Analisando séries e filmes de super-heróis XVII

Justiça que faltou para a Liga, ou Liga Whedonverse

Liga da Justiça é um filme bastante controverso e teve um festival de problemas. De todos os tipos. O filme estava atrasado, o orçamento estourou e a filha do Zack Snyder cometeu suicídio, deixando o cara na pior, compreensivelmente. Vamos falar um pouco sobre os dois filmes, mas antes, o pano de fundo.

A ideia de ter super-heróis reunidos para trabalhar em conjunto nunca foi novidade, mas se levarmos em conta o Universo DC, ela surgiu na edição número 3 da All Star Comics (1940–1941) pelas mãos de Sheldon Mayer e Gardner Fox, com o Nome de Sociedade da Justiça.

No episódio “Legends” do desenho da Liga da Justiça (2002), a Sociedade da Justiça da América (SJA) apareceu com outro nome, porque a DC Comics proibiu que usassem o nome original, pois não tinham gostado de como SJA fora retratada. É um episódio muito legal e que amantes de quadrinhos adorei de paixão. Há outras homenagens, como o menino com poderes mentais Ray Thompson, numa clara alusão ao escritor Roy Thomas, que passou anos desenvolvendo personagens e gastou muita tinta escrevendo histórias para a Terra-2, justamente aventuras da Era de Ouro, com a SJA (aliás, esta história gerou um belo kibe da Marvel, mas ficará pra outro dia).

A Liga da Justiça, como conhecemos hoje, cujos membros fundadores foi o Super-Homem, a Mulher Maravilha, Batman, Flash, Aquaman, Caçador de Marte e o Lanterna Verde, foi publicada pela primeira vez na edição 28 do The Brave and the Bold (1960).

Esta formação existe até hoje, mas acabou sendo desmembrada em várias “Ligas da Justiça”, sendo uma delas a Liga da Justiça Internacional. O que aconteceu foi que em 1987, a DC Comics estava reformulando todo o seu plantel e não queria que houvessem histórias com os peso-pesados (Super-Homem, Mulher Maravilha, Hal Jordan etc). Deram carta branca pros roteiristas Keith Giffen e J.M. DeMatteis fazerem o que quisessem. Os dois roteiristas negociaram e foi-lhes permitido ficar com o Batman, e era de propósito pelo que eles tinham em mente. Além do Morcegoso, tinha o Caçador de Marte (também chamado Ajax), Canário Negro, Besouro Azul, Senhor Milagre, Senhor Destino, Shazam (na época ainda chamado de Capitão Marvel) e o Lanterna Verde Guy Gardner.

Super-Homem e Mulher Maravilha ficaram de fora, em outras aventuras. Na Liga da Justiça Internacional, Batman assumiu como líder a muito contra-gosto do irritante, irascível, pernóstico, arrogante, machista, tosco, valentão e totalmente sem-noção Guy Gardner, posto que Hal Jordan e John Stewart tinham picado a mula da Terra e foram patrulhar o setor 2814 do Espaço. A ideia era que fossem histórias mais fortes na parte cômica, principalmente nos arranca-rabos entre o Batman (a parte séria da formação) e Guy Gardner, enquanto o Besouro Azul se divertia com o embate dos dois. Gardner achava que o Batman não tinha que ser o líder do grupo, e sim ele. Isso levou à sequência mais engraçada e que todo mundo adora e relembra: quando Batman se mostra cansado do Gardner, enquanto este resolve dar uma lição no Morcegoso, entregando o Anel Energético ao Besouro Azul, chamando o Batman pra porrada.

Pois é. Mesmo que você não tenha lido Liga da Justiça nº 06 (1989), já sabe o que aconteceu antes de eu contar:


Eu moido :3


Batman: o verdadeiro One Punch Man

Com o tempo, o lado cômico começou a cansar e o interesse das pessoas estava em outros cantos: a concorrente Marvel, principalmente os títulos de Vingadores. A DC faz uma nova reformulação.

Em 1996, estreou uma minissérie escrita por Mark Waid e Fabian Nicieza, que deu origem ao novo título da DC: Liga da Justiça da América, escrita por Grant Morrison e desenhada por Howard Potter, tendo como integrantes a Santíssima Trindade da DC, além de novos integrantes: Wally West como Flash e Kyle Rainer como Lanterna Verde, que assumiu o posto nos eventos do Crepúsculo Esmeralda, quando Hal Jordan tinha metido o louco quando estava possuído pelo Parallax.

A Liga da Justiça do Morrisson era mais séria, com ameaças aqui na Terra e escritas com roteiro mais focado na história e não em fazer rir apenas. Em pouco tempo, estava estourando nas vendas, enquanto a Marvel estava em declínio.


Não é minha capa favorita.

Liga da Justiça do Morrisson é a minha Liga da Justiça preferida (apesar de eu não suportar Kyle Rainer, que demorou um porradão de tempo para saber que o Anel Energético podia traduzir qualquer idioma, ou mesmo falar, coisa que Hal Jordan descobriu isso na primeira aventura), e foi essa Liga da Justiça que a série animada foi inspirada. A Liga da Justiça do Morrisson/Waid possui uma pegada muito diferente da do Giffen/DeMatteis, e é importante saber disso para podermos analisar os dois filmes da Liga da Justiça. São o mesmo filme? Maaaaaaaaaais ou menos. O ponto crucial da diferença é a pegada e a visão de dois diretores totalmente diferentes.

Como dito, o filme da Liga da Justiça estava com toda a chance de não dar certo. Indecisão da diretoria da Warner, suicídio da filha do Snyder, atraso nas filmagens (o que levou ao Henry Cavil ter que atuar de bigode, porque estava fazendo outro filme, e a equipe de VFX que se virasse para tirar o bigodão de lá), o prazo mais que estourado e uns executivos malucos esbravejando que o filme ia faturar fácil 2 bilhões de dólares, o que pressionava mais ainda a equipe de direção, produção e filmagem.

Snyder sai de cena com muita coisa faltando por filmar, outras sem edição. Chamaram Josh Whedon, um excelente diretor, além de outros roteiristas. Motivo: queriam dar um reforço no lado cômico do filme e aí começaram os problemas de verdade. Whedon é um cara tão bem conceituado que a Disney (que nunca foi conhecida por ser gentil com a concorrência) ficou caladinha.

Aí chegamos naquele velho problema batido: as pessoas atualmente não gostam de filmes de heróis. Eu demonstrei isso quando falei o segredo do sucesso da Disvel e expliquei qual o problema dos filmes da DC. As pessoas não querem filmes de heróis e é por isso que a Marvel faz sucesso: não tem super-herói lá.

Whedon faz algumas alterações profundas. Umas eu adorei. Ele coloca o tema de cada herói já consagrado. O do Super-Homem de John Williams, o do Batman do Danny Elfman, o do filme da Mulher Maravilha e até do Flash. O que pecou: o tema do grupo. É uma música que não empolga, não te causa efeito, não dá aquela sensação “agora vâmo pra porrada”.

Quando Steppenwolf diz que eles não estavam em condições de aceitar a verdade vem a trilha sonora (ele vai aparecer!)

“Eu acredito na Verdade, mas sou um grande fã da Justiça”.

Steppenwolf se vira e toma um porradão. A trilha sonora te prepara para isso, mas a do grupo passa desapercebida. Curiosamente, é o inverso dos filmes da Disvel. O tema dos Vingadores é ótimo, empolgante, é ação. Mas não há temas individuais. Na cena que o Capitão América aparece na estação de trem, a música que toca é uma parte do tema dos Vingadores. Quando Thor chega em Wakanda, toca a outra parte do tema. Parecem temas dos heróis, mas não são.

Outro ponto errado é como nós lidamos com o perigo em volta da luta entre mocinhos e o vilãozão. Quando os heróis falam em destruir as caixas maternas, o Super ouve com sua super-audição. “Civis”, ao que disseram que o Flash ia cuidar disso. “Ele não vai chegar a tempo” e sai voando. O Flash salva uma família, o Super salva um prédio inteiro. Uma cena linda mas… o que aquela família estava fazendo ali? Parecia um local de acidente nuclear e devia ser radioativo. Nem tinha tanta gente ali. O pior, eu vi a família, mas não teve um perigo iminente. Ou não parecia. Não me senti conectado ao drama dessas pessoas. Foi engraçado o Flash dizer “Dostoyevski” pra garotinha e sair. Essa piada foi deslocada da situação.

Sim, algumas piadas até foram legais (a parte do super-poder do Batman era ele ser rico e no final ele dizer que resolveu o problema da casa da mãe de Clark comprando o banco eram piadas do Snyder, não do Whedon). Um exemplo a parte do Aquaman deslanchando a falar como estavam ferrados e tal, mas beleza, né? Ah, e chamou a Mulher Maravilha de gostosa. Isso porque ele estava sentado sobre o Laço da Verdade. Aliás, isso nem foi novidade. Numa das cenas da Liga nos quadrinhos, Hal Jordan começa a falar e acaba dizendo que o que ele fazia era para impressionar Diana. Todo mundo se espanta e Diana fala que ele estava tocando o Laço dela.


Sim, o Batman ri… às vezes.

Vemos então que a Liga da Justiça de Whedon é a Liga da Justiça de Giffen/DeMatteis, ainda que com outros personagens. Piadas não são ruins, o problema é elas ficarem desgarradas, como Bruce perguntando ao Aquaman se ele conversava com peixes. A referência? Esta aqui:

A piada é boa, mas tem um problema: Batman não é de ficar fazendo piadas. Isso ficou… forçado. Caiu bem na cena pós-crédito do Shazam, mas não pro Batman. Na sequência que o Super é ressuscitado/acordado, o Flash faz a piadinha óbvia comparando com Cemitério Maldito. Flash cai em cima da Mulher Maravilha e trata de se levantar. Flash é sempre o alívio cômico, mas não o único. As piadas estão perdendo o controle, assim como aconteceu com a Liga de Giffen/DeMatteis, e o cansaço foi mostrado na queda das vendas dos gibis. Era para terem pretado atenção nisso.

Faltou também saber várias coisas. Entendemos a motivação de Steppenwolf: ele quer se sentar e de novo entre os Novos Deuses (não é dito quem ou o que são eles). Ele tinha falhado em conquistar a Terra (para si? Para outro?). Ele monta a base na tal cidade russa. Por que Steppenwolf fez a base ali e não na Antártida? O que está acontecendo?

Então entendamos o problema do filme da Liga do Whedon: falta mojo, sustança, heroísmo. O método Marvel não se aplicou, a violência não é violenta, não tem nem o sanguinho no canto da boca. Mulher Maravilha mete a porrada num monte de terroristas (a motivação deles é ridícula, por sinal) e parece que foi só uma sucessão de tapas e jogadas pra longe. Em contrapartida, tem um momento maravilhoso, quando ele, apenas um garoto que nem ao menos compreende seus poderes ainda, surta em frente ao perigo extremo e pessoas prestes a serem mortas: ele não é um herói. Ele empurra pessoas e sai correndo. Batman diz para ele salvar uma pessoa. Apenas uma. Entra, pega uma pessoa, sai com ela. Batman se torna o mentor do Flash, que estava aprendendo a ser herói. O Ciborgue? Tinha algo lá para ser explorado, mas não foi.

Então, chegamos na minha velha perguntinha: sobre o que é o filme?

Um filme que começa com luto e as cores cinzentas snyderianas eram dominantes. À medida que o filme prossegue, mais cor é dado, até que culmina num desabrochar de flores e um raiar do dia lindo, mostrando que tudo estava bem, novamente. O filme fala sobre heróis individuais aprendendo a serem heróis em conjunto. Quando a Mulher Maravilha relata a antiga era de Heróis, Batman replica que é preciso que os heróis voltem e voltem a atuar juntos. Batman parece precisar ser um recrutador, e principalmente para apagar a sua culpa por ter sido o responsável pela morte do Super-Homem. Ele vê que sozinho não tem poderes além de ser rico, e é preciso outros heróis. Então, ele parte para o recrutamento. Seu plano é ter todos eles numa grande aliança de pessoas com habilidades notáveis e super-poderes. Quando o Morcegão explica o plano (o Batman sempre tem um plano), ele espera se sacrificar, talvez pensando que era o que ele merecia pelo que tinha feito com o Super-Homem, só que durante o ataque à fortaleza de Steppenwolf, todos os heróis se juntam, sendo ele absolutamente ignorado por todo mundo, que preferiram atacar em massa, ao que ele fala “este não é o plano”, mas Alfred explica “Não, esta é a equipe”. Era para ter uma puta trilha sonora às alturas, mas… falhou. Foi o dedo da Marvel que pesou mais. A Marvel que odeia super-heróis e refletiu nos heróis da DC, cujos personagens são deuses buscando a sua humanidade, lutando em conjunto contra um mal. Mas ficou no vácuo isso. Um grande Meh.

O Super-Homem vai salvar as pessoas e volta e assume a liderança do grupo. Ele é a Esperança que faltava, o caminho a ser seguido. A Verdade, a Vida. Mas ele parece que só serviu para salvar todo mundo que já tinha tomado um piau antes. O Super-Homem é mais que um porrador; não que ele não faça, mas os ideais dele são maiores, a inspiração, a alma do grupo. O Batman tinha feito este papel, a Mulher Maravilha nem isso. O Ciborgue está como figurante que assume um papel maior na hora de salvar o mundo afastando as Caixas Maternas, mas não houve um crescendo do personagem. O filme pecou nisso.

Não era um filme da DC, não era um filme da Marvel. Foi tudo na base da gambiarra. Talvez seja injusto culpar o Whedon; ele tentou, tentou em nome de uma amizade que depois seria respondida com uma ingratidão. Mas o estilo do Whedon é muito diferente do estilo do Snyder. A Warner não soube orientar para dizer o que queria no final das contas. Não houve desenvolvimento dos personagens Aquaman, Ciborgue e Flash, pois eles não tinham tido filmes solo. Só o Aquaman teria depois, e o Wan acertou muito a mão.

Liga da Justiça já tinha chegado na base da má vontade das pessoas. Faturou 93,8 milhões de dólares no dia de abertura, sem nem terem certeza de como estava o filme. Alguns disseram que era ruim por ser um filme do Snyder, outros que era ruim por ser do Whedon. Outros ainda porque se era DC era ruim. A um custo total (sem o marketing) cerca de 30 milhões, dada as refilmagens e gambiarras, faturando no total 657,92 milhões, Liga da Justiça amargou um belo flop. A consequência foi um movimento dos Isnáiderfãs querendo um Snyder Cut, que dificilmente iria ocorrer. Seria preciso re-refilmar muitas cenas, muitas que não haviam sido filmadas, substituídas pelas ideias do Whedon, outras que foram refilmadas pelo Whedon para dar sentido a uma história quebrada seriam refeitas mais uma vez. Seria um pesadelo e custaria uma fortuna. Não haveria motivo para fazê-lo.

Mas fizeram, e este recebeu o nome Snyder Cut, que será abordado no próximo artigo, pois este ficou muito grande já.

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