Por que a Internet não é um Nirvana

Calibrando os espelhos do Telescópio James Webb
O problema da complacência

Depois de duas décadas on-line, estou perplexo. Não é que eu não tive um bom tempo na internet. Conheci grandes pessoas e até peguei um hacker ou dois. Mas hoje, estou desconfortável com essa comunidade mais moderna e supervalorizada. Os visionários veem um futuro de trabalhadores fazendo home office, bibliotecas interativas e salas de aula multimídia. Eles falam de reuniões eletrônicas de cidades e comunidades virtuais. Comércio e negócios mudarão de escritórios e shoppings para redes e modems. E a liberdade das redes digitais tornará o governo mais democrático.

Besteira. Os nossos especialistas em computadores não simancol? A verdade é que nenhuma base de dados on-line irá substituir o seu jornal diário, nenhum CD-ROM pode substituir um professor competente e nenhuma rede informática irá mudar a forma como o governo funciona.

Este início é bem apropriado para hoje em dia, mas foi escrito Há 22 anos, por Clifford Stoll, um astrofísico e chefe do setor de Informática do Lawrence Berkeley National Laboratory. Ele escreveu um artigo para a Newsweek chamado Why The Web Won’t Be Nirvana (Porque a Web Não será um Nirvana) em 26 de fevereiro de 1995. Alguns gostam de apontar jocosamente o quanto ele estaria errado, mas a verdade é não é bem assim. Talvez, só eu tenha lido totalmente o artigo e, talvez, só eu concorde com o que foi escrito. Claramente apontarei que não é com a integralidade do artigo, mas não posso deixar de apontar o quanto Stoll percebeu o que estava acontecendo e que, infelizmente, pouco ali mudou.

Examinando os mais de 20 anos que eu estou na Internet, não tenho como ignorar a veracidade de tudo o que foi apontado no texto. Vamos dar uma olhada e eu garanto que você não terá como discordar, a menos que você realmente seja daqueles que vivem num mundo paralelo.

Considere o mundo online de hoje. O Usenet, um quadro de avisos mundial, permite que alguém publique mensagens em todo o país. Sua palavra sai, editando os editores. Toda voz pode ser ouvida de forma econômica e instantânea. O resultado? Toda a voz é ouvida. A cacofonia se assemelha mais à banda de rádio amador, completa com ameaças e ameaças anônimas. Quando a maioria de todos grita, poucos ouvem. Como é a publicação eletrônica? Tente ler um livro no disco. Na melhor das hipóteses, é uma tarefa desagradável: o brilho míope de um computador fraco substitui as páginas amigáveis de um livro. E você não pode levar o laptop para a praia. No entanto, Nicholas Negroponte, diretor do MIT Media Lab, prevê que em breve compraremos livros e jornais diretamente na Internet. Uh, com certeza.

Não é que ele esteja errado. Apenas estava falando de uma realidade de sua época. Dos BBS mudamos para os blogs. Dos blogs para o Tumblr e Facebook. Deles para os canais no YouTube. Entretanto, se formos analisar a maçaroca do que é produzido, com canais engraçadalhos ou de divulgação científica, de pegadinha, de gente contando suas neuras que a ninguém interessa, de maquiagem, de tosqueiras de Terra Plana ou criacionismo, entre muitos e muitos outros terremotos de informação e desinformação, você tem certeza que ele está errado ao dizer que estamos numa cacofonia insana que quem faz mais ruído terá maior chance de ser ouvido.

Ele meio que desdenhou do Negroponte por ter dito que compraremos livros e jornais diretamente da Internet. Bem, é verdade isso. A Amazon veio com um modelo de negócios matador e apresentou o Kindle, seu leitor de e-books. Sim, pode-se ler livros diretamente nele porque ler na tela de um notebook é uma bosta. Stoll errou, mas não muito.

O que os vendedores da Internet não lhe dizem é que a Internet é um grande oceano de dados não editados, sem qualquer pretexto de completude. Faltando editores, críticos ou críticos de editores, a Internet tornou-se um país perdido de dados não filtrados. Você não sabe o que ignorar e o que vale a pena ler.

Alguém vai dizer que não?

Conectado à Internet, eu busco a data da Batalha de Trafalgar. Centenas de arquivos aparecem, e leva 15 minutos para desvendá-los – um trabalho escrito por um aluno do oitavo ano, a segunda é um jogo de computador que não funciona e o terceiro é uma imagem de um monumento de Londres. Nenhuma responde a minha pergunta, e minha busca é periodicamente interrompida por mensagens como, “Muitas conexões, tente novamente mais tarde”.

Também não é mentira, nem exagero, nem coisa datada. Continuamos num festival de besteiras de todos os tipos. Busque fosfoetanolamina e vemos o bando de malucos mostrando os depoimentos de curas. Homeopatia, Reiki etc. É preciso um bom trabalho para peneirar tudo e se você não sabe exatamente como e onde procurar, está lascado.

A internet não será útil para governar? Os viciados na internet clamam pelos relatórios do governo. Mas quando Andy Spano correu para o executivo do condado em Westchester County, N.Y., ele colocou todos os comunicados de imprensa e colocou o papel em um quadro de avisos. Naquele país afluente, com muitas empresas de informática, quantos eleitores iniciaram sessão? Menos de 30. Não é um bom presságio.

Quando foi a última vez que vocês resolveram esmiuçar o Portal transparência?

Depois, há aqueles que empurram computadores para as escolas. Dizemos que a multimídia tornará o trabalho escolar fácil e divertido. Os alunos aprenderão felizmente com personagens animados, ensinados por softwares especializados. Quem precisa de professores quando você obtém educação assistida por computador? Bah. Esses brinquedos caros são difíceis de usar nas salas de aula e exigem treinamento extensivo de professores. Claro, as crianças adoram os videogames – mas pensem em sua própria experiência: você pode se lembrar de uma filmografia educacional de décadas passadas? Aposto que você lembre dos dois ou três grandes professores que fizeram a diferença em sua vida.

Fato! Querem uso maciço de computadores. Não há treinamento nas ferramentas, que muitas vezes são mais para enfeite e vender o colégio do que efetivamente para Educação. Querem usar vídeos no YouTube? Ótimo. Então, se eu pegar um vídeo qualquer e fizer um questionário sobre o que foi abordado lá, os alunos tirarão, no mínimo, 8. Certo? Eu vi isso nas últimas Feiras de Ciência que eu tenho visitado. Mal souberam replicar o experimento, mas na hora de perguntar “POR QUE funciona? Detalhe os princípios científicos por detrás disso”, a resposta era uma grande interrogação na cabeça do aluno. Eles aprenderam? Não. O YouTube cumpriu o suposto papel educacional? Não.

Depois, há cibersegurança. Nos prometeu compras instantâneas de catálogo, basta apontar e clicar para grandes negócios. Pediremos passagens aéreas na rede, oferecemos reservas de restaurantes e negociamos contratos de venda. As lojas se tornarão obsoletas. Então, como é que o meu shopping local faz mais negócios numa tarde do que toda a internet em um mês?

Olha, em muitos casos, a melhor logística é comprar na loja, mesmo. Quem nunca ficou com encomenda presa nos correios, atire a primeira pedra. Claro, livrarias de bairro estão acabando por causa, não dos negócios online, mas por causa das MegaStores. Sim, fica mais fácil comprar várias coisas pelo Mercado Livre, simplesmente porque muitas dessas coisas enfrentam burocracia para venda normal. As lojas como Walmart, por exemplo, apenas são uma extensão das lojas físicas, que efetivamente não acabaram.

Sim, o e-commerce melhorou e muito desde os tempos do Stoll, mas ele não está de todo errado em sua proposição de 1995.

Mesmo que houvesse uma maneira confiável de enviar dinheiro pela Internet – o que não existe – a rede está faltando um ingrediente essencial do capitalismo: vendedores.

Ok. Ele errou feio nessa. Se bem que lá fora não tem os TED como tem aqui no Brasil. Sim, nosso sistema bancário é um dos melhores do mundo, o que facilita muito fazer negócios… mas só quando o governo não resolve fazer de tudo para atrapalhar, naquilo que eu chamo de Braso-capitalismo.

O que está faltando neste país das maravilhas eletrônico? Contato humano. Desconto o techno-burble adulador sobre comunidades virtuais. Computadores e redes nos isolam um do outro. Uma linha de bate-papo em rede é um substituto fraco para se encontrar amigos com o café. Nenhuma exibição multimídia interativa se aproxima da emoção de um show ao vivo.

Prefiro ver pela Internet. Não estou a fim de ficar num show com gente me apertando ou de braço levantado segurando celulares me impedindo de ver. Se eles mesmos não querem ver em prol de filmar, azar o deles. No mais, até que a Internet tem ajudado muito a fazer amigos.

E quem preferiria o cibersexo ao real?

Não vou comentar algo que daria uma tese de doutorado.

Enquanto a Internet acena com vivacidade, seduzindo um ícone do conhecimento-como-poder, esse não-lugar nos atrai para render nosso tempo na terra. Um substituto pobre é essa realidade virtual, onde a frustração é legião e onde – nos santos nomes da Educação e do Progresso – os aspectos importantes das interações humanas são incansavelmente desvalorizados.

Não sei quem poderá discordar disso.

A Internet mudou muito como aprendemos, como nos entretemos, como fazemos compras. Não é de todo má. Mas nem foi esse o ponto de Stoll. Ele quis demonstrar como a Internet não estava sanando certos problemas, além de criar outros, e o que ele colocou no texto, com algumas falhas e reservas, é pura acepção do que vemos hoje. Mas a simples leitura que “A Internet não será o Nirvana” está sendo interpretado como “Internet é uma Bosta. Fuja dela”, o que é bem diferente, e ao ponto que ele abordou, posso simplesmente dizer que hoje a Internet não é um Nirvana e não será tão cedo, pois ela é penas uma extensão do que o ser-humano tem a dar. Seja de melhor ou pior.

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O problema da complacência

Sobre André Carvalho

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