Analisando séries e filmes de super-heróis XXII

A história sem fim de Shang Chi

Shang Chi é um personagem como tantos outros de sua época. Seu filme é um tanto… diferente dos quadrinhos, embora a premissa seja a mesma. Como sempre, o MCU faz uma salada dos diabos, deixando seu universo cinematográfico todo cagado como sempre, mas os fãs não perceberão isso e vai ficar tudo por isso mesmo. Ainda assim eu já posso dizer: e um bom filme de artes marciais estilo chinês, não tanto de super-herói, mas nem os filmes de “super-herói” da Disvel são efetivamente filmes de super-herói, como já falei antes.

Tudo começou no final dos anos de 1960 e início dos anos 1970. Muito do mercado americano estava saturado com os velhos clichês. Então chega uma novidade: Kung Fu, e seu principal astro. Sim, Bruce Lee. Ele era auxiliar de um combatente contra o crime, sendo um milionário playboy e esbanjador com um trauma pessoal. Sim, isso mesmo, ele: O Besouro Verde.

Este personagem foi criado pro rádio na década de 30, mas o auge foi a série televisiva em 1966 em que Van Williams atuava como o Besouro Verde (Green Hornet em inglês. Acharam que “Vespa Verde” seria muito feminino) e Bruce Lee como Kato, o ajudante que baixava a porrada com seu Kung Fu.


E você achando que Marvel inventou o crossover

Kung Fu estava virando moda. Um monte de filmes chineses (não necessariamente do Bruce Lee) começavam a despontar no Ocidente. Em 1972, foi ao ar a série Kung Fu. Segundo relatos do Bruce Lee, a ideia da série foi dele, e a Warner Bros. Se apropriou. Outros dizem que já estavam para lançar de qualquer forma, e as parcas evidências sustentam os dois relatos. O que se sabe, MESMO, é que a febre do Kung Fu foi pros quadrinhos, como era de se esperar, com várias editoras investindo nisso.

Mas tudo isso começou antes, e não de uma forma muito, digamos, positiva. Tudo começa com a revista de Ficção Científica Tom Edison Jr. A edição Electric Sea Spider trazia exatamente isso: uma aranha elétrica marinha. Era em plena a Era da Invenção e as revistas de aventura abordavam máquinas a vapor e dispositivos elétricos, já que eletricidade era uma novidade. Esta revista é de fins do século XIX. O vilão da história Kiang Ho, um chinês (ou mongol) que controla um porto na China e ataca navios ocidentais ajudados por um super-submarino.

Sim, você está certo. Um kibe da obra de Júlio Verne, mas um pouquinho racista, já que chineses eram tão… exóticos, digamos assim, que acharam ser um excelente vilão daqueles “quero dominar o mundo. MUAHAHAHAHA!”. A obra é assinada por Phillip Reade, mas este autor não existe. Era um pseudônimo usado pela editora Street e Smith e podia ser qualquer um, já que ele tinha uma série de livros, cujos estilos variavam muito.

Em outubro de 1912, a revista britânica The Story Teller apresentou outro mega-vilão: o terrível Doutor Fu-Manchu foi o conto, escrito por Sax Rohmer. A origem do personagem foi descrita pelo próprio Rohmer quando ele perguntou ao seu tabuleiro OUIJA (não ria) qual vilão seria perfeito para as suas histórias. A resposta foi CHINAMAN. Assim, ele criou o chinesão malvadão.

O nome em si não significa nada, já que de mandarim ou cantonês, Rohmer não entendia nada, mas ele deu uma de Sax Sem-Braço alegando que Fu Manchu significava “longo bigode”, já que o personagem que ele criou tinha longos e caídos bigode de cada lado, sendo raspado no meio, cabelo comprido amarrado num coque e um roupão de seda. Curiosamente, criou-se um estereótipo para vilões cineses e chineses em geral, e todos passaram a ser retratados assim, indo desde Ming, o Impiedoso (você sabe, o do Flash Gordon), passando pelo Dr. No, de James Bond, o dr. Zin de Johnny Quest entre outros. A comunidade chinesa ficou bolada com isso, alegando que eram criações exageradamente estereotipadas e racistas. Chineses odeiam o Dr. Fu Manchu até hoje, por sinal.

Mas nem tudo era essencialmente racista ou xenófoba. Eça de Queirós tinha um personagem chinês, também. Ele era Ti Chin-Fu, personagem de O Mandarim, de 1880. Simone de Beauvoir escreveu, em 1954, o romance Os Mandarins, e não, nada de super-vilões maquiavélicos. Por sinal, o personagem de Eça morre assassinado, e ele é de suma importância na história. Aliás, prestem atenção nessa parte de “O Mandarim”. Adiante, voltaremos a ele.

Voltando pra moda do Kung Fu, várias editoras tiveram seus heróis lutadores. A DC tinha Lady Shiva e o Tigre de Bronze, o que foi uma bela jogada da DC, pois acertou dois coelhos com uma cajadada só: não só apelou para a moda do Kung Fu, como usou do blackexploitation. Bem Turner, o Tigre de Bronze, estreou na revista Richard Dragon: Kung Fu Fighter nº 1, em maio de 1975. Richard Dragon era um personagem chinês, mestre de artes marciais.

A propósito, na animação Batman: Alma de Dragon, é mencionado o Batman (d’oh!), o Tigre de Bronze, Richard Dragon e Lady Shiva.

Um pouco antes (em fevereiro de 1964), Stan Lee criou um inimigo pro Homem de Ferro: ele é o Mandarim, desenhado por Don Heck, aparecendo em Tales of Suspense nº 50.


Não é o melhor desenho do Homem-de-Ferro

Não era lá tãããããão racista quanto o dr. Fu Manchu, mas ainda assim era um vilão oriental. O Mandarim tinha Dez Anéis, mas estava longe dos Dez Anéis do filme. Esses Dez Anéis tinham poderes próprios, sendo que cada anel fazia uma coisa:

Pois é. Praticamente uma outra versão das Joias do Infinito, mas sendo justo, as Joias do Infinito apareceram muito depois. E não, não tinha nada a ver com Shang Chi. Ao menos, não inicialmente.

Os Dez Anéis, o grupo terrorista, aparece já em Homem-de-Ferro 1, quando Tony Stark é atacado e sequestrado, passando o pão que o Mandarim amassou. Em Homem de Ferro 3, a América é aterrorizada pelos Dez Anéis e seu líder: o Mandarim, interpretado por Ben Kingsley. Com o decorrer daquele filme péssimo (mas que faturou 1,214 bilhão de dólares, o que para muitos é sinal de ser um filme excelente, embora não tenha sido isso que eu vi no cinema), descobrimos que ele era apenas um ator, contratado pelo verdadeiro vilão Aldrich Killian. Sim, destruíram o vilão ali. É apenas uma historinha de vingança pessoal. Foi assim no Homem-de-Ferro 1, 2 e 3. MCU não tem imaginação, como podemos ver.

No filme de Shang Chi, vemos que o grupo terrorista dos Dez Anéis é chefiado por um líder com poderes místicos graças aos seus anéis. Este grupo é milenar e seu líder é imortal. Este grupo tem maquinado profundas mudanças na História, manipulando países, criando atentados, planejando assassinatos e sendo contratados para dar cabo de gente importante ou promover golpes. Sim, é um kibe da Liga das Sombras e seu líder Ra’s al Ghul. O Mandarim, de fato, apareceu antes, mas a forma como foi retratada como grande líder de organização terrorista apareceu depois.

No filme de Shang Chi, o líder e portador dos Dez Anéis é Wenwu, pai de Shang Chi. O filme não diz exatamente a origem dos Dez Anéis, mas acho que isso não é muuuuuuuito importante, mas voltarão a isso, principalmente pra quem viu a cena pós-crédito. Sim, o filme mistura a história dos Dez Anéis, com o grupo terrorista, o pai de Shang Chi, o Mandarim etc.

Aliás, Wenwu desdenha do “Mandarim”. Chega ao ponto de ter sequestrado o ator que se fez passar por Mandarim, Trevor Slattery. Slattery acaba por ser uma espécie de Bobo da Côrte e Wenwu decide mantê-lo. Wenwu explica pra Shang Chi e seus companheiros sobre o Mandarim:

Há alguns anos, um terrorista americano precisava de um bicho-papão pra colocar o próprio país de joelhos. Então, ele se apropriou dos 10 Anéis [está falando do grupo terrorista]. Meus 10 Anéis! Mas, como ele não conhecia o meu verdadeiro nome, inventou um. Sabe que nome ele escolheu? “O Mandarim”. Usou o nome de um prato feito com frango. E deu certo! A América ficou aterrorizada por um frango.

Essa é a tradução que muitos usaram. Mas tem um pequeno detalhe. Quando ele diz “A América ficou aterrorizada por um frango”, na verdade a fala original deveria ter sido traduzida como “A América ficou aterrorizada por uma laranja”. Mandarin Orange Chicken é um prato que em português é traduzido como Frango Chinês. Mas também pode ser um pato. O deboche de Wenwu é por terem escolhido um nome ridículo ao ver dele, mas tem um detalhe: Mandarins eram oficiais da corte na China Imperial. Por isso Eça de Queirós e Simone de Beauvoir usaram este nome em seus livros. Claro, parece que este “esquecimento” foi para dar um tom de escárnio na conversa. Não que não tenha pegado mal, mas quando a gente sabe um pouquinho, se sente deslocado.

O filme Shang Chi e a Lenda dos Dez Anéis (que não tem lenda, propriamente dita a respeito dos Dez Anéis), envolve como Wenwu ganha tanto poder e mesmo assim quer mais. Ele quer os segredos das técnicas de luta da mística cidade de Ta-Lo, em que pessoas imortais vivem há séculos com criaturas fantásticas do folclore chinês. Ao ir lá, Wenwu conhece Ying Li, se apaixona e ela por ele. Ela abandona Ta Lo, pois os pecados de Wenwu o impedem de morar no reino místico. Ainda assim, Wenwu abre mão dos Dez Anéis e passa a viver com sua esposa, que lhe dá dois filhos: Chang Chi e Xialing. Um dia, quando Wenwu está fora, antigos inimigos de Wenwu vão à sua casa e matam Ying Li. Wenwu amarga luto e resolve se vingar, voltando a ser o líder dos Dez Anéis, matando seus inimigos de forma bárbara. Começa a treinar Shang Chi para ser um assassino, e Xialing treina escondida. Ambos se tornam mestres de artes marciais. Aos 17 anos, Shang Chi foge e se esconde nos EUA.

Wenwu sempre é assombrado pela voz de sua esposa pedindo sua ajuda para se libertar. A voz diz que ela foi presa pelos habitantes de Ta Lo. Ele diz para Shang Chi que se eles não libertarem sua amada, ele vai matar todo mundo. Shang Chi e seus companheiros fogem e com a ajuda de Trevor e de Morris, um dos seres místicos de Ta Lo, conseguem chegar em Ta Lo primeiro. Lá, Shang conhece a sua tia, interpretada pela maravilhosa atriz Michele Yeaoh, já bem conhecida do cinema chinês por filmes de kung fu, como O Tigre e o Dragão. Curiosamente, ela não saca nada de luta, mas sua atuação é sempre primorosa. Ela ensina ao seu sobrinho a arte de luta de Ta Lo e ambos esperam Wenwu, que chega tocando o terror. O problema é que a voz que ele escuta é um engodo. Há milênios, criaturas demoníacas vieram e lutaram, quase destruindo tudo. Mas com a Grande Protetora, os povos antigos se salvaram e aprisionaram estas criaturas. Só que com o poder dos Dez Anéis, Wenwu dá um piau no Shang Chi e acaba por libertar as criaturas, e só então ele viu que deu merda. Shang Chi cai no lago e encontra a Grande Protetora:

Desculpe, dragão errado. É este aqui:

Tá bem cartunesco este dragão, por sinal. Parece carro alegórico de escola-de-samba do segundo grupo.

Ok, o bem vence o mal, espanta o temporal. Wenwu morreu enfrentando o Dragão do Mal e tudo fica bem. Mas… vamos falar sobre o que é o filme?

Shang Chi é um filme de amor. Sim, isso mesmo que você leu. O amor de Wenwu o fez largar a vida de gangster terrorista. A morte do seu amor o machucou muito e ele buscou os demais anos uma forma de trazer a sua amada de volta, e isso quase o fez destruir o mundo.

E não, Shang Chi não é um filme de super=herói, mesmo para os padrões da Disvel, que não faz filme de super-herói. Apesar das cenas de ação, ainda tem um quê de poético, como no uso de wire-fu, a técnica de prender os atores em arames para eles darem aqueles voos enquanto lutam, algo que a Michele Yeoh sabe de cor e salteado.

Os efeitos visuais do filme são corretos. Nada OHHHH, e as criaturas místicas parecem action figures filmadas. Não parecem reais, e sim, eu SEI que não são reais. Mas a armadura do Homem-de-Ferro é CGI e você quase não nota. Os asseclas de Thanos são digitais, assim como Surthur de Ragnarok. Mas os de Chang Chi parecem ser fruto de economia.

Ainda assim, é um bom filme de kung fu, e isso eu tenho que dar o braço a torcer: FINALMENTE, um filme que tem briga sem cortarem a parte que acertam um ao outro. O kung fu é bem coreografado, exagerado, como sempre tem que ser este tipo de filme, e ainda assim tem a coreografia suave dos bons filmes chineses do gênero. Eu gostei muito.

Mais um filme que é melhor que o último filme do Miranha.

5 comentários em “Analisando séries e filmes de super-heróis XXII

  1. Rapaz, cê leva a sério a lição de casa, hein? :P
    Gostei do texto e da pesquisa. Mas gargalhei com o Falcor. Pra mim ele vai ser sempre um doguinho voador, não adianta.

  2. Como podemos notar, de uma mídia para a outra, muitos detalhes se perdem. Se bem que eu não ligo já que não leio quadrinhos.

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