
Em 2007, uma mulher morreu. Morreu como tantas mulheres morrem na Índia rural: por causa do dote, aquele sistema medieval que o governo proibiu em 1961 e que o país continuou praticando olimpicamente como se a lei fosse apenas uma sugestão bem-intencionada, mas digna de piada. O marido foi indiciado, como já era de se esperar, só que as joias da vítima, um anel, um brinco de nariz, pulseiras e um colar, foram recolhidas como prova e depositadas no almoxarifado da delegacia de Kotwali Sadar, no distrito de Lakhimpur, em Uttar Pradesh. Ali ficariam guardadas enquanto a Justiça seguia seu curso lento e inexorável. Dezessete anos depois, o marido foi absolvido e a família foi buscar as joias. A resposta que recebeu era de se emoldurar: um macaco havia levado tudo.
Macaqueando com o meu shithole favorito, esta é a sua SEXTA INSANA!
Esta maravilha de caso foi trazida até nós pelo India Today (leio todos os dias. Sério!), e é tecnicamente sobre o desaparecimento de propriedade mantida sob custódia dos discípulos do Singham. Na prática, é um relicário do absurdo burocrático indiano, com todas as suas camadas de incompetência, possível (cof cof cof) corrupção, contradições documentais e a criatividade narrativa que só instituições com imunidade histórica conseguem produzir sem pestanejar.
A versão oficial, apresentada à Corte Distrital de Lakhimpur quando a família foi resgatar os pertences da morta, foi a seguinte: em 2013, seis anos após o depósito das joias, chuva intensa molhou o pacote de tecido onde estavam guardadas. Um funcionário responsável (cof cof cof), cujo nome mudaria conforme a versão consultada, tomou a decisão logisticamente razoável de colocar o embrulho no telhado para secar. Enquanto estava lá, macacos o encontraram, danificaram o pacote e espalharam o conteúdo; O ouro sumiu e ninguém viu nada, ninguém foi responsabilizado. E claro você fá fazendo cara de “Aham, claro, claro”.
A entrada no diário policial de 17 de setembro de 2013 registrou, com a solenidade de quem anota o clima, que embrulhos de post-mortem ali armazenados desde o início dos anos 2000 haviam sido levados para o terraço após inspeção de um Inspetor-Geral Zonal e em seguida danificados e dispersos por macacos.
Por algum motivo que me escapa, o tribunal não ficou impressionado.
Em julho de 2024, o juiz emitiu uma ordem que poderia ser lida tanto como decisão judicial quanto como exercício de ironia finamente calibrada. O magistrado anotou, para o registro histórico, que ouro não se danifica com água, e que não haveria justificativa plausível para colocar joias de ouro no telhado de uma delegacia para secar. Que o almoxarifado em questão continha não apenas as joias da vítima, mas evidências de outros casos graves, todos igualmente expostos à fauna urbana. Que a explicação era, para usar o eufemismo judicial, problemática, enquanto eu aqui tenho plena consciência do estado mental do meritíssimo enquanto escrevia isso se controlando para não entremear “sério mesmo que você acha que eu sou babaca prá acreditar nessa merda?”.
O tribunal ordenou ao Superintendente dos meganhas de Shiva que investigasse se houve conspiração deliberada por parte de funcionários para remover joias e outros bens valiosos do almoxarifado, além de possível adulteração de registros para ocultar o crime. Também determinou compensação à família pela perda. Eu sei que você vai continuar lendo, mas já sabe aonde isso vai dar.
Dois anos depois, em junho de 2026, os meganhas de Shiva de Lakhimpur responderam ao tribunal com aquela que pode ser chamada de a solução mais concisa já encontrada para uma investigação inconveniente: um comunicado à imprensa informando que os dois funcionários identificados como responsáveis pelo almoxarifado entre 2007 e 2009, Chandrika Prasad e Rambaksh Pal, estavam mortos. Chandrika Prasad morreu em 2009, no mesmo ano em que teoricamente ainda estava no cargo. Rambaksh Pal morreu em data não especificada, porque datas de óbito são para quem tem tempo a perder. Com os responsáveis mortos e os macacos foragidos, a investigação foi declarada impossível. Caso encerrado. Arquivem.
Haveria um problema menor com essa solução. Os nomes citados no comunicado policial NÃO CORRESPONDEM aos nomes mencionados nos registros do próprio tribunal em 2024. O relatório submetido ao juiz na época identificava quatro ex-responsáveis pelo almoxarifado: Molheram, Ramakant Tiwari, Mewaram e Ishwar Dayal. Destes, apenas Ishwar Dayal havia morrido. Os outros três estavam, presume-se, disponíveis para depor. A polícia ignorou todos eles e apresentou dois nomes inteiramente novos, ambos convenientemente falecidos. É o tipo de inconsistência que, num sistema funcional, geraria uma investigação sobre a investigação. Em Uttar Pradesh, gerou uma notinha de comunicado à imprensa.
O advogado da família, Shailendra Gaud, resumiu a situação com a concisão de quem já perdeu a esperança na elegância: “Os nomes são diferentes, a história muda, e agora afirmam que o responsável pelo almoxarifado está morto. É claro que a polícia está tentando esconder ou proteger quem roubou as joias.” Gaud acrescentou que nem o relatório de encerramento constava dos registros judiciais até o momento da reportagem, sugerindo que a polícia havia anunciado publicamente o arquivamento antes de formalizar o ato processualmente. Um detalhe, claro.
A moral desta história imoral poderia ser escrita pelo próprio Diógenes, que saiu à rua com uma lanterna à procura de um homem honesto e, ao que consta, não encontrou. Em Lakhimpur, alguém saiu à procura das joias de uma mulher morta em circunstâncias violentas e encontrou: uma história sobre chuva, um telhado, macacos facínoras, dois nomes que não batem com o processo e a informação de que os responsáveis tinham, obsequiosamente, morrido.
Dezessete anos, uma absolvição, um tribunal indignado, dois advogados furiosos, pedidos de investigação federal e, ao final, a família sem as joias, sem compensação e sem justiça. Até o fim dessa reportagem, o macaco não foi encontrado para dar declarações. Seguimos no aguardo.
