu uma seguidora sobre fazer um smartphone e CLARO que choveu artigo tomando isso como verdade. Qualquer zé-ruela que viraliza vira tema de artigo. Pombas, EU já tive tweet viralizado indo pra portal de notícia!
    O jornalismo morreu e foi enterrado e foi substituído pelo jornaleirismo. A bosta do “documentário” do repórter arrependido envolvido no caso Escola Base prova isso. Enquanto isso um podcaster acha provas de tortura contra os acusados de um crime fazendo o que os jornalistas deviam fazer, mas estão ocupados demais pegando pauta no Twitter.

  2. Crimes viraram FALSOS acompanhamentos de algumas PRÉ-investigações…

    E “entidades classistas” como FENAJ e ABI apenas tentaram mandar na Wikipédia ( Lusófona ) mesmo que esta em pleno MELHOR MOMENTO de algumas das melhores (apesar de falsamente polêmicas) avaliações consensualmente honestas de fontes.

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