Professor é educador, dizem os mal-educados

As pessoas, de uma maneira geral, têm dificuldades de entender muitas coisas. Isso até não é problema nenhum, posto que eu mesmo não entendo de várias coisas. A diferença é que eu sempre que tenho dúvidas, procuro por um especialista da área para elucidar as minha dúvidas. Se eu tenho dúvidas sobre as vicissitudes da prática médica, eu pergunto a um médico. Se eu quero saber mais sobre o ofício de arquitetos, procuro um profissional da área e por aí vai. Mas o brasileiro médio tem a mania que querer dar palpite em tudo, querer saber mais que os profissionais, os quais são taxados de arrogantes e de querem se posarem como autoridade no assunto. Bem, se são formados na área e atuam na profissão, sim, eles são autoridades no assunto. A falácia de apelo à autoridade é quando se evoca uma personalidade para sustentar o seu ponto, independente se esse ponto é área de expertise da figura mencionada ou não.

Um dos ofícios que mais gente dá palpite e menos entende é o de professor. Ainda estão com uma ideia tirada da bunda que professor tem que ser educador, formar jovens, iluminar mentes, brilhar na passarela, fazer maquiagem de modelo, curar o câncer e livrar o mundo das cáries. E ainda tem o velho lenga-lenga que professor trabalha por sacerdócio.

Durante uma passeata ontem, um bando de energúmenos ficou chocado com uma foto. Uma moça com um cartazinho feito à mão escrito “ESCOLA SEM PARTIDO JÁ” e na outra mão uma folha escrita “PROFESSOR NÃO É EDUCADOR”. Como assim? Professor tem que ser educador, certo? Ou não?

As toupeiras não sabem, porque são ignorantes e não prestam atenção, já que são desatentas ainda por cima, que a folha não é uma folha, mas um livro. O livro “PROFESSOR NÃO É EDUCADOR” é de Armindo Moreira, ex-professor e mestre em Filosofia pela Universidade Pontifícia de Salamanca e professor aposentado pela Universidade Estadual do Oeste (Unioeste). Ele chapa logo na cara que temos que parar com essa frescura babaca que professor é educador. Não é. Ok, ele não usou esses termos, mas eu gosto logo de traduzir as coisas. Recomendo esta entrevista com ele.

Já começa que o livro do Armindo não é muito bem visto. Por quê? Por que ele surra Paulo Freire com um taco de baseball. Além disso, ele é categórico com a besteira sobre a função de educador. Que função é essa? Vejamos o dicionário

e·du·ca·ção
(latim educatio, -onis)
substantivo feminino

1. Conjunto de normas pedagógicas tendentes ao desenvolvimento geral do corpo e do espírito.
2. Conhecimento e prática dos usos considerados corretos socialmente. = CIVILIDADE, CORTESIA, POLIDEZ

e·du·car
verbo transitivo

1. Dar educação a.

2. Criar e adestrar (animais).

3. Cultivar (plantas).

verbo pronominal

4. Adquirir os dotes físicos, morais e intelectuais que dá a educação.

Nenhum professor é obrigado a educar o seu filho. VOCÊ, seu inútil, é que é. Se você não queria ter o trabalho de educar um filho, usasse camisinha, tomasse anticoncepcional, fizesse vasectomia, não transasse… Sei lá. Na hora de revirar os olhinhos você gostou, né? Pois, é. De acordo com o Armindo, “a educação consiste em criar hábitos e sentimentos, papel que cabe à família, à sociedade e à igreja. A instrução é a aquisição de conhecimento que facilita ganhar o pão de cada dia. A diferença é tão grande que há pessoas que não têm nenhuma instrução, mas uma esmerada educação. E, outras, muito bem instruídas, porém muito mal-educadas”.

Pô, mas igreja?

Sim, igreja. É um grupo social como outro qualquer. Você não gosta, mas você não manda nos outros, aceite que dói menos. Mas vamos falar sobre ser professor. Entendo um pouquinho disso pois há ANOS (ok, já estou na base da décadas), eu trabalho com educação infantil até ensino médio, tendo sido professor universitário, o tipo de ciosa que não quero mais nem a porrada.

O MEC exige um currículo mínimo, com uma carga de 200 dias letivos. Pegue 365 dias, subtraia 1 mês de férias. Do restante, desconte 15 dias do recesso do meio do ano. Desconte todos os sábados e domingos. Desconte os feriados que caem em dia de semana. Desconte eventos como este ano tem olimpíadas e a prefeitura do Rio determinou feriado, ou seja, 15 dias + 1 semana. Desconte as semanas de provas, já que, né?, você está aplicando prova e se está aplicando prova não pode dar aula nesse dia por motivos óbvios. Mas prova é dia letivo, então não pode ser descontado. Ok, mas você continua NÃO DANDO AULA. Pense nisso.

Agora, bando de cornos, no que sobrou, tente cumprir todo o programa estipulado, corrigir dever, trabalhos, testes e provas, preparar relatório, participar de reunião etc. Foi-se o tempo que as reuniões e conselhos de classe era na hora da aula, em que os alunos ficavam em casa, dando graças a Deus por isso. Na sala-de-aula, repetindo, você tem que ensinar o programa estabelecido, fazer chamada, mandar os alunos ficarem quietos, corrigir os exercícios, mandar de novo calarem a boca, verificar quem não fez o trabalho, corrigir as questões da prova, dar revisão do que vai cair na prova, atender pais (muitos colégios marcam ara os pais irem DURANTE a hora da aula, que é quando efetivamente o professor está lá), parar porque a coordenadora entrou para dar algum recado inócuo, que poderia ser deixado para o final, impedir que o Juquinha bata no Francisquinho e educar todo mundo para que eles sejam pessoas boas, corretas etc.

Isso num colégio particular, com média de 30 alunos por sala. Pensem num colégio público com média de 60 alunos por sala (já tive 90!), com péssimas condições de trabalho (como uma cadeira em que você possa sentar), alunos entrando emaconhados, enquanto outros vendem a maconha para esses doidões, pai vindo te ameaçar de morte, porque nota baixa é uma ameaça dele perder o Bolsa Família, mãe vindo te ameaçar, co’azamiga, sofrer agressões verbais e físicas por parte de alunos e pais, e assédio moral de diretor e coordenador (não no caso de colégio estadual do Rio, que não tem cargo de coordenador).

Ainda há uma ideia idílica que professor é um maestro, um capitão de navio. Vocês fazem ideia de como capitães tratavam os marinheiros? Vão vendo! Não, professor não tem que trabalhar por sacerdócio. Padre não é padre 24h/dia, igrejas não fazem especial de madrugada e na hora de marcar uma missa, batizado e/ou casamento, lhe cobram caro pra cacete. Nem sacerdote trabalha por sacerdócio, então que porra de frescura é essa “nhé, professor tem que ser educador!”

PORRA NENHUMA!

Querem que eu eduque seu filho? Ok, vamos no regime dos preceptores, como Aristóteles, preceptor de Alexandre da Macedônia. Claro, vocês terão que me pagar um salário digno que Felipe II pagava ao Aristóteles, já que aquele puto – além de não saber nada de anatomia feminina por achar que mulheres tinham menos dente que homens – cobrava bem caro e, por isso, sempre puxou o saco dos príncipes.

Pensem na logística da coisa. Papai e mamãe do Cleverson Carlos e da Thuyanne Hemengarda não conseguem dar conta dos seus filhos, que são só dois e gozam de autoridade de pais (sim, eu sei que eles não têm). Se eles não conseguem dar boa educação pros seus filhos, professor com 17 turmas e 40 (digamos só 40), totalizando 680 alunos (e assumindo que ele seja solteiro, sem filhos e nem um cachorro, já que ração anda muito caro), é que conseguirá?

BOA SORTE!!!!!!!!!

Claro, vem a gentinha “mas eu sou professor e concordo” ou “como pode alguém usando o perfil com nome Ceticismo fala uma coisa dessas”. Normalmente, estes idiotas não dão aula. Se dão, não ficam preparando os jovens no constructo sociológico de uma população educada, gentil, cavalheiresca e consciente da ética e bons modos. Sem falar que acham, nas suas diarreias mentais, que “Ceticismo” é sinônimo de “você tem que concordar com a MINHA opinião ou não é cético escocês”.

São a gentinha que acha que pagam colégio para o professor dar conta de tudo, porque são um fracasso como pessoas, pais e funcionários, pois não conseguem, em suas mentes tacanhas, asininas e pusilânimes entender que professor é um profissional de ENSINO. Se não sabem o que isso significa, procurem um professor.

Nem que seja para ensinar a interpretar textos de dicionários. Estão precisando.

4 comentários em “Professor é educador, dizem os mal-educados

  1. “É melhor tirar nota alta se quiser manter o couro da bunda no lugar”
    “Ai de ti se eu souber que tu arranjou confusão na escola”
    “Não tô me matando no trabalho pra criar vagabundo, entendeu?”
    Sempre que leio estas matérias sobre educação do André, fico com saudade destas frases da minha mãe, uma senhora educadora, apesar de não ter nem a quarta série completa…….

  2. Acho engraçado fazem pregação contra o ensino ”acumulador, educação bancaria e blá blá blá” quando nem isso conseguem fazer, quiça fazer a tal educação ”multipolarizada formadora completa do ser humano”. Me pergunto se nem a ”ruim” conseguem fazer como falam tanto em congressos, livros e ”debates” onde todos concordam com todos, como diabo imaginam que vão ”revolucionar a educação”?

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