Meditação é arma para professores não sucumbirem ao estresse

Isso os professores conhecem bem: a síndrome de burnout. Não, não é francês, e sim derivação da expressão inglesa burn out. Esta síndrome é o que eu chamo de cansaço moral. No cansaço físico, você carregou cimento, cuidou da casa, lavou roupa, saiu para caçar mamutes etc. Voltou, deitou, dormiu, pronto! No cansaço mental, você estuda, faz conta, organiza, planeja etc. Não é apenas uma questão de deitar e dormir, e sim de ter um momento para espairecer.

O estresse do dia-a-dia causa a chamada síndrome de burnout, o famoso "ESTOU DE SACO CHEIOOOOOOO!!!!!!!!!!!!". Agora, pesquisas indicam que meditação é um santo remédio para isso. Mas eu tenho cá as minhas dúvidas.

A síndrome de burnout é o que eu chamo de "cansaço moral" (termo cunhado por mim, obrigado). É quando você está aturando maluco, tendo que ouvir gente idiota lhe dando ordens insanas, pressão no serviço e em casa, filho enchendo o saco porque não ganhou PlayStation 9000, cunhado pedindo dinheiro, irmão que levou o rádio do carro e coisas similares. Um estado em que você está com pouca paciência, mandando sua saúde pro inferno.

A síndrome de Burnout é um distúrbio identificado pela primeira vez pelo médico americano nascido na Alemanha Herbert J. Freudenberger, em 1974. Os sntomas é, de acordo com a literatura, a sensação de esgotamento físico e emocional que se reflete em atitudes negativas, como ausências no trabalho, agressividade, isolamento, mudanças bruscas de humor, irritabilidade, dificuldade de concentração, lapsos de memória, ansiedade, depressão, pessimismo, baixa autoestima.FONTE

A "sabedoria popular" (me contendo para não rir) tem ótimas curas para isso: Vai pescar! Vai transar! Tira um tempo para descansar! Você fica aí o dia inteiro corrigindo provas. Vem dar um passeio aqui, e a gente sai pra comer fora e tal

A última frase foi do meu pai para mim, quando eu ainda era professor da rede estadual (avemariameupaidocéu!avemariameupaidocéu!avemariameupaidocéu!avemariameupaidocéu!)

Eu fui e o resultado foi que eu fiquei com o trabalho todo atrasado (eu só tinha quse 20 turmas, com uma média de 60 alunos por turma, tendo que colocar matéria em dia, corrigir prova e trabalho e fazer os malditos diários).

Moral da história: eu passei um dia, no restante da semana meu pai foi dormir tranquilinho e eu fui tranquilamente trabalhar até as 2 da manhã, tendo que acordar às 5:30.

Você tira UM DIA, mas isso não resolve seus problemas. Quando eu leio que um grupo de pesquisadores estudam os efeitos da meditação na síndrome de burnout, eu só sacudi a cabeça.

O dr. Charles Elder é professor da Universidade de Ciência e Saúde do Oregon e pesquisador Centro de Pesquisas para a Saúde. Ele pesquisa como a meditação transcendental pode ajudar no caso de pacientes estressados, como é o caso de professores. De acordo com o dr. Velhusco, os resultados deste estudo são muito marcantes e demonstram a utilidade da introdução de um programa de redução estresse para os professores e outros funcionários públicos e privados.

Lindo… na teoria.

NA prática, não vai adiantar muito. Você sai pra meditar, olha para um resistor e fica dizendo OHHHHHMMMMMM, OOOOOOOOOOOOOHHHHHHMMMMMMMMMM e pronto, sai livre leve e solto. Para quê? Para encontrar os trabalhos dos alunos, com suas proverbiais insanidades. Acessa o e-mail e vê recadinho do coordenador, a diretora chama na sala no dia seguinte, porque papai não gostou da nota 2,0 que o filhotinho queridinho (e vagabundo) tirou. Entendam, dar a aula e aturar aluno maluco NÃO É O PROBLEMA! Se (e apenas SE) o trabalho do professor fosse apenas em sala de aula, não haveria problema.

Uma das minhas formas de aturar isso é partir pro sarcasmo. Teve uma vez que um pai bem irritado me perguntou por que eu dei 4 pro filho dele na prova.

Resposta: Porque eu sou um cara muito legal! Sim, senhor, eu sou um  professor muito amigo. Entenda, seu filho não fez um dever, não entregou um trabalho na data (e quando entregou, era cópia dos outros) e escreveu um monte de bobagens na prova, porque ficou claro que ele não pegou num livro e, pelo visto, o senhor nunca checou o caderno dele, pois teria visto que nem a matéria ele copiou. Nem eu sei como ele conseguiu tirar quatro!

Por dentro, fica-se quicando de raiva. A orientadora e o coordenador colocaram paninhos quentes e, milagro de Dio!, o diretor foi ao meu favor, dizendo que cabe ao pai participar da vida acadêmica do filho blábláblá.

Daí eu saio dali, faço 2 horas de meditação e depois o quê? Vo para outro colégio me estressar? É fácil para quem não vive o problema.

Se ao menos tivéssemos um ambiente melhor de trabalho, com gente ficando fora do seu caminho enquanto você tenta fazer aquilo para o qual (na teoria) que é inerente à sua profissão, que é ensinar, nada disso seria necessário.

Atualmente, ninguém quer dar aula nos colégios estaduais do Rio. Eles nunca conseguem preencher as vagas. Se estressar para receber pouco? Só compensa a estabilidade e daí vem aquele lance de não querer ir trabalhar. Quando você não pode ser mandado embora, é moleza. Vai fazer isso num colégio particular.

A pesquisa foi publicada no The Permanente Journal e eu a achei bem idiota! Podem meditar o quanto quiser, mas vai ficar com seu burnoutzinho por muito tempo, até que as aulas de meditação terão que ser substituídas por visitas ao cardiologista.

Mas, continuem assim, amigos, e que a terra lhes seja leve, amigos.

9 comentários em “Meditação é arma para professores não sucumbirem ao estresse

  1. Eu aprendi a dar valor, de verdade, aos professores quando ví minha professora de inglês chorando, antes de entrar na sala. Antigo segundo ano de colégio técnico – voltava do banheiro e perguntei o porquê ela chorava; resposta: “Tenho que entrar aí, nessa sala, e tentar dar uma áula de inglês para um bando de desordeiros.” Minha capetice galopante foi congelada naquele momento – entendi, instantaneamente, o motivo do comportamento hostil dos professores em relação aos alunos – ESTRÉS. Sim, eu causava estrés nos meus professores ao ponto de fazê-los chorar, chorei em casa como nunca havia chorado antes. Aprendí a respeitá-los em qualquer situação. Nunca havia imaginado que este trabalho era tão difícil e causava tanto problema de saúde. Não há como pedir desculpas, a não ser depositando enormes quantias em dinheiro na conta de cada professor que teve que me aturar.

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    1. @observer, Ainda bem que você teve bom senso e empatia suficiente pra rever seus atos naquela época. Hoje em dias, os babacóides que podem ser denominados “adolescentes” querem é fazer questão de surrar psicologicamente (e fisicamente em certos casos) os professores. Afinal de contas, é esses professores que estão enchendo o saco dele, impedindo que ele vá vagabundear por aí, ou dançar Quadradinho de 8 ou algo assim.

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  2. “Se ao menos tivéssemos um ambiente melhor de trabalho, com gente ficando fora do seu caminho enquanto você tenta fazer aquilo para o qual (na teoria) que é inerente à sua profissão, que é ensinar, nada disso seria necessário.”

    Pior que essa merda é em qualquer profissão!

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  3. Para resolver este problema os adultos e consequentemente as novas gerações deveriam passar por uma espécie de “reforma moral”, não adianta tentar educar alunos na escola enquanto em casa não recebem a menor orientação, e quando recebem, são passados preceitos e ideias errôneas que passam de geração em geração.

    Vejam este vídeo (desculpe não consegui acessar o link direto):

    http://kibeloco.com.br/2014/02/03/ufc-escola/

    As pessoas nos comentários estão criticando a professora, mas na minha visão o que ocorre com ela é o tema deste artigo, a “síndrome do saco cheio”, ela só está ali dando aula pois pode perder o emprego, mesmo com estabilidade, por avaliação negativa de desempenho, dessa forma, ela vai a sala fala o que tem de falar e pronto. Fiquei chocado com as cenas, mas posso garantir, provavelmente faria o mesmo.

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  4. Realmente tem que ter uma paciência incrível para ser professor.Não me admira os professores não quererem trabalhar em escolas pública,e quando trabalham é porque precisam.

    Sem falar de outro grande problema que é a inépcia dos professores. Ninguém é obrigado a ser professor,e quando resolve seguir esse caminho sabem muito nas condições que irão enfrentar.Mas é claro que todos esperam que os pais ou qualquer responsável legal eduque seus filhos.Mais é claro que a realidade é que os pais jogam as crianças na escola e esperam que a escola seja a única responsável pela sua educação e quando acontece algo de ruim a culpa é do professor,que não tem o direito de dizer algumas verdade para os pais que para não dizer que não fazem nada vão a escola reclamar da linda nota do seu filho.

    O problema é que os alunos estão cientes que mesmo eles não sabendo nada irão passar em uma faculdade,pois sabe que seus pais tem dinheiro para pagar e o professor acaba apenas atrapalhando esse negócio.Quantos casos temos de alunos que falta maior parte do ano letivo ou ficar apenas enchendo o saco do professor que conseguem entrar na faculdade sem problemas

    Talvez se os professores não tivessem tantos limites ridículos de trabalho e o sistema de educação fosse meritocrático,os professores não teriam que tomar tantos remédios para stresse

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  5. O que eu acho incrível são os acéfalos que dizem que o professor tem que aturar isso tudo porque esta é ”realidade ” ou seja o comodismo, falta de respeito, e até violência são normas vigentes e imutáveis da realidade, tudo por conta da tolerância dos sistemas educacionais geridos pelas sobrinhas do titio Piaget.,

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  6. Realmente, penso que não é exagerado dizer que a profissão de professor é algo heroico nos dias de hoje. Mesmo aqui no interior já é uma “cousa de doudo”, que dirá nas grandes metrópoles. Dr. Velhusco, tá por fora, hein ?

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