
O Reiuno Unido recebe cerca de 37 a 38 milhões de turistas internacionais por ano.Claro, quem passa por Londres não deixa de passar pela Torre de Londres, e muitos que passaram por Londres no passado iam parar na Torre, mas contra a vontade. Acontece que a Torre tem um quê de pitoresco que as pessoas normalmente não sabem. Há uma pergunta que os guias turísticos da Torre de Londres deum modo geral não fazem, mas que merece ser feita: o que você faria se soubesse que, por mais de seiscentos anos, aquele complexo de pedra e terror que serviu de prisão, palácio e depósito das joias da Coroa também funcionou como zoológico?
A resposta correta é perguntar se os animais tinham celas melhores que os presos humanos. A resposta provável é que sim.
A história começa de forma discreta. Há registros de pagamentos a tratadores de leões durante o reinado do Rei John Lackland (significa realmente “João Sem Terra”), por volta de 1210, o que sugere que a Menagerie Real existia em escala modesta antes mesmo de ganhar fama. Menagerie não tem nada de cunho sexual; vindo do francês “ménagerie” (e tudo em francês soa como sacanagem), que significa casa de feras ou zoológico, menagerie é tão-somente uma coleção de animais exóticos mantida por monarcas. Ou seja, um zoo, é lógico.
Tudo muito bem, tudo muito legal, foi o filho de João Sem Terra, Henrique III, quem a transformou em algo mais ambicioso. Em 1235, o Imperador do Sacro Império Romano (a principal potência política da Europa continental na Idade Média), Frederico II, presenteou o monarca inglês com três “leopardos” (bichos, não esses aí que você pensou, seu pervo!), que provavelmente eram leões, mas a heráldica medieval tinha suas próprias ideias sobre taxonomia, e ninguém ia discutir nomenclatura com o Imperador.
A partir dali, a coleção cresceu com a lógica particular da diplomacia medieval: animais exóticos eram moeda de prestígio entre soberanos, e recusar um elefante africano era tão inadequado quanto devolver um embaixador. Em 1252, o Rei da Noruega enviou um urso polar magnífico, acompanhado de um tratador. O animal era mantido preso por uma corrente longa o suficiente para nadar e pescar por conta própria no Rio Tâmisa, o que transformava a travessia da ponte numa experiência que os londrinos do século XIII certamente não esperavam ter.
Em 1255 chegou o elefante africano, presente do Rei Luís IX da França. Era o primeiro elefante em solo inglês desde que o Imperador Cláudio trouxe alguns para a conquista romana da Bretanha, em 43 E.C. A chegada causou uma sensação tal que o monge beneditino – Mateus de Paris – saiu do mosteiro de St. Albans especialmente para vê-lo, produzindo um dos primeiros retratos naturalistas de um elefante na história europeia.

Mateus registrou, com a admiração cuidadosa de quem descreve um alienígena, que a criatura tinha “olhos pequenos no topo da cabeça e come e bebe com uma tromba.” O animal morreu em 1257. Mateus de Paris, fiel ao espírito da época, atribuiu parte da culpa ao vinho tinto que lhe era regularmente oferecido; historiadores modernos acrescentam à equação o clima inglês pouco caridoso e uma alimentação cronicamente inadequada por parte de tratadores que, em sua maioria, não faziam a menor ideia do que estavam fazendo. A combinação dos três fatores é a hipótese mais razoável, ainda que o vinho tenha mais apelo narrativo.
O problema dos tratadores despreparados era sistêmico. A Lion Tower, barbacã (estrutura defensiva avançada, espécie de ante-portão) semicircular construída por Eduardo I por volta de 1275 na entrada ocidental da Torre, tornou-se a sede permanente da coleção. Os animais eram alojados em jaulas de madeira dispostas em dois andares ao longo da face interna da torre, com os espaços de um leão chegando a meros dois metros por três. Um macaco sumatrense visto em 1725 por um visitante suíço “parecia sofrer do frio” e morreu seis semanas depois. Em 1828, um pássaro-secretário enfiou a cabeça na jaula de uma hiena e descobriu que havia cometido um erro estratégico grave. Ao longo dos séculos, a coleção incluiu leões, tigres, leopardos, linces, camelos, hienas, ursos pardos, chacais, avestruzes, macacos, águias, corujas e, em algum momento, crocodilos. Não por falta de variedade, portanto, que os animais morriam.
No século XVIII, a Menagerie foi aberta ao público com ingresso de três meios-pences ou, alternativamente, um cão ou gato vivo para ser oferecido como refeição aos leões. É o único caso registrado na história do entretenimento em que o bilhete podia ser trocado por alimento que tinha nome antes. Em 1686, uma visitante chamada Mary Jenkinson morreu após tentar afagar a pata de um leão, o que não foi exatamente uma surpresa para ninguém exceto para Mary Jenkinson.
No início do século XIX, a coleção estava em franco declínio. Em 1822, restavam apenas quatro leões, uma pantera, um leopardo, um urso-pardo e um tigre. A chegada do novo tratador-chefe Alfred Cops reverteu temporariamente a situação: em poucos anos, ele acumulou quase trezentos animais representando sessenta espécies e transformou a Menagerie numa atração popular novamente. Mas o contexto estava mudando.
A Zoological Society of London havia sido fundada em 1826, o Duque de Wellington assumira a Condestablia (cargo de comandante supremo da Torre, equivalente a um governador militar) com a convicção de que uma fortaleza real não era lugar para touros e cobras, e em 1830 um leão e dois tigres foram acidentalmente colocados na mesma jaula, com resultados previsíveis e fatais para o leão. No mesmo período, lobos invadiram o apartamento de um tratador, forçando sua família a fugir, e um macaco atacou um guarda. Cada incidente alimentava a pressão para o encerramento.
Em 1831, a maior parte dos animais foi transferida para o recém-fundado Zoológico de Londres, no Regent’s Park. Cops continuou exibindo sua própria coleção particular na Lion Tower até 28 de agosto de 1835, quando o público visitou o local pela última vez. Os animais restantes foram vendidos ao empresário americano Benjamin Franklin Brown. A Lion Tower foi demolida anos depois, em 1852, mas somente porque Cops, que tinha o direito vitalício de habitar o local, morreu em 1853.
Seiscentos anos de zoológico real dentro de uma prisão, encerrados não com um decreto solene, mas com um macaco que resolveu atacar um soldado. Em 2010, o Historic Royal Palaces encomendou à artista Kendra Haste treze esculturas em arame galvanizado representando animais da antiga coleção, hoje espalhadas pelos pátios da Torre. São os herdeiros improváveis de uma tradição que combinou poder imperial, diplomacia exótica e uma negligência animal que o século XIX finalmente decidiu que tinha limites.
O elefante que morreu de vinho, frio e descaso ainda tem representantes metálicos rondando os mesmos muros. É uma homenagem. É também, a depender do ângulo, uma confissão.
