Se dependesse da boca, macacada poderia falar. Por que não o faz?

Nossa fala é mais que articular palavras. É um processo neurológico. Entretanto, não adianta ter o software de controle sem o hardware que será controlado. É preciso ter lábios, mandíbula e língua capazes de propiciar que os sons sejam articulados. Ainda assim, tem uns probleminhas, já que macacos possuem estes órgãos bem semelhantes a humanos. Ainda assim, macacos não falam (no conceito humano, já que eles possuem comunicação própria). Entrou aí a teoria da “laringe descendente”.

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Ser surdo de apenas um ouvido afeta a sua fala

Ser surdo é um sério problema, e isso mesmo quando é apenas um ouvido só. Não, não é uma questão de “ah, vira a cabeça e usa a outra zoreia”. Uma pesquisa recém-saída do forno mostra que a perda auditiva condutiva crônica está associada a déficits no reconhecimento de fala, e que o tratamento inadequado de infecções ou outras condições que afetam cronicamente a orelha média pode levar a déficits neurais e a dificuldades de audição em ambientes barulhentos. Sim, isso mesmo. Condições que afetam a audição afeta a audição, eu sei que você leu e riu. Não me culpe. Mas isso piora quando começa a afetar a pessoa a ponto de causar demência. Está rindo agora? Pois, é, né?

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Como damos o nomes às coisas que vemos, em nível cerebral?

Você sabe que enxerga (estou supondo que você não é cego). Você vê algo e já sabe do que se trata, salvo que seja algo que você nunca viu na vida ou no caso de sofrer de alguma doença neurológica que o impede de fazer este tipo de processamento. O processamento que pessoas sadias fazem instantaneamente sem saber como, nem é preciso saber. Seu cérebro opera no automático, mas como é essa operação?

É simples e complicada ao mesmo tempo. São várias regiões envolvidas que interagem entre si de forma a dar nome aos bois (ou qualquer utra coisa que você esteja vendo, mas vamos chamar de “bois”, mesmo. Ou “trem”, se você for mineiro).

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Idade acaba com a gente e faz nos confundir com gente falando

Vamos ser honestos: não éramos para, naturalmente, vivermos tanto assim. Graças à Ciência, conseguimos uma bela longevidade, mesmo entre camadas mais pobres. O problema é que morrendo cedo não percebíamos o declínio da qualidade de vida e saúde., viver mais tempo é correr mais riscos de demência e Alzheimer, por exemplo.

Com o tempo, nosso cérebro já não é mais o mesmo. Nossa capacidade de acompanhar e entender a fala em ambientes ruidosos vai se deteriorando, com o mesencéfalo dando tilt e…

Mas que diabos é um mesencéfalo?

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O que é gramática? (Segunda parte)

Continuando a nossa série de textos sobre estudos da linguagem, hoje vou falar um pouquinho sobre os estudos "tradicionais", ou seja, aqueles relacionados à primeira definição de gramática que eu dei no texto anterior (e se você não leu os textos anteriores, PARE AGORA! e só volte quando ler tudo. É importante seguir o raciocínio.)

Para falar dos estudos tradicionais, vou usar um texto do linguista britânico David Crystal, mais especificamente o segundo capítulo do livro A Linguística. Infelizmente não consegui uma versão digital do livro para linkar aqui (eu tenho um xerox desse texto que usei numa matéria na faculdade, traduzido para o português, aparentemente uma edição portuguesa.).

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O que é gramática? (Primeira parte)

Olá amiguinhos(as)!

Seguindo a nossa pequena série de introdução aos estudos linguísticos, agora que a gente já viu um pequeno panorama dos estudos da linguagem, o que é e como se define língua e o que é fala e escrita, está na hora de embrenhar ainda mais no espinheiro: o que é gramática? (Não é aquela da escola.)

Gramática vem do grego Γραμματικόσ [grammatikós], que significa aquele que sabe ler e escrever. Ou seja, o estudo da linguagem começou como um estudo da escrita, sobretudo da variedade escrita do grego antigo. Os primeiros gramáticos eram estudiosos que se debruçavam sobre a escrita do grego – e se preocupavam em "proteger" a língua das modernidades (é, Aldo Rebelo, não foi você o primeiro a ter a ideia de jerico de que a língua precisa de proteção). O Panini, que eu citei no meu primeiro artigo, também escreveu a gramática do sânscrito com o mesmo objetivo de preservar a língua (nesse caso por motivos religiosos).

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Qual a relação entre fala e escrita?

Você me pergunta, "tia Bárbara, por que todo mundo falou bobagem na polêmica do livro didático que falava sobre preconceito linguístico"? Eu respondo: porque nós somos impregnados pelo senso comum. E o grande problema do senso comum na linguística é: nós confundimos fala e escrita. E por que nós confundimos fala e escrita? Porque antigamente nós só podíamos estudar a escrita. Antes da invenção do gravador a gente não tinha como capturar e analisar língua falada, só língua escrita, e era assim que a gente fazia. E todas as gramáticas e estudos feitos até meados do século XX foram feitos em cima de língua escrita.

Mas a língua escrita é MUITO diferente da língua falada.

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