O caçador africano que humilhou o filósofo grego


Soninho…

As migrações dos pássaros provavelmente foram um dos primeiros fenômenos naturais a atrair a atenção e despertar a imaginação do homem. As observações registradas sobre o assunto datam de quase 3.000 anos, indo lá para os tempos de Hesíodo, Homero, Heródoto, Aristóteles e outros. Aristóteles foi um dos primeiros a discutir o assunto da migração de pássaros. Ele notou que grous (pássaros que abrangem catorze espécies distribuídas pela América do Norte, Europa e Ásia, África e o norte da Austrália) viajavam das estepes da Cítia aos pântanos nas cabeceiras do Nilo, bem como pelicanos, gansos, cisnes, trilhos, pombas e muitos outros pássaros também passavam para regiões mais quentes para passar o inverno.

Nos primeiros anos da Era Cristã, Plínio, o Velho, naturalista romano, em sua “Historia Naturalis“, repetiu muito do que Aristóteles havia dito sobre a migração e acrescentou comentários próprios sobre os movimentos dos estorninhos, tordos e melros europeus. Quanto a Aristóteles, como não podia deixar de ser, falou as suas bobagens de sempre.

Segundo o tolo de Estagira, pássaros hibernam. Sabem os desenhos com o Zé Colmeia indo dormir por um looooooooongo tempo no inverno? Pois, é. Isso não acontece porque ursos não hibernam. Se ursos não hibernam, pássaros muito menos, mas essa crença permeou o imaginário por mais de 2 mil anos, ao ponto que o eminente ornitólogo Elliott Coues listou os títulos de nada menos que 182 artigos que tratavam da hibernação das andorinhas.


Sim, você foi enganado pelos desenhos.

Só no início do século XIX que a hibernação para o desaparecimento dos pássaros no inverno foi quase completamente abandonada. Muito pior, mesmo no século XX ainda havia aqueles que andorinhões de chaminé no outono. Estes pássaros têm este nome por construírem seus ninhos em estruturas verticais e nenhuma estrutura é tão vertical quanto paredes ou chaminés, sendo que a segunda oferece proteção pelos quatro lados.

Os fanboys do tosco de Estagira ainda mantiveram esta crença (sem nenhuma corroboração por meio de fatos) por muito tempo, sustentando que o desaparecimento de muitas espécies de pássaros no outono se explicava por sua passagem para um estado de entorpecimento, onde permaneciam durante a estação fria, escondidos em árvores ocas, cavernas ou na lama dos pântanos.

Sim. Lama… dos… pântanos. Lembremos que Aristóteles nunca foi um empirista. Ele achava que o que entendemos hoje por Método Científico era trabalho braçal e não intelectual, sendo, portanto, relegado a escravos. Muito disso devido ao seu mestre Platão, que dizia que bastava ficar refletindo no mundo das ideias. Nem Aristóteles nem seus seguidores foram num pântano para verificar se tinha algum pássaro lá no meio da lama tirando uma soneca.

Aristóteles não ficou só na hibernação das andorinhas, mas também das cegonhas, pombas e outras aves. Alguns dos primeiros naturalistas escreveram relatos fantásticos de bandos de andorinhas supostamente vistos se reunindo em pântanos até que seu peso acumulado afundava na água, já que os pássaros “se agarravam mutuamente” (não pergunte) e, assim, submergiam. Foi até registrado que, quando os pescadores nas águas do norte puxavam suas redes, às vezes havia uma “captura” mista de peixes e andorinhas hibernando.

Não, nenhum registro. Só relato de “fulano disse que viu” ou, melhor ainda, “fulano falou com um pescador que disse que aconteceu”; mas efetivamente ninguém fez um relato de primeira mão, nem fez um único registro documental. E ainda me dizem que Aristóteles é o Pai do Método Científico. Acho que deviam ter vergonha.

Olaus Magnus, arcebispo de Upsala, publicou, em 1555, a obra “Historia de Gentibus Septentrionalis et Natura” ou “História dos Povos do Norte”, na qual descreve como essas andorinhas capturadas eram levadas para uma sala quente, logo começaram a voar, mas viviam pouco tempo. Não, não é um relato primário. Foi, de novo, na base do “se me falaram, é verdade” (supondo que alguém efetivamente tenha falado a ele). Magnus ainda é famoso pela sua Carta Marina, na qual repete a história de patos nascendo de uma árvore. Aliás, isso pareceu ser uma verdade corrente, pois várias ilustrações em muitas obras apontam isso.

Mas calma! Se você acha que isso é demais, espere só saber que Aristóteles ainda foi o criador da teoria da transmutação, ou a mudança sazonal de uma espécie em outra. De acordo com o filósofo importantíssimo – que disse que mulheres tinham menos dentes que homens, tendo sido casado duas vezes – frequentemente, uma espécie chegava do norte da mesma forma que outra espécie partia para latitudes mais ao sul. A partir disso, ele concluiu que as duas espécies diferentes eram na verdade uma e presumiu que diferentes plumagens correspondiam às estações de verão e inverno. Em outras palavras, se um pelicano fosse embora e depois voltava uma pomba, CLARO, tratava-se da mesma ave. Como assim seriam aves diferentes indo e voltando? Claro que só podia ser uma única, ora bolas!

Se você acha que já está demais, pense que alguém foi mais além ainda, no que seria a teoria mais notável, para não dizer “bizarra” ou mesmo “completamente insana” apresentada num ensaio do cientista inglês Charles Morton, que escreveu um tratado surpreendentemente bem fundamentado, embora obviamente totalmente impreciso.

Este ensaio foi publicado em 1703 com o nome “An Essay Toward The Probable Solution of this Question: Whence come the Stork and the Turtledove, the Crane, and the Swallow, when they Know and Observe the Appointed Time of their Coming Or Where Those Birds Do Probably Make Their Recess And Abobe, Which” (Um ensaio para a solução provável desta questão…” e eu fiquei com preguiça de traduzir o título todo). Tem na Amazon.

Neste trabalho, Morton, que tinha uma excelente imaginação, afirmava com todas as letras que os pássaros migratórios voavam para a Lua no inverno, ficavam fazendo sei lá o quê (e nem Morton conseguiu imaginar isso) e depois voltavam. Tipo, faz sentido, não?

Alguns ainda alegaram que pássaros maiores, como cegonhas e pelicanos, serviam de Uber Voador para aves menores, em que estas últimas pegavam uma caroninha marota com aves maiores. Sim, eu sei que soa insano, mas o que você leu até agora aqui que não soa? Quem ajudou a responder isso foi algum caçador subsaariano que estava tratando de arrumar o seu jantar.

Em 1822, numa região fora da vila de Klütz, na costa do Báltico onde hoje é a Alemanha, uma cegonha-branca foi encontrada. Ok, não era algo muito inusitado. O inusitado era o que ela estava carregando, e não era um bebê. Era uma lança de meio metro enfiada nela.

Alguns não acreditaram no que aquilo significava e mandaram analisar. Após a inspeção, descobriu-se que a lança era feita de madeira africana, o que levou à conclusão inevitável de que, apesar dos ferimentos, a cegonha havia conseguido voar mais de 4.000 quilômetros do continente africano, de onde havia migrado.

Os alemães, sendo alemães, chamaram a cegonha de “Pfeilstorch” ou “Cegonha-flecha” e já me surpreende que não foi algo como Cegonha-que-foi-acertada-por-uma-flecha-e-explicou-mais-sobre-migrações”. A dona cegonha até achou o máximo ter sobrevivido a uma lança atirada (por sinal, que pontaria o caçador tinha!) mas acabou sendo morta, empalhada e colocada em exibição, e até hoje pode ser vista na Coleção Zoológica da Universidade de Rostock.

Caçador Africano Analfabeto 1 x 0 Filósofo Pedante

10 comentários em “O caçador africano que humilhou o filósofo grego

  1. Informações e material muito interessantes. Mas o autor do texto demonstra grande ignorância sobre a importância do pensamento de Aristóteles e erros muito grosseiros sobre o pensamento de Platão ( dignos de quem repete por ouvir falar)…. Faz pensar q o autor nunca leu de fato ou com boa vontade o autores de trata com grande desrespeito. … Ou então usa o desrespeito e qualificações pejorativas como estratégia de escrita. É um estilo que eu não gosto, mas tudo bem, cada um dá o que tem.

    1. 1) Platão defendia escravatura. Mesmo porque, quem não fosse grego, era ser inferior.

      2) Platão tirou DO CU uma tal de Atlântida

      3) Platão era contra qualquer tipo de experimentação, pois tarefas manuais eram coisas de escravos. A filosofia perfeita era a busca do conhecimento pelo mundo das ideias.

      4) Platão era um mimadinho rico da aristocracia e defendia que apenas a aristocracia deveria conduzir sua sociedade

      É um fato. Qualquer historiador de ciência afirma e comprova: Platão e Aristóteles foram responsáveis pelo atraso científico em, pelo menos, 500 anos. Sem eles, já teríamos colonizado Marte. Não gostou, volta pro DCE e pros encontros com pessoal da Filosofia que defende que próteses são eugenia. Mas devo notar: não tenho nada contra o pessoal da Filosofia. Eu sempre agradeço quando eles me entregam meu Big Mac

      1. Cara, tu é tosco e triste! Você é um polemista, divulga informações interessantes, mas sua postura é muito infantil. Filósofo entregar Big Mac… em que mundo tu vive, meu amigo?! Acho que algum filósofo deve ter pegado uma namorada sua e você fica nessa aí… Você seria muito inteligente se não fosse tão estúpido e arrogante. Abraços!!

        1. O filosofeiro voltou HAHHAHAHAHAHAHA

          Não, cara. Filósofo nenhum pegou minha mulher. Eles ficam no mundo das ideias. :D

          Agora não esquece o picles como da outra vez, ok?

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