A vida escondida na escuridão tóxica do rio Tinto

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Astrobiologia é um ramo interessante da Ciência. Ela se baseia em algo que não se sabe se existe. De qualquer forma, é preciso prever as condições que possa existir vida e como poderemos procurar por ela. Na falta de mandar um estagiário para outro planeta pra coletar amostras de solo e catar algum lugar que tenha água para pegar alguns mililitros, a solução é procurar aqui mesmo. Isso porque sempre se prefere um estagiário que more perto, senão o vale-transporte fica muito caro, e estagiário não vale isso.

Alguns lugares na Terra são ótimos para e procurar vida (exceto áreas de comentários em site de notícias. Há discussões se há seres viventes ali). Um desses lugares é o rio Tinto, que fica na província de Huelva, nascendo nas montanhas de Sierra Morena na Andaluzia, com cerca de 100 km de extensão.

O rio tinto é muito interessante. Já começa que ele tem esse nome por causa da sua coloração avermelhada ou fortemente alaranjada, dependendo do trecho do rio. Essa coloração é devida à quantidade de íons Fe+3 (além de outros metais pesados) nas águas. O rio corre pela chamada Faixa Piritosa Ibérica, uma área cujas rochas são ricas em ferro e enxofre (pirita é o sulfeto de ferro, FeS), mas desde muitos milhares de anos aquela região foi explorada por mineradores que extraiam prata, ouro e cobre, desde os tempos do Império Romano. Ele foi largado pra lá por alguns séculos, até que em 1556, começaram a garimpar de novo por lá. o governo espanhol assumiu a exploração dos metais no século XVIII e isso acabou sendo o responsável pela coloração do rio hoje

Por causa da exploração sem nenhum critério (embora não se possa esperar muito critério no século XVIII), as águas do rio acabaram com um teor de acidez absurdamente elevado, com pH igual a 1, e acredite: isso é ácido bagarai. Em 1873, a Rio Tinto Company foi formada para operar as minas; até o final do século XX, mas hoje a mineração fica por conta da empresa EMED Mining.

Algun argumentam que não há certeza se a acidez elevadíssima vem por meios naturais ou por caca que as empresas de mineração fizeram, e nem é o interesse primário da pesquisa que estou para relatar. O que é realmente importante (para a pesquisa que eu estou relatando, mas tive que fazer um preâmbulo), é que mesmo naquela acidez mais alta que a do meu estômago quando olho os meus boletos, além da alta quantidade de metais tóxicos dissolvidos lá, existe vida em quantidades exuberantes. São bactérias, algas e heterótrofos. Seres eucariontes e bactérias quimiolitotróficas e… cianobactérias.

Cianobactérias, também chamadas de “algas azuis” (que não são algas e nem são propriamente azuis), são os principais seres vivos que nos ajudam a respirar, já que grande parte do oxigênio que tanto adoramos vem deles. Não, a Amazônia não é o pulmão do mundo. Os mares é que são e sua imensa quantidade de algas azuis despejando diariamente toneladas de oxigênio na atmosfera.

Obviamente, para poderem fazer fotossíntese, as cianobactérias precisam de alguma fonte luminosa (pode ser o Sol). Agora a porca torce o rabo, porque os pesquisadores do Centro de Astrobiologia descobriram que essas danadinhas também sobrevivem a mais de 600 metros de profundidade no subsolo do rio Tinto (Huelva). Esse estilo de vida subterrâneo, que pode ser rastreado até seus ancestrais não-fotossintéticos, oferece pistas sobre como seria o modus vivendi (gostou do latim?) de organismos semelhantes (ou quase) em ambientes atuais ou primitivos em outros planetas.

Aqui uma reportagem de 2015:

O dr. Fernando Puente Sanchez é biólogo e pesquisador do Centro Nacional de Biotecnologia da Espanha. Tudo o que ei sobre ele está na sua página institucional dentro do site da instituição institucionalizada. Sanchez e seus colaboradores detectaram pela primeira vez a presença de cianobactérias em amostras de rocha profunda no leito do rio Tinto, a 600 metros abaixo da superfície da Faixa Piritosa Ibérica. Isso é uma evidência molecular, biológica e microscópica que se algo nasce ali, mesmo sendo um organismo fotossintetizante, é sinal que vida pode existir em lugares bem mais extremos. Marte, por exemplo? É um belo pensamento. Pode ser em outro planeta, também. Não se sabe.

As amostras foram obtidas com duas perfurações do projeto IPBSL (Vida Subterrânea na Faixa Piritosa Ibérica), realizadas entre 2010 e 2015 com o objetivo de caracterizar a geomicrobiologia dos ecossistemas profundos desta área. Antes que você pergunte: eles queriam saber dos seres vivos que estavam orando entre os pedregulhos do solo submerso do rio Tinto.

Ao analisar os genes das cianobactérias encontradas, Sanchez percebeu de onde ela tirava sua energia: hidrogênio. Cianobactérias têm esta capacidade, pois apesar de adorarem luz do sol para fazerem sua fotossintesezinha, sol de mais não é legal. Assim, elas migram para lugares com menor incidência de luz, ou até mesmo na total escuridão. De lá utilizam hidrogênio para produção de energia revelou seu potencial para utilizar hidrogênio como fonte de energia em ambientes de baixíssima concentração de oxigênio (oxigênio também é um veneno pra elas), seguindo um estilo de vida que remete aos seus ancestrais não-fotossintetizantes.

A pesquisa foi publicada na PNAS (aberta para leitura) e é uma boa forma de entendermos, senão como poderia haver vida em outros planetas, mas como entender nossos amiguinhos que compartilham este planeta conosco.

Estou falando das cianobactérias, não seres inferiores como comentaristas de portais de notícia.

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Sobre André Carvalho

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