Analisando séries e filmes de super-heróis V

Vilões, o grande problema da Marvel (mas nem deveria ser)

Eu escrevi “Marvel”, no subtítulo, mas deveria ter escrito “Disney”, mesmo. Todos se referenciam à Marvel Studios, mas ela é de propriedade da The Walt Disney Company agora e isso porque a Marvel sempre esteve na pindaíba e faliu umas trocentas vezes. Nos anos 1950, a então Atlas Comics estava passando por maus bocados. Nos anos 1970, começou a haver uma contração do mercado de quadrinhos, mas ainda assim a Marvel conseguia se manter, apesar de seus títulos. Os personagens eram famosos, e o são ainda hoje. Mas curiosamente, isso não refletia nas vendas.

Indo aos trancos e barrancos, chegaram os anos 1990, e todas as editoras perderam a mão. O Batman foi substituído pelo Azrael, Hal Jordan mete o louco quando Coast City foi aniquilada por Mongul, O Justiceiro vira anjo da morte, o Super-Homem mergulha no núcleo do Sol e sai com poderes elétricos, para depois virar dois Super-Homens (mas isso depois de ter morrido e ressuscitado, o que, talvez, fora o melhor dessa época). Ah, sim, tivemos a ascensão de Rob Liefeld, e vou parar qualquer menção a ele aqui. A DC conseguiu se manter, rebootou e fez os heróis clássicos serem os heróis clássicos. A Marvel com suas ideias mirabolantes foi pra vala, já que a Casa das Ideias tinha virado Casa das Ideias de Jerico. Já a DC ia muito bem, obrigado, e principalmente por causa daquilo que provou que dava para ganhar dinheiro com super-heróis no cinema: a franquia Batman, a começar com o Batman de 1989.

Em 1993 foi fundada a Marvel Films, com a ideia de produzir… bem, produzir filmes. O presidente e diretor criativo da então Marvel Enterprises, hoje conhecida como Marvel Entertainment, Avi Arad, começou a fazer o melhor que podia fazer: não, não foram filmes. Ele meteu à venda o plantel da Marvel, com o pessoal comprando os personagens a troco de pinga. Isso acarretou numa confusão dos diabos que dura até hoje, com o Homem-Aranha indo parar nas mãos da Sony, o Quarteto Fantástico (com Galactus e o Surfista Prateado) indo para a Fox, que também ficou com os X-Men, o Hulk foi parar na Universal e por muito pouco a Marvel não perdeu os direitos do Capitão América. Marvel Studios só começou a fazer algo que prestasse em 2008, com Homem de Ferro, mas se você pensa que não tinha o dedo da Disney, está enganado. De acordo com o DVD do próprio filme, Disney foi responsável por muito dos efeitos visuais, e em 2009 anuncia a compra da Marvel Studios por ridículos 4 bilhões de dólares, outra compra a troco de pinga que o Camundongo encontrou entre as almofadas do sofá.

Você não vai tentar me convencer que a Disney demonstrou interesse, fez uma oferta, negociou e ratificou a compra em apenas alguns meses, né? Já olhando o Homem de Ferro, vemos que teve a cena pós-crédito (que ninguém percebeu na época) o que viria por ali, e Disney sempre planeja com muita antecedência. Para diferenciar os filmes com personagens da Marvel feitos por outros estúdios, chamarei os filmes da Marvel Studios por “Disvel”, de Disney+Marvel)

Disvel deu muita atenção aos detalhes, como cada parafuso sendo encaixado durante a montagem da armadura do Homem de Ferro. O tipo de detalhismo que foi sendo deixado de lado até que em Guerra Infinita tirou do reto aqueles nanites saindo do nada, numa solução preguiçosa, com fins de economizar nos efeitos visuais.

Aliás, o desleixo com os efeitos vai ficando patente com os filmes da Disvel, e como exemplo temos o Pantera Negra, um filme ruim que as pessoas juram que é bom para não passarem por racistas. Mas, o que me chama a atenção no filme do Pantera Negra é quando você pergunta “quem é o vilão do filme?” a resposta é surpreendente: não, não é o Killmonger. Ele é o antagonista do filme, mas nem sempre o antagonista é o vilão e nem sempre o protagonista é o herói. Se você viu House of Cards, em que o protagonista é o deputado Francis Underwood em sua sede pelo poder, você jamais poderá dizer que ele é o herói. Ele é tudo o que um herói jamais seria. Ele exerce a figura de anti-herói. O vilão da série é a política suja que rola por Washington. No caso do filme do Pantera Negra, a grande vilã é Wakanda e o protagonista, T’Challa, o Pantera Negra, não é herói.

De acordo com o filme, um enorme asteroide feito de vibranium – o elemento mais duro que se conhece, sendo praticamente indestrutível – caiu na Terra, no meio da África (a bem da verdade, ele deveria ter varado o planeta e causado uma extinção em massa, mas vamos deixar os erros de roteiro dos filmes da Disvel para um outro dia). Lá floresceu uma civilização com cinco tribos. Quatro delas fundaram Wakanda e uma foi viver nas montanhas. Os Wakandenses aprenderam a trabalhar com o vibranium (não perguntem como. É uma das falhas de roteiro) e criaram uma tecnologia do nada, sem nem terem inventado Matemática ou a Escrita. O tempo passou e eles se isolaram do mundo criando campos de força e um manto de invisibilidade, se alienando do resto do mundo, enquanto tudo caía no caos. As outras tribos da África entraram em guerras e acabaram subjugadas, escravizado-se umas às outras e vendendo os espólios de guerra aos europeus. Wakanda não se meteu. Veio o período colonial na África, e por algum motivo nunca esbarravam em Wakanda, que se manteve alheia ao que se passava, acumulando riqueza e tecnologia (o que seria impossível, mas prossigamos).

Wakanda acaba sendo uma nação hiper-desenvolvida que passou à xenofobia e ao racismo, não compartilhou saberes e tecnologia com ninguém ou criticou a escravidão de outras nações africanas, o tipo de coisa que ela poderia ter impedido.

Segundo Killmonger, Wakanda tinha o dever de reunificar as tribos africanas e dar o troco, ao que T’Challa recusa. Killmonger, sendo de sangue real, desafia T’Challa, que perde a luta e quase morre. T’Challa volta e dá um golpe de Estado, tem a pior luta dos filmes da Disvel, e ganha de Killmonger. Só que T’Challa fica tocado pelos argumentos e abre Wakanda para o mundo. O objetivo de Killmonger foi alcançado (em parte). O antagonista venceu, a vilã sucumbiu, e ninguém percebeu que Wakanda tinha tudo que ia de encontro ao que uma figura heróica teria que ser. Recusou ajuda, não contribuiu com nada no mundo, detestava até mesmo outras nações africanas, pois só os wakandenses eram superiores. Sim, isso é racismo. É xenofobia. E enquanto os dois pretensos reis brigam pelo poder, o agente Ross salva o mundo, preocupado com as armas de Wakanda sendo usadas de modo errado. Mas, claro, se for dizer que Wakanda era racista, você será taxado de racista, não importa o quão certo você esteja, mas não é este o assunto deste artigo. O assunto é como os filmes da Disvel podem ter vilões tão péssimos!

Levando em conta a fase 1, temos o vilão do Homem de Ferro Obadiah Stane, que nos quadrinhos foi chamado de Iron Monger, mas parece que não quiseram usar muito do material dos HQ. Eles ainda estavam tateando. Foi um bom filme de início, mas com vilão ruim e luta final tosca. Veio o segundo filme, Ironman 2 e o vilão era Ivan Vanko, o Chicote Negro (não chamado por este nome). Era um vilão que queria apenas de vingar da família Stark, sem grandes anseios vilanescos. Quanto ao Justin Hammer, concorrente de Tony Stark no setor industrial bélico, ele mais parece estar lá como alívio cômico, e este é o problema dos filmes da Disvel: tem mais alívio cômico do que vilões. Há poucos vilões, vilões mesmo. Na desgraceira do filme do Thor tem o Loki, o Deus da Trapaça (ops, não é deus. Eles são aliens. Marvel sempre teve horror a trabalhar com divindades, sequer sabendo como lidar nos quadrinhos). Parece ruim, mas com o passar dos filmes ele mais parece outro alívio cômico, o que funcionou em Thor Ragnarok.

Thor Ragnarok, para aproveitar a bola levantada, é um excelente filme. Colorido, com ação. Algo digno do mestre Jack Kirby. Thor age como um verdadeiro Deus do Trovão e a vilã, Hella, é ruim, pérfida e mais que uma criatura vingativa. É o próprio espírito de luta, guerra, destruição. Ela não é como Vanko, que ao se vingar de Stark iria para casa. Hella é um poder fora de controle. O mal personificado. O Grandmaster de Thor é outro alívio cômico, porque a Disney morre se não colocar um alívio cômico. Mesmo Surthur sendo um alívio cômico no início é mais vilão.

No filme Cap. América: Primeiro Vingador, o vilão é o Caveira Vermelha, que é um nazista mais nazista que outros nazistas. Bem, não se pode falar muito, já que nazistas são os vilões perfeitos (se bem que o Caveira detesta Hitler, o que não significa muito, pois outros nazistas, como Rommel, também detestavam) e daí a coisa começa a degringolar, pois os vilões estão humanizados demais. O próprio Caveira Vermelha acaba nuns lances de auto-comiseração em Guerra Infinita, o que não combina com um personagem que era puro ódio por tudo e todos.

Thanos, o vilão filho da puta dos quadrinhos em busca do Poder para agradar a sua amada Morte, que foi a única que o abraçou, pois como ele nasceu feio, ninguém gostava dele, nem mesmo os próprios pais, acabou alguém tipo Greenpeace preocupado com o Universo.


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O Thanos do primeiro filme dos Vingadores parece um conquistador maléfico, ordenando suas tropas para o domínio, um conquistador de mundos. Aquele Thanos, que apareceu apenas na cena extra, parecia um ótimo vilão. O Thanos final é apenas um gigante que nem roxo era e preocupado com política ambiental, um Thanos Greenpeace.

Em Guerra Civil – um filme ruim de dar dó (só não é pior que o Pantera Negra), sendo apenas a cena da batalha no eroporto mais 2 horas de enche-linguiça – temos o Barão Zemo com a velha vingancinha já batida. Ele nem é “O” barão, e o filme tem tantos erros que talvez eu explore em outro artigo. Sendo assim, vamos para o maior vilão do MCU. Aquele sim, cruel, estrategista, dono de um plano digno de nota. O único verdadeiro vilão vilanesco, ruim, pérfido e inescrupulosamente satânico: Alexander Pierce.


Vilão dos bons!

Capitão América: Soldado Invernal é disparado o melhor filme do MCU (sim, estou levando em consideração Guerra Infinita e Ultimato). O enredo é bem construído, o vilão é vilanesco, mesmo naquele plano genérico de dominar o mundo, mas não é o resultado, e sim a substância, e foi este o problema do plano de Zemo. Vingancinha é um bom enredo? Até poderia ser se fosse bem construído. Não foi.

Pierce planeja, com o algoritmo de Zola, identificar quais os possíveis obstáculos e já prepara de antemão toda uma estratégia de contingência. É um plano a lá James Bond melhor que os planos dos vilões de James Bond, porque é uma trama madura e não apenas deixar toneladas de ouro radioativo para que seu valor de mercado suba. Toda construção do plano remonta numa trama arquitetada no fim da Segunda Guerra Mundial, criando eventos que leva o mundo ao caos, sem ser muito aparente, de forma que a HYDRA continue operando por debaixo dos panos. Pierce é apenas o líder que tocará o projeto final, mas sabendo que ele não será o último líder da HYDRA. Ele não é aquele vilão “ain, você me ofendeu, vô mi vingá!”. Isso é algo infantil, quando a meta do Pierce é mais elevada, o que não durou muito pois a luta e os sistemas de defesa/ataque em que o Stark meteu o bedelho virou argumento para o Acordo de Sokovia em Guerra Civil. De certa forma, o plano da HYDRA de neutralizar a SHIELD e os Vingadores deu certo, ninguém mais é confiável.

No filme do dr. Estranho, o vilão Kaecilius é aquele vilão que quer ficar rico, com poder e viver no prazer e hedonismo clássico para aqueles que veneram o Diabo. Diabo esse que não é bem o Diabo, é Dormammu ser místico (cof c of, demônio) que governa a Dimensão Negra, tão poderoso que cai no ardil do dr. Estranho que o trava com o poder do Olho de Agamotto, que na verdade é a Joia do Tempo. Faz um trato com o dr. Estranho e… respeita o trato? Mas POR QUE ele teria que respeitar um tratinho? Nem uma assinatura com sangue teve? (não pode ter sangue. É PG-13.) Até o Beelzeboss precisou de ter um documento escrito para fazer valer. Duas horas de filme e ele vence no cansaço?

Desculpem. GIF errado.

Ah, sim. É esse!

No filme da Capitã Marvel nós temos os Kree perseguindo os Skrulls. Isso me deu até um “ué”, já que os Skrulls eram um império marcial, beligerante, algo como os klingon, mas não me surpreendi com os Kree serem um bando de filhos da puta. E estão perseguindo porque… porque sim. Só que 90% do filme é Carol Danvers zanzando para lá e pra cá com Nick Fury. Ronan aparece como ponta, só faltando nos créditos “ator especialmente convidado”.

Os filmes da Disvel não se pautam em vilões, e os enredos nem são o ponto principal. A receita de produção é bem simples e singela, até. Não que não funcione, como os números da bilheteria arrecadada podem mostrar, mas fica algo no vácuo. você vê o filme e acha o máximo. Ao rever percebemos que falta algo, aquilo que exacerba as qualidades positivas do herói, que é exatamente o vilão. Mas, como falei, os filmes da Disvel não são filmes de super-herói.

A rigor, nem super-herois tem lá, como ainda falarei sobre isso.

Eu escrevi no subtítulo “mas nem deveria ser”. O motivo é que a Marvel tem excelentes vilões, como o próprio Thanos, o Dr. Destino e o Magneto (meu favorito). São vilões com uma meta maior que dominar o mundo, algo acima disso, um sonho louco de poder e grandeza, um sonho de igualdade até, mas por via tortuosas, como no caso do Magneto. Louco, sim, mas ainda de forma equilibrada e estratégica. Galactus não sei se classifico como vilão. Ele apenas segue a sua natureza e a natureza de qualquer ser vivo é se alimentar. Galactus não é muito diferente de um agricultor arando a terra com maquinário matando todo tipo de animal que estiver lá com o objetivo maior de produzir alimento. Não é diferente de alguém usando defensivo agrícola. Não é diferente de uma dona de casa metendo desinfetante no ralo. Galactus é o que é.


Perceberam a importância que eu dei aos vilões do Homem de Ferro III pela quantidade de vezes que eu mencionei, né?

3 comentários em “Analisando séries e filmes de super-heróis V

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