Toscas discussões idiotas proferidas por quem quer aparecer

Como sempre, a falta do que fazer leva as pessoas a criarem tretas no Twitter. E a de hoje é por que temos que ter aula de Literatura estudando Machado e Assis, quando crianças deveriam ler Harry Potter. Óbvio, esta ideia retardada não poderia vir de outro lugar se não do cu de um youtubeiro (cu é aquele negócio de onde sai merda, né?). O problema, mais uma vez, é não entender para que ser escola e muito menos aula de Literatura.

A aula de Literatura não é pra fazer a criança ler. Eu acho que isso devia partir dos pais. A aula de Literatura é uma abordagem de conceitos sociais. Entender o que acontecia em volta do autor para que ele escrevesse aquilo do jeito que ele escreveu. As minúcias do estilo, a formação dos personagens, o que a história significa. Senhora, de José de Alencar, é um livro dobre vingança, a vingança de uma mulher desprezada, que nas palavras do Bardo seria “hell hath no fury like a woman scorned”. Qual a importância disso? Para isso seria preciso entender o papel da mulher naquela época e como esse papel poderia ter uma guinada quando algo mais importante entrava em jogo: dinheiro.

Os livros de Lima Barreto são uma porrada. Clara Dos Anjos das Neves joga na cara do leitor (normalmente alguém de classe média/média-alta) a realidade da população mais pobre. Em O Homem que Falava Javanês ele desmascara os oportunistas, os enganadores, aqueles que alegam coisas sem ser e ganham status, riqueza e poder, subindo na sociedade às custas de mentiras, fazendo uso da proverbial graça na qual caíra de um ricaço.

Dom Casmurro é sobre um homem velho, amargo e sonhador revivendo o que lhe pareceu uma traição e até hoje acham que o ponto central da história é se Capitu meteu-lhe um par de chifres (meteu), mas o ponto é como isso o afastou de todos, brigou com a família e se tornou um solteirão ermitão que mal se relacionava com os outros, dando pouca importância a quem estava ao seu redor, como na cena do jovem poeta que estava lendo para ele seus poemas e ele dorme no bonde.

Harry Potter é um livro com aventura, mas fora aquele latim ridículo que a J. K. Rowling criou, a história é fraca em que o personagem principal não faz nada de nota. Ele sequer mata Voldermort. Hermione é quem praticamente faz tudo, mas acaba dando lugar para Harry porque ele tinha que ser o protagonista. A história não se sustenta se formos analisá-la, mas crianças não querem saber disso e eu acho que nem deveriam. Ainda assim, HP não é algo para uma aula de Literatura.

Reduzir aula de Literatura para fazer alunos lerem é uma estupidez, já que, atualmente, todas as disciplinas trabalham com habilidades e competências concernentes á leitura e escrita. Sendo assim, o aluno pode ler sobre Química com os Botões de Napoleão, aprender sobre Cosmologia com Breve História do Tempo, entender matemática lendo O Diabo dos Números e O Homem de Calculava. Há zilhões de livros voltados para ajudar no aprendizado de todas as disciplinas. Se deixarmos tudo a cargo do professor de Literatura, ele não conseguirá abordar o que realmente interessa de sua disciplina e o aluno não lerá nada a tempo.

Mas claro, vocês ao invés de lerem coisa que preste ficam lendo o que youtubeiro fala. Só podem ter a cultura ridícula, num patamar bem inferior ao do youtubeiro, que já não é lá essas coisas, e que pra mim é tão importante pelo número de vezes que eu citei o nome dele.

Quanto a mim, eu parto do princípio que boa parte do que se lê, acabam por esquecer. É preciso que muito se leia e alguma coisa se esqueça. O que sobrar, é cultura. Então leiam, leiam muito, leiam de tudo. É assim que eu ensino minha filha e meus alunos.

11 comentários em “Toscas discussões idiotas proferidas por quem quer aparecer

  1. ISSO. É isso. Obrigada, André.
    Eu lembro que quando eu tava fazendo cursinho eu organizava a parte literária dos meus estudos relacionando um período histórico a uma determinada escola literária. Eu acho Machado de Assis um porre (e nem por isso deixei de entregar a monografia sobre ele no sexto período da faculdade), mas a ironia contida em seus contos são um retrato preciso de como era a sociedade na segunda metade do século XIX. Há quem possa achar Casimiro de Abreu e Álvares de Azevedo mórbidos e “não adequados a adolescentes” (risos), mas é só relacionar a obra ao período histórico que fica até mais fácil de entender essa tal matéria de História que todo mundo odeia e depois passa vergonha ao vivo na internet.
    Mas eu acho que é pedir muito pra um floquinho de internet considerar a função da literatura no ensino porque, claro, é mais importante saber se Capitu traiu ou não. Aliás, teve uma vez que eu vi naquela rede social azul algo do tipo:

    – Você gosta de literatura?
    – Sim.
    – Traiu ou não?
    – O quê?
    – E ainda diz que gosta de literatura?

    Como a grandiosidade de uma narrativa bem construída por um dos melhores escritores que já passaram por esse planeta é ignorada porque só se resume a discutir se o protagonista foi corno ou não, eu nem faço questão de perder meu tempo discutindo livros no Twitter.

  2. Esse youtuber deve achar que curso de Literatura é igual Clube do Livro, pra escolher livros divertidos que conquistem o coração dos leitores.
    Quero ver só a merda que vai ser a “escola alternativa” que eles querem criar… ☺

  3. Excelente texto André
    Apesar de eu não fazer a mínima idéia de qual youtubeiro você esteja falando (sério, e nem me importa) temos uma visão em comum sobre “literatura” nas escolas. Acho que tive muita sorte de fazer uma escola publica onde os resumos/discussões dos livros que tinhamos de fazer sempre levavam a essas discussões sobre o contexto da época escrito e alguns conflitos do autor. Tive professoras maravilhosas e delas ganhei “O Homem que calculava”, “Nove Amanhãs” e “Os meninos da Rua Paulo”. Uma delas, ao me dar o livro falou: “Você é um dos poucos nesses anos que aproveita mais que a aventura”. Não entendi patavina na época e hoje sou imensamente grato à Dona Teresinha (professora da quarta série).

  4. Acho que existem dois extremos nessa discussão: os que não entendem pra que serve Literatura e querem colocar qualquer livrinho pros alunos lerem (depois de HP só falta recomendarem a Bíblia) e os que provavelmente não entendem pra que serve Literatura mas só querem pôr livros antigos aleatoriamente pra dizerem que estão dando aula de Literatura. Os extremos se atraem.

  5. Muito bom, André.
    Acerca do texto, apenas uma correção: a obra de Lima Barreto é “Clara dos Anjos”, não “das Neves”… No mais, concordo contigo.

  6. Pois é, por exemplo aquele Os Bruzundangas do Lima Barreto é basicamente um descrição da Primeira República. Lembro-me que depois que li minha compreensão do período foi algo totalmente novo, isso sem falar que o livro tem algumas partes sobre o Bruzundanga que são bem atemporais.

  7. My two cents. Eu aprendi como o coronelismo funciona em certas partes aqui do Brasil com o livro São Bernardo, do Graciliano Ramos. O afegão médio não vê que literatura esta intimamente ligada com história. E se o afegão for gado de youtubeiro aí que não vê mesmo.

    E sobre Harry Potter, eu lembro de uns textos do Cardoso mostrando como que a molecada que leu todos os livros do HP escrevia pior do que um Sobral.

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