Ladrão pede desculpas à divindade antes de assaltar a divindade

Diz a sabedoria popular que quem tem, tem medo. Mas há uma classe de pessoas que, apesar do medo, insiste em fazer merda. Chamamos isso de bandidos. Vagabundo sabe que tá fazendo merda, e mesmo assim insiste, como é o caso de dois ladrõezinhos toscos (o pior tipo de ladrão) que entraram de madrugada num templo com a intenção de arrombar as caixas de doação e fugir com o dinheiro.

MAS CALMA LÁ! Melhor não dar mole pras divindades ou a coisa degringola. Assim, eles levam as mãos às orelhas num gesto tradicional de contrição hindu (aquele que normalmente se faz ao pedir desculpas por alguma merda que fez ou estar prestes a fazer.

Mas aquele dinheirinho dando sopa…

O episódio aconteceu nos templos de Sheetla Mata e Shiv, na área de Maldhakka, em Lakadganj, bairros da cidade de Nagpur. O zelador, Jitendra Pandey, trancou tudo na noite de 27 de julho e foi dormir tranquilo, como qualquer um faria confiando que o Divino cuidaria do plantão noturno. Na manhã seguinte encontrou o cadeado do portão principal arrebentado e, ao entrar, descobriu que as duas caixas de doação também tinham sido violadas. O caixa eletrônico da fé, esvaziado.

Os meganhas de Shiva, ao revisar as imagens, encontraram a cereja do bolo: antes do arrombamento, os suspeitos pararam para o ritual de desculpas. Um gesto que, convenhamos, exige uma engenharia moral notável. É como assaltar um banco depois de deixar um bilhete educado no caixa eletrônico avisando que “nada pessoal, só preciso de um dinheirinho para apostar na Bet ”. Ou como um vampiro que bate à porta e pede permissão antes de entrar, só que aqui quem foi consultado não tinha como recusar.

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Do ponto de vista teológico, o momento é fascinante. Estamos diante de uma negociação espiritual em tempo real: o crime está prestes a acontecer, mas antes disso é preciso resolver as contas com a divindade, quase como quem paga o pedágio antes de entrar na rodovia do pecado.

De minha parte, há algo de profundamente humano nisso, a mesma lógica que leva alguém a rezar por um bom resultado no exame que não estudou, ou a prometer “só essa última fatia de pizza e amanhã começo a dieta”. A diferença é que aqui a barganha envolveu arrombamento de fechadura e fuga com o dinheiro dos fiéis, o que sugere um sistema de crenças em que Deus é entendido menos como juiz supremo e mais como um sócio que precisa ser avisado, por cortesia, antes de uma decisão unilateral sobre o caixa.

A polícia de Lakadganj abriu inquérito e está analisando as imagens para identificar os dois suspeitos, que até agora seguem tão anônimos quanto piedosos. O caso já rendeu manchetes e memes na região, o que é compreensível: não é todo dia que se vê alguém observar rigorosamente a etiqueta religiosa e o Código Penal ao mesmo tempo, ainda que apenas o primeiro tenha sido, de fato, respeitado.

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