A silhueta que dá um baile na sua mente

Eu sei que você conhece a figura ao lado. É a famosa bailarina usada em muitos testes psicológicos, afim de determinar se você pensa "com a esquerda" ou pensa "com a direita", apesar de isso não ter nada a ver com a Imprensa Golpista. Esta animação é uma ilusão de óptica criada pelo webdesigner Nobuyuki Kayahara. Junto a ela vinha a pergunta: "Qual a direção é a dançarina está girando?" Ou seja, a dançarina está girando no sentido horário ou anti-horário?

Com o tempo, sugiram vários testes psicológicos tentando extrair alguma informação de uma resposta que só admite duas alternativas: 1ª) Ela gira para a esquerda; 2ª) Ela gira para a direita. Nossos amiguinhos possocólogos conseguiram descobrir se você é emotivo, racional, se pensa com o lado direito, esquerdo, centro-avante ou na zaga do cérebro.

Mas as coisas nunca são tão simples assim. Nunca.

O problema dessa "análise" psicológica é que ela é totalmente arbitrária. A falta de informações dá um curto no nosso cérebro, mas o que isso quer dizer?

Nosso cérebro evoluiu para escaparmos de predadores. Não temos os olhos na frente da cabeça por sermos predadores, muito pelo contrário. Precisávamos da visão estereoscópica para poder fugir do perigo ao saltar de galho em galho. Nosso ancestral desenvolveu esta adaptação, a qual acarretou numa vantagem evolutiva, onde a Seleção Natural ergueu o polegar e disse "Simbora, filho. Pode continuar". Este ancestral passou seus genes adiante, onde, através de mutações, apareceriam um proto-macaco e um proto-humano. Para vocês terem uma ideia, o ponto onde nosso ancestral se separou do ancestral dos chimpanzés ocorreu há 6,1 milhões de anos, o que causa surpresa ao ver muitos idiotas agirem como chimpanzés ainda hoje.

Quando temos visão esteroscópica (3D), nosso cérebro lida com uma gama imensa de informações. Cérebros que estavam mais desenvolvidos conseguiam safar-se do perigo, e seu dono gerava mais descendente. Cérebros que não estavam ainda muito capazes de lidar com isso ficavam para trás e viravam almoço. A Seleção Natural dá, a Seleção Natural toma.

Tudo muito legal, mas o que isso tem a ver com a silhueta? Simples: nosso cérebro não foi criado (ha! ha!) para ficar sem fazer nada. Ele SEMPRE está processando dados e informações. O problema é quando não há dado nenhum, ou há, mas bem pouco. O que o cérebro faz? Como uma excelente ferramenta produzida por uma inteligência suprema… supremamente burra, o cérebro INVENTA informações. Não, é sério. A imensa gambiarra evolutiva que se tornou nosso centro nervoso é tão mal-acabado que possui uma necessidade quase patológica de lidar com informações, nem que invente uma. Ele não sabe ficar ocioso; nem mesmo dormindo ele está ocioso e é por isso que você sonha.

Tá, tá, tá, tá, tááááá!! O que isso tem a ver com a droga da bailarina??

Molto simples, pequeno gafanhoto. Para você ter uma noção de movimento, seu querido cérebro processa as imagens em sequência. Uma a uma. Isso os antigos animadores já sabiam, a ponto de criarem o zootrópio. Data? Cerca de 180 E.C. Por quem? Ding Huan. Onde? China, óbvio. Os cristãos ainda estavam saindo na porrada entre si para saberem quem era cristão de verdade, os islâmicos só apareceriam 500 anos depois, os judeus tinham tido suas bundas hebreias chutadas pelos romanos, cujo imperador, Marco Aurélio, estava prestes a ser assassinado e Galeno catava bichos por aí para fazer experiências, onde descobriu que lesões na medula espinhal causava paralisia.

MAS O QUE ISSO TEM A VER COM A PORRA DA BAILARINAAAAAAAAA????????????

Garoto apressado. Tsc Tsc. Como nosso tosco sistema nervoso inventa dados, começamos a ter problemas. Vemos a animação, mas não podemos ver onde está a frente e onde está a bund… traseira da bailarina. Assim, o que esta magnífica gambiarra faz? Inventa. Sim, isso mesmo. Nosso cérebro escolhe um lugar e diz "Esta é a frente e ponto final. Podem processar as informações, vassalos!" Ao criar um ponto frontal, automaticamente fica determinado qual é o lado direito ou lado esquerdo da figura. Isso é feito instantaneamente, pode querer escolher o quanto quiser que não vai funcionar, pois isto não faz parte de nosso consciente. Assim, arbitrária e inconscientemente, há uma escolha de lados. Para vocês terem uma ideia, foi colocado linhas azuis e vermelhas em lados distintos da figura. As linhas azuis representam o lado direito da bailarina e a linha vermelha está, obviamente, representando o lado esquerdo. Ah, sim. Foram colocados "olhinhos" para você ver onde fica o rosto

Possocólogos de plantão acharam que com isso poderiam identificar pessoas que usam de forma melhor um de seus dois hemisférios cerebrais . Eu, particularmente, sempre vejo a bailarina girar da direita para a esquerda. Mesmo observando as 3 imagens acima ao mesmo tempo, ainda tenho a tendência de escolher o movimento ilustrado pela imagem da esquerda. Será que eu sou do Partidão? Bem, de qualquer forma, o  Dr.   Steven Novella, co-fundador do New England Skeptical Society, acha que tudo isso é besteira. Mas quem é o dr. Novella é, além de um simples médico neurocirurgião? Bem, eu diria que é uma forma de vida melhor que possocólogos (apesar que até meu Penicillium de estimação é mais evoluído que possocólogos).

Aqui vemos apenas mais uma das burradas que nossa mente faz e como ela prega peças em nós, toscos seres humanos. Se mal conseguimos diferenciar a esquerda da direita de uma imagem, qual a garantia que temos ao tomarmos cada uma das milhares de decisões ao longo de cada dia de nossa vida?

Ah, sim! Ia me esquecendo ("Paiê! Tem um alemão aqui na porta perguntando pelo sinhô"). Podemos ver site do perclaro Nobuyuki Kayahara sobre esta ilusão. Um mimo que a Marie o Nihil irão adorar. Divirtam-se, pessoal.


Fonte: Math Fail via @Lealcy

23 comentários em “A silhueta que dá um baile na sua mente

  1. Eu sou anormal, pois consigo ver ela girando pra qualquer lado que eu quiser(auxiliado, claro pela figura central).

        1. Pouts… a impressão que tenho é a de que a bailarina dá meio giro prum lado e meio pro outro. E isso está além de meu controle. :shock:

  2. Muito massa esse artigo!!
    Também tenho uma leve tendência de interpretar como no quadro à esquerda da 2ª ilustração. Mas, sei lá o porquê, às vezes vejo do outro jeito… :???: (não, eu não uso dorgas, mano!)

    (apesar que até meu Penicillium de estimação é mais evoluído que possocólogos)
    Seu hamster com Síndrome de Down nem se fala, imagino… :lol:

    Se mal conseguimos diferenciar a esquerda da direita de uma imagem, qual a garantia que temos ao tomarmos cada uma das milhares de decisões ao longo de cada dia de nossa vida?
    Boa! (não dá ponto sem nó, né?!) Impressionante como as pessoas, de forma geral, confiam piamente em como interpretam a realidade. Arrogância associada à preguiça mental é a pior das combinações em se tratando da busca pela verdade.

  3. Um mimo que a Marie o Nihil irão adorar. Divirtam-se, pessoal.
    Você não imagina o quanto :mrgreen: Muito obrigado, André ;) Fico muito honrado com mais uma menção :oops:

    Eu curto muito as ilusões de ótica. Elas mostram que o nosso cérebro não é lá essas coisas, mesmo sendo o mais evoluído (apesar da grande maioria não usá-lo, como podemos conferir nos fóruns do Orkut). Eu mesmo tenho uma revista da Super-Interessante especial sobre ilusões (Sim! Eu sei que a Super não é revista científica!) há mais de um ano e até hoje não canso de ver.

    Curti esse artigo. :D

  4. Interessante, quando vejo ela girando no sentido anti-horário percebo uma assimetria no ponto de equilíbrio e perspectiva. Consigo visualizar nas duas direções, mas no anti-horário parece que tudo o que estaria “próximo” a mim fica menor e quando “afasta” fica maior.

    Como acredito que sou perfeito, deve ser problema na geração da imagem. :mrgreen:

  5. Essa imagem eu conheço dos twitpic da vida… E achei fascinante que era só pensar o lado que ela deveria girar e a imagem girava. Me senti fuck yeah? Com certeza. Agora vem tudo por água baixo e eu volto lá para o cantinho do orgulho humano e volto a aprender que a visão das abelhas é muito melhor que a nossa ._.

    Eu também tendo a sempre olha-lá da direita para a esquerda.

    André, desculpe, mas não acha que a 4ª frase do 1º parágrafo está errada? Ao menos eu não compreendi direito e até pulei a sentença ‘-‘

  6. A citação aos “possocólogos” me lembrou uma análise de perfil que fiz para uma empresa, após me classificar em uma prova de conhecimentos e passar por um teste psicotécnico. O cara só me pediu para preencher um formulário de múltipla escolha, escaneou e um programa “esgurmitou” o resultado:

    “Você não possui o perfil que necessitamos para nossa empresa”.

    Só faltou o computador também anexar o “por que” ao resultado, mas aí a inutilidade do “possocólogo” ficaria óbvia. Não, o “possocólogo” não me disse o “por que”.

  7. Eu conheço essa silhueta já há alguns anos, sempre achei interessante.

    Consigo escolher o lado que ela gira olhando a sombra, hehehe

    Eu num conhecia essa versão com as cores…. Pra mim, na silhueta esquerda ela sempre gira em sentido horário e na direita em sentido anti-horário, sendo q a do centro depende de qual lado eu olhar primeiro, q bizarro

  8. Incrível, eu não conhecia… hehehe

    De cara só consigo enxergar o giro no sentido horário. Preciso da ajuda das outras imagens para enxergar o sentido anti-horário.

  9. Devido às limitações da percepção, o cérebro é obrigado a fazer uma suposição: a bailarina está girando e neste instante está de costas;

    A próxima observação sugere que ela está virando para esquerda, então é criada uma hipótese: a bailarina está girando no sentido horário;

    Todas as outras observações confirmam a hipótese do giro no sentido horário, então a hipótese vira teoria.

    Falta a revisão por pares…

  10. E eu acreditava, de certa forma. Eu deixava uma página aberta com a imagem da bailarina; assistia vídeos no youtube e ao voltar à página da bailarina eu logo a via girar para a direita. Depois, eu lia de três a quatro artigos sobre ciência; logo eu a via girar para a esquerda. O interessante é que se posicionar a tela de forma a ver apenas os pés, fica demasiadamente fácil modificar de forma “manual”, a direção que você quer que ela gire; até mesmo vê-la indo da direita a esquerda, sem girar.

    Isso mostra — o que já estava visível — que o cérebro já é por padrão um desenvolvedor de padrões. E por padrões, isso me responde a outras perguntas em relação à sociedade. Será elas não exatamente culpadas por seus comportamentos autômatos? (E ninguém entendeu porra nenhuma do que eu falei. (…) Pois é…)

  11. Nossa, que hilário, observando atentamente a bailarina da imagem do meio, ora vejo-a girando para a direita dela, ora para a esquerda. :shock:

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