Henio Zytomirski e a banalidade da Internet

henio_zytomirski.jpgIndiscutivelmente, a Internet nos trouxe muitas coisas boas. Obviamente, nisso não se pode adicionar o Orkut que, como tudo de interessante, perde o foco e acaba se tornando um antro de tosqueira. Henio Zytomirski nasceu em Lublin, Polônia, em 1933. Entretanto, o menino Henio não viveu o suficiente para ter acesso à Internet. Ele nem mesmo viu uma televisão e nunca assistiu aos desenhos do Pernalonga. Henio morreu numa ignominiosa câmara de gás, como cortesia do 3º Reich, em 1942.

Não preciso de um DeLorean para viajar no tempo. 68 anos se passaram desde aquela data que, infelizmente, não teve nada de especial, pois morrer barbaramente numa câmara de gás era algo comum se você fosse rotulado como “diferente”, seja judeu, cigano, deficiente físico, homossexual ou rezar pro mesmo deus, mas de partido diferente. Não, Henio não teve uma morte honrosa, que despertasse indignação na época. Era apenas mais um rotulado como “traste” e nem era visto como ser humano. Hoje, Henio volta. Não numa ressurreição promovida por um deus indiferente, mas pelas mãos da tecnologia. Henio tem seu próprio perfil no Facebook.

Quando li esta notícia da EFE, trazida pelo Terra Notícias, eu não tive a mesma reação que os mais de 5000 “amigos” de Henio. Eu sacudi a cabeça me perguntando como as pessoas podem ser tão imbecis; e antes que algum débil mental venha aqui me chamar de antissemita, nazista ou adorador da Banda Calypso, façam o favor de ler the fuckin’ article até o final.

Boas idéias são sempre bem-vindas e a lembrança do que ocorreu na 2ª Grande Guerra é algo que deve ser mantida sempre acesa. Já se passou 65 anos desde que a Guerra acabou, e os poucos que ainda restam estão com idade avançada. Eles morrerão e não haverá ninguém que possa testemunhar toda a selvageria cometida. Relatos de terceiros não são confiáveis, ninguém saberá ao certo. E mesmo com todos estes relatos em primeira mão, sempre tem um idiota que não acredita. Fazer um perfil de um menino que não tinha nada a ver com a guerra, sequer era soldado e nunca compreendeu o porque de tanto sofrimento, morrendo junto de outros que nunca entenderão a situação direito, pode ser algo de bom, divulgando, falando, comovendo o mundo. Mas não é assim que funciona.

Entendam: é comum as pessoas adicionarem cão e gato nas redes sociais. Só que elas têm muito de rede, mas pouco de social. As pessoas adicionam por mero espetáculo particular, sentindo-se que fez a sua parte, que fez a diferença, que é importante e luta pelos necessitados. A verdade é que tais pessoas são mesquinhas e egocêntricas. Adicionar um perfil no Facebook é mole, mas quantos desses realmente fez algo em prol de pessoas vivas? Ao meu ver, quase nenhuma. Facebook, Orkut, Twitter viraram banalidades, onde as pessoas fingem se importar e seus seguidores fingem que acreditam. No final, o que muda? Nada!

A prima de Henio, Neta Zytomirski, que mora hoje em Israel, entregou um pacote de fotografias velhas aos membros do “Porta de Grodzka”, um grupo que luta contra o racismo e busca manter viva a lembrança do Holocausto através da arte. Eles fizeram um site para o jovem Henio e um perfil no Facebook para ele. Mas isso fará alguma diferença? Não sei, mas acho que adicionar um perfil de um menino morto no seu rol de amigos soa mais mórbido que simpatia. Não estou pensando que os mantenedores do site tenham caráter duvidoso. Acho inclusive, que a intenção é boa. Só que de intenções…

Estamos vendo com isso que as pessoas não se importam com outras. jamais levantariam suas vozes pelos direitos civis, como Martin Luther King. Preferem fazer campanhas no Twitter usando os #forasarney da vida. Sabem que isso não adianta, mas os molóides não querem fazer nada mais e necessitam mostrar sua arrogância ao pensar consigo: fiz a minha parte.

Fico pensando se eu não sou assim também, mas não sei. Espero que não. De qualquer forma, não preciso dizer o que já fiz ou não fiz na vida. Mas com certeza não entro nesse time de adotar crianças fantasmas de redes sociais.

7 comentários em “Henio Zytomirski e a banalidade da Internet

  1. O ser humano faz mesmo coisas bizarras. É só olhar o caso da Isabela. Tinha gente querendo linchar os reus se estes fossem absolvidos.

    Fora isso, sempre tinha um desocupado lá em frente o fórum. As pessoas gostam de assistir a desgraça alheia, infelizmente.

  2. E as pessoas que tentam levantar suas vozes e fazer algo de verdade são tachado de malandro, vag*, entre outras coisas.

  3. Colocar o garoto com um perfil no Facebook até seria uma idéia boa se as pessoas que ali frequentam realmente se importassem com alguma coisa além de seus próprios umbigos. Quando eu tinha Orkut, via amigos meus fazendo parte de comunidades que, a princípio, tinham um certo peso ideológico, mas que no fundo (justamente por conhecê-los) sabia que estavam cagando e andando para aquilo.

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