Alagoas vota projeto de lei da Escola Livre. Mas isso é liberdade?

Não vamos tampar Sol com peneira. Ok, eu sempre estou a ponto de defender professores, mas também tem aqueles que fazem besteiras, ainda mais quando estamos no campo das Humanas. Não que seja um problema por serem de Humanas; o motivo vocês entenderão mais para frente. Vemos, contudo, verdadeiros palanques em que professores acabam externando um pouco demais sua visão do mundo, seja em termos de política, religião e demais temas polêmicos. Surgiu assim um projeto-de-lei em Alagoas visando o conceito de Escola Livre, em que os professores não poderiam externar nenhum viés particular, criando assim a Escola Livre, de forma a manter a neutralidade da escola, impedindo professores de doutrinar e induzir alunos em assuntos políticos, religiosos e ideológicos.

Conseguiram divisar o tamanho do problema?

O projeto que obriga os professores a manter “neutralidade” em sala de aula é de autoria do deputado Ricardo Nezinho, e foi aprovada em fins do ano passado. O prefeito vetou a lei e hoje voltou para a Assembleia Legislativa, a qual decidirá se o projeto realmente vai ter efeito de lei ou não.

A mim, isso não diz nada. Não há ideologia em ensinar os 4 números quânticos, nomenclatura de cadeias carbônicas e tipos de reações químicas. Professores de Física estão tranquilaços e os de Matemáticas não estão nem aí, também.

Agora vejamos os coitados das Humanas. O pessoal de História vai ensinar sobre o que aconteceu durante o período da Ditadura Militar, falando sobre torturas, guerrilha no Araguaia e como a América Latina, durante os anos de chumbo, não era um lugar tranquilo para se viver, além do atraso tecnológico e desgraceira sócio-econômica. Então, papai milico, fã do Bolsonaro, irá na coordenação reclamar que o professor é um marxista doutrinando a turma.

Não tá bom? Bem, esse professor tomará um esporro, claro. Colégio precisa agradar aos clientes e professor é um número na folha de despesa, vindo depois do papel higiênico, porque a lista é em ordem alfabética.

Então, professorzão começa a ensinar sobre Queda do Comunismo, e como pessoas desapareciam sem deixar vestígios, e como revoltas populares pela abertura e os planos de abertura de Gorbatchov acabaram com a União Soviética.

Papai petista corre pro colégio e reclama que professor é coxinha golpista e eleitor do Aécio, além de estar na folha de pagamento da Rede Globo. Se bobear, cospe no professor que nem uma llama.

Professor de História desiste e vai vender miçangas na calçada. A PM chega, “planta” um baseado nele, baixa a porrada e leva a féria do dia.

Sim, tem muito professor idiota que fala merda, mas escola existe para vários pontos e opiniões, não? Nós somos fruto de nossas vivências e opiniões. Difícil não externar indignação quando eu falar de abastecimento de água a pouca vergonha que aconteceu em São Paulo ou a tragédia de Mariana. Complicado eu falar sobre vacinação e não mencionar irresponsáveis que propagam que vacinas causam autismo e que remédios são coisa da indústria farmacêutica malvada, bastando eu tomar homeopáticos e chazinhos.

Se querem algo árido e apenas com informações, deem um tablet pros alunos e mande-os acessar wikipédia. E mesmo assim, ainda teremos pontos de vista que poderiam ser considerados doutrinários.

Claro, existem professores toscos criacionistas, seguidores de linhas partidárias etc. Tudo pode e deve ser questionado, mesmo os professores, mas por causa de uma barata no banheiro você atear fogo na casa toda não é a coisa mais inteligente a fazer, salvo se for uma aranha e estiver na Austrália, mas disperso-me.

A Igreja Católica gostou do projeto e faço uma ideia do motivo: doutrinação evangélica. Afinal, católicos não são pentelhos como pessoal neo-pentecostal. Entretanto, ICAR esqueceu que a lei incluiria os colégios católicos TAMBÉM. Afinal, hora de oração não é doutrinar os alunos? Ah, mas com certeza eles continuarão com isso, certo?

A lei (que você poderá ler AQUI) é contraditória. Ela fala de liberdade de ideias, direito à crença, pluralismo de ideias, mas veta o professor de ter isso. Afinal, por que professor teria direitos como os demais? Veta que se incite os alunos a participar de manifestações, atos públicos ou passeatas, o que implica que o professor não poderá dizer que eles têm direitos para fazer isso se quiserem.

E como toda boa ditadura disfarçada, começa com uma lei redigida por representantes escolhidos pelo povo; e isso acontece desde os tempos de Caio Júlio César.

Mas eu não me importei, porque não era de Humanas. E quando me cercearam por falar contra Criacionismo, não havia ninguém para me defender.


Fonte: G1


ATUALIZAÇÃO

Projeto aprovado. Os deputoscos, cientes da vontade da população e dos profissionais de ensino, fizeram oque fazerem de melhor: cagaram e andaram, derrubando o veto do prefeito, que agora tem 48 horas para promulgar a lei.

Obrigado ao Ronaldo pela informação e aos distintos deputados por essa cagada.

25 comentários em “Alagoas vota projeto de lei da Escola Livre. Mas isso é liberdade?

  1. É uma situação complexa, aqui em minha cidade por exemplo, todos os colégios particulares seguem alguma corrente cristã. Sem ter para onde fugir, acabei matriculando meu filho na rede Salesiano (católica). O problema é, que mesmo no ensino infantil, a doutrinação é muito agressiva, eles obrigam as crianças a rezarem e cantarem na ora da “acolhida”, contam estorinhas da bíblia o tempo todo na hora do livro e etc.

    No final decidi colocá-lo em uma escola infantil mais simples, bem perto de minha casa, onde pude observar uma neutralidade maior, e, quando ele for mais velho e tiver mais discernimento o colocarei em uma escola melhor.

    Em suma, quando o professor externa muitos opiniões religiosas, ideológicas e políticas para crianças, acho complicado, porém, a partir de determinada idade, creio que com o auxílio dos pais, o adolescente pode e deve ouvir as mais diversas visões de mundo, e um projeto de lei que retirasse esse direito do professor geraria uma geração “pobre”, acostumado a um caminho muito linear de pensamento, podendo ter dificuldades ao se deparar com o “mundo real”.

  2. É, vai achando que não terá problemas, até ter que explicar pro aluno porque homeopatia e fosfoetanolamina não funcionam e dizerem que essa é a SUA opinião e que não pode expressá-la em sala de aula. Ou quando o professor de física tiver que explicar pros alunos que cristal quântico é picaretagem.
    Talvez o de matemática não tenha problemas, até botar um problema em que o Joãozinho distribui o pão entre os amigos e o acusem de sugerir comunismo.

  3. Bom… vejamos: sou aluno do ensino médio e constantemente os professores impõe seus ideais goela abaixo aos alunos. Poderiam levar isso como apenas uma opinião de um igual? Poderiam, mas o professor é visto como uma ‘autoridade intelectual’ que não pode estar errado e nem deve ser contestado. O aluno que diverge de sua opinião e contesta o professor em sala de aula, sairá como humilhado. Pois quem é o mais creditado?
    Depois, o que deve ser mudado são os assuntos que compõe a grade. Que devem, estes, cair de modo imparcial. Ou não cai nenhum, ou cai os dois. Mas, como são esses saberes essenciais para a prática ativa na política, fale então de um e de outro.
    Os professores falam que isso prejudicará o desenvolvimento crítico dos alunos. Mas o que é o desenvolvimento crítico? Ter ideias progressistas na cabeça porque o professor disse que essa é favorável aos pobres e portanto do bem?
    Incriminar o capitalismo e pregar o maniqueísmo de que só os ricos levantam a bandeira do liberalismo clássico? Isso é suscitar o senso crítico dos alunos? São tão marionetes quanto.
    Mas o que desenvolve, de fato, o senso crítico? Debates. E o que são debates? Embate entre ideias conflitantes. O que é necessário? Que haja duas pessoas com ideias, então, divergentes. Mas como isso acontecerá? Se todos tiverem conhecimento de tais ideias. Simples!
    No caso de ensinos do fixismo vs darwinismo, o professor deverá ser honesto quanto a natureza do conhecimento de ambos. Enquanto um é respaldado pela ciência o outro o é por uma visão religiosa.
    As consequências de tais imposições ideológicas são essas que você poderá ver nas redes. Argumentos extremamente polarizados (pros dois lados), opinar a partir de uma outra opinião (e não a averiguação do fato) – por exemplo, nesse caso, tenho conhecidos que não leram o projeto de lei, mas repetem informações de outras pessoas que dizem que essa lei em discussão extinguirá a sociologia e que o professor é proibido de falar sobre política; quando na verdade impede que este opine.
    Com debates entre ideologias diferentes, os alunos devem ser incitados a buscarem conhecimento para respaldarem suas defesas a tais ideias.
    O professor não é pago para opinar, é pago para ensinar. Tornar conhecimentos mais complexos em mais mastigáveis. É verdade que não deveria existir uma lei que proibisse. E sim que a imparcialidade nas escolas deveria ser sinal de bom profissionalismo. Só é ler o código de ética profissional de qualquer área que poderá ver que é exigido omissão de opinião.
    Se o professor quer opinar que faça isso como cidadão utilizando suas redes sociais e veículos de imprensa.
    A lei, agora venho a concordar com você, torna algumas coisas complexas. Pois poderá existir várias denúncias baseadas em má interpretação da conduta do professor. Complica a vida do professor trazendo a este mais dores de cabeça. Isso devo reconhecer.
    Mas deveriam investir numa melhor adaptação dessa lei.

      1. Quando falo que são vistos assim, falo do aluno e dos pais destes.
        O que há mais hoje são pessoas balançando seus diplomas para validar argumentos. E os professores não são diferentes.
        Cresci em um ambiente onde ninguém contesta o professor e engole tudo o que ele diz. Repetem os mesmos argumentos, letra por letra.

          1. Uns 20 anos lecionando em colégio público, particular, e universidade.

            Trabalhei (e trabalho) desde o fundamentalzinho até Ensino Superior.

            O que vc acha?

          2. Pensei que tivesse pouco tempo esse desinteresse e desrespeito com os professores. 20 anos atrás já era como hoje?

          3. Eu tive uma professora de história da oitava série até me formar no ensino médio. Ela era de esquerda, e deixava isso bem claro para os alunos, mas em momento algum tentou doutrinar ninguém. Comecei a me interessar mais por história e política por conta dela. É umas das professoras por quem alimento grande admiração.

      2. Que nostalgia; estou lembrando do estágio que fiz num estadualzão. Eu entrava na sala e os alunos se calavam só para admirar minha autoridade intelectual.

      3. Poxa, no facebosta o que mais tem é gente exaltando o trabalho e a figura do professor.

        O senhor está me dizendo que tudo isso é uma grande mentira?

          1. “Sou professor e não vejo isso acontecer.” Acho que há certa equivalência.
            Estamos baseando nossa opinião cada qual a partir da nossa experiência.

          2. Há quantos anos vc é aluno? Quantos professores no total vc teve até hoje?

            Eu já lecionei para TURMAS com 80 alunos cada.

  4. Vão cometer um erro muito maior pra corrigir um menor que até pouco tempo todo mundo sabia e ninguém dava a mínima

  5. E eu achava que escola livre seria exatamente o contrário do que diz essa lei de malucos. Deveria ser um lugar onde TODO assunto polemico deveria ser trazido a tona. Mas conhecendo o Brasil, logo iria virar porradaria

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