Estado indiano recebe energia elétrica após 65 anos. Você tá rindo do quê?

Vi um artigo no Meio Bit falando sobre como o acesso à internet via dispositivos móveis (celulares, tablets etc) soma em torno de 15% do total do fluxo. A verdade é que nem todo mundo necessita de acessar internet a cada 5 minutos. Nem todo mundo sente que precisa escrever no Twitter que acabou de ir no cinema ver o filme do Meu Querido Pônei e as Fadinhas Safadas.. Nem todo mundo precisa usar o Instagram, Facebook ou Foursquare, numa eterna demonstração de autoimportância ao avisar a todos os seus contatos que ele está tomando uma cachaça no boteco do seu Antenor, postando foto do pratinho de croquetes.

Enquanto o mundo não deixa de ser o que é, vi uma outra notícia dizendo que finalmente um estado da Índia conseguiu ter acesso ao supra-sumo da tecnologia: eletricidade. Só estão atrasados uns 200 anos.

Uttar Pradesh é simplesmente um dos mais populosos estados (com "e" minúsculo, pois não estou falando de um país) do mundo com quase 200 milhões de habitantes. A população do Brasil cabe lá dentro, apesar desse "caber" soar esquisito pelo modo como as pessoas vivem lá, já que a área de Uttar Pradesh é de 243.286 km2. Se você achou que é muito, lembre-se que a área do estado de São Paulo é de 248.209 km2. Peguem toda a população do Brasil e joguem lá no estado de São Paulo (sem as indústrias, claro) e terão um vislumbre do que é Uttar Pradesh.

A era dourada da Índia e seus mistérios são apenas lembranças de um passado já esquecido, sendo que muitas de suas tradições ainda se mantém até hoje e todo o atraso que isso vem na mala. Mas a Índia de hoje é algo que se não é o Brasil, tá chegando lá.

Ei, peraí! Como assim "está chegando perto do Brasil"?

Deixe-me explicar uma coisa. No Ceará, 80% dos municípios não têm nenhum plano de saneamento básico[1] [2]. Se formos ver por bairros e municípios isoladamente, veremos isso acontecendo em todo o Brasil. Duque de Caxias, na Baixada Fluminense e um dos 15 municípios mais ricos do país, tem sérios problemas de saneamento básico[3]. Não vejo muita diferença daqui para a Índia, com lugares sem eletrificação (e se eu for procurar, bem que encontrarei aqui também).

O curioso é que isso não impediu a Índia de aumentar sua produção científica[4]. E eu nem vou mencionar Bollywood e seus lucros absurdamente imensos.

A verdade é que há uma imensa veneração a uma sociedade moderna que não existe. O que entendemos hoje por "cidade moderna’ já existia na Roma Antiga, nos reinos do Egito e da Babilônia, com seus estados sendo conduzidos por uma competente administração e uma burocracia bem organizada. Então, ter um smartphone não é uma evolução tecnológica daquelas, e sim um passo normal. Mas também vejo que os sistemas de abastecimento de água e saneamento de capitais de impérios antigos eram muito mais eficazes do que os de hoje. Estamos emburrecendo.

há muitas explicações para esses disparates que vemos hoje, mas eles são desnecessários em sua prolixidade. Tudo se resume aos sistemas de governo, que pouco se interessam em resolver problemas da população, posto que isso não é visto como um problema dos mantenedores do governo.

Muito dificilmente a Índia se modernizará enquanto país, mas eu vejo que muitos outros países "modernos" têm problemas semelhantes. Então, a questão é o tamanho do país, com a imensa dificuldade de gerenciá-lo. Quebrá-lo em pequenos pedaços não é solução.

O mundo é repleto de disparidades e absurdos. Este é só mais um, mas deve nos servir de lembrança sobre nossas próprias condições. Eu não deixarei de usar ar-condicionado porque alguém na África não tem luz. Mas também devo saber que nossa civilização não resolveu todos os problemas mais básicos. Vai que… sei lá… o Brasil sofra um apagão na sua rede de abastecimento de eletricidade?[5] [6] [7] [8] [9]

Creio que usar celular para acessar Facebook será o menor dos problemas.


Fonte BBC.

14 comentários em “Estado indiano recebe energia elétrica após 65 anos. Você tá rindo do quê?

  1. Toda vez que se tem uma novidade na área científica,vem aqueles chatos de plantão falando que isso não serve para nada,que o dinheiro deveria ser gasto para acabar com a fome na África etc.A revista Veja(imprensa golpista) dessa semana nos brindou com uma reportagem falando sobre dois países africanos que tiveram suas dívidas perdoadas pelo Brasil,mas os ditadores desses países são bilionários com frotas de carros importados imensas,incluindo Ferraris,Lamborghinis,etc.Sem contar que são genocidas e mandam matar qualquer opositor ao sistema.Não há possibilidade de um dia a modernidade chegar ao continente africano,mesmo porque isso não interessa a tais ditadores.

    1. Acho tão cuti-cuti quando falam “imprensa golpista”. Só não é quando ela traz alguma matéria favorável o governinho que os críticos dela amam (seja FHC, Lula, Dilma, Collor…)

      1. @André, André,desculpe-me,mas só usei o termo “imprensa golpista” para ironizar,como você já usou algumas vezes em seus textos.Não tenho preferência partidária.Valeu!

  2. Aqui no interior de Minas Gerais, em muitos lugares na zona rural a eletricidade só veio há mais ou menos 2 anos. :shock:

  3. mais 150 anos e talvez o controle de natalidade chegue por lá, falando nisso absurdo permitir que algumas religiões boicotem o controle de nascimentos e o uso de camisinha, mandar populações com baixo nível educacional ter filhos como coelhos( ao desestimular o uso de métodos contraceptivos ) e um ato imoral, e suicida, eu não conheço a realidade daquela região mas duvido que seja um santuário ecológico, com essa numerosa população os recursos naturais já devem ser super explorados.
    e André pelo visto vocês nem pensam na ideia de ceticismo.net no Facebook ou no Twitter, falta de tempo ou ”abaixo a ditadura”.

    1. não estou dizendo que isso é o que ocorre lá mas em outros lugares sim, afinal não é de hoje que os povos da asia tem populações numerosas..

    2. Quem falou em controle de natalidade e religião neste artigo, filho?

      E sim, cet.net tem twitter: @ceticismo. Facebook? Não porque eu produzo conteúdo aqui.

  4. Hey André, tudo tranquilo?
    A realidade, resumindo, e concordando com sua posição, é a terra dos papagaios ruma à uma “idiocracia”. Estamos em uma época que é mais interessante “parecer culto” do que realmente “ser culto”, um exemplo disto está no fato de nunca ter-se vendido tantos livros, mas ao mesmo tempo ter um percentual tão elevado de analfabetos cursando o ensino superior (graande Freire).
    Povo brasileiro está mais preocupado se o eleito pelos mesmos é do mesmo time de futebol, ou da mesma galerinha do barulho com seu amigo imaginário do que um competente regente. E sinceramente? Acredito que isto seja inerente do “cerumano”, apesar de não ser todo o problema, é um desfecho da cadeia da ignorância.

      1. @André,
        Comentando sobre o dissertado no artigo acima, de sua autoria.
        Seu texto, inicia com uma crítica à sociedade moderna, e suas inutilidades, continua abordando o tema, no caso a instalação de rede elétrica em determinado lugar, ao mesmo tempo em que deixa claro que não temos do que nos orgulhar, ou do que caçoar, pois estamos em igual ou pior situação no Brasil, levando em consideração a infraestrutura de nosso país. Após isto você disserta sobre como existe a falsa sensação de evolução na sociedade moderna, e justamente neste ponto meu comentário se faz válido (penso que sim, mas não sou a prova de falhas), me corrija se não foi este o sentido aplicado no mesmo, que corrigirei a opinião expressada.

        Concordei que os habitantes daqui não tem do que caçoar da notícia, opinando em seguida que esta evolução (não necessariamente melhoria, mas adaptação), está guiando-nos (nós como espécie), para o buraco. E concluí com um exemplo falho (eu mesmo me retifico, e admito o erro), sobre o que penso ser algo cíclico, onde “nosso” anti-intelectualismo nos leva cada vez mais para longe do ideal de ser pensante racional e criativo.

        Citei também, como exemplo, como o atual mercado literário está passando por um período favorável financeiramente, mas em sua maioria com literatura de qualidade duvidosa, ou a livros que parecem novos, mas cheiram igual às axilas da onde não saem para ser lidos (carrega-se livros que não são lidos, a grosso modo), refletindo isto na baixa qualidade do meio acadêmico atual, habitado por aqueles que muitas vezes não sabem interpretar o que lêem.

        Resumindo, uma crítica complementar às duas.

        1. @Diego Moreira, Eu não ia comentar nada deste artigo, pois está explícito a idéia do autor e bem retratado o tema, mas…mas..mas, Diego, você viajou na batatinha galática.

          Pelo amor da Virgem Afrodite.

  5. Só queria compartilhar o fato de que reiniciei a página tantas vezes esperando a imagem abrir… até que entendi sua proposta.

    E, poxa André, não acho que tenha lugar algum no Brasil que esteja sem, luz, afinal, uma das primeiras propostas do Lula não foi o programa “Luz para Todos”? Aumentou desgraçadamente o imposto na conta de luz de quem tinha para montar tal fundo :) lembro bem disso! Meu bolso lembra bem disso.

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