Químicos sumérios já faziam o melhor que químicos fazem: inventaram o futuro

Uma das maiores inovações tecnológicas trazidas pela indústria do petróleo foi o asfalto. O asfalto é tão onipresente que virou sinônimo de modernidade urbana, de progresso industrial, de engenharia do século XX. Algo bem recente na História da Civilização, certo? Bem, não é bem assim. Os sumérios da Mesopotâmia já dominavam a lógica por trás dele há mais de quatro mil anos. Sem laboratório moderno, sem espectrômetro e, presumivelmente, sem nenhum PowerPoint de apresentação para a diretoria. Só observação, repetição e um conhecimento acumulado que atravessou gerações de artesãos em algum canto quente e úmido do que hoje é o sul do Iraque.

Um novo estudo analisou 59 amostras de materiais à base de betume recuperadas de Abu Tbeirah, um assentamento do terceiro milênio A.E.C. localizado próximo à famosa cidade de Ur. O que os pesquisadores encontraram não foi improviso primitivo: foi engenharia sistemática, com receitas distintas para usos distintos, aplicadas com uma consistência que a ciência descreve, sem exagero, como “tecnológica”.

A drª Valentina Caruso, pesquisadora vinculada ao Museo Storico della Fisica e Centro Studi e Ricerche “Enrico Fermi” (CREF) e ao Dipartimento di Studi Umanistici da Università degli Studi di Roma Tre. O CREF é um centro de pesquisa sediado na histórica palazzina de Via Panisperna, em Roma, onde Enrico Fermi e os famosos “ragazzi” conduziram experimentos fundamentais sobre a radioatividade de nêutrons nos anos 1930. Caruso integra o projeto SLOW SUMER (Sumer de “suméria” e não “verão” escrito errado), que reúne arqueólogos, físicos e químicos da Sapienza, do CREF e de instituições iraquianas para investigar precisamente as práticas de reparo, reutilização e reciclagem no período mesopotâmico. É a síntese perfeita da casa: Fermi encontra Gilgamesh, e o resultado é ciência de primeira linha.

Antes, porém, de mergulhar nas receitas, vale desfazer um equívoco geográfico que atrapalha a nossa imaginação. Quando se fala em Mesopotâmia, o cérebro imediatamente convoca imagens de deserto ressequido, dunas e camelos do deserto iraquiano, mas é conveniente lembrar que a palavra “Mesopotâmia” significa “terra entre os rios”, a região entre os rios Tigre (que ainda está lá) e Eufrates (que já subiu no telhado e não está mais entre nós). Ao sul da região, havia um labirinto de canais, pântanos, lagoas e planícies de inundação.

Os pesquisadores que escavam Abu Tbeirah confirmaram que o sítio se desenvolveu ao longo de um canal sinuoso em um ambiente de planície aluvial e brejos, com vários braços fluviais irradiando ao redor do tell (um morro feito pelo Homem) como raios de uma roda. Era, em suma, uma Veneza suméria: feia na fotografia de satélite, prodigiosamente viva no cotidiano. Só nos últimos quatro mil anos é que o clima se encarregou de transformar aquela terra fértil e pantanosa no deserto que hoje espreita pelas janelas dos jornais de guerra.

E foi exatamente nesse cenário encharcado que o betume se tornava, literalmente, indispensável. A substância, um derivado natural do petróleo que aflorava espontaneamente no solo da região, estava por toda parte. Era nesse período que reinava Ur-Namma (c. 2112-2095 A.E.C.), fundador da Terceira Dinastia de Ur, o monarca que unificou o sul da Mesopotâmia, promulgou o mais antigo código de leis conhecido da história e iniciou a construção do Grande Zigurate de Ur. Seu filho e sucessor Shulgi levaria esse projeto civilizatório adiante por 48 anos de reinado, padronizando pesos e medidas, reformando as escolas de escribas e construindo estradas que conectavam as cidades do reino. É no espaço desse império organizado e comercialmente ativo que Abu Tbeirah (como é chamado hoje) funcionava como porto e polo produtor, e que o betume adquiria o status de matéria-prima estratégica.

O porto do que hoje é Abu Tbeirah tinha cerca de 130 metros de comprimento por 40 de largura. Sem betume, os barcos afundavam, a economia parava e o comércio entre cidades interligadas pelos canais entrava em colapso. Aquela rede de vias navegáveis era o equivalente funcional das nossas rodovias: escoava grãos, metais, têxteis, cerâmicas e, claro, o próprio betume em blocos padronizados. As tábuas cuneiformes distinguiam até mesmo entre betume sólido e líquido, provavelmente correspondendo a diferentes aplicações e modos de transporte, o que indica que havia vocabulário especializado para um material especializado. Havia, em outras palavras, nota fiscal, logística e controle de qualidade.

O problema, claro, é que betume bruto tem temperamento difícil. Amolece demais no calor, racha no frio, gruda na hora errada. A solução dos químicos sumérios (com eles a oração e a paz) foi engenheirar o material, e foi exatamente o nível de precisão e sistematicidade dessa técnica que a nova pesquisa revelou. Usando microscopia digital de alta resolução combinada com análise de imagem assistida por aprendizado de máquina, os pesquisadores examinaram a mesoestrutura interna dos materiais sem danificar nenhum dos artefatos. A abordagem é a mesma usada modernamente na engenharia de pavimentação. O resultado foi a identificação de quatro grupos funcionais distintos, cada um com uma formulação específica:

  1. Adesivos para ferramentas. O betume usado para fixar lâminas de sílex em foices agrícolas continha abundantes fibras vegetais e quantidade mínima de minerais. As fibras funcionavam como reforço estrutural, aumentando a flexibilidade do adesivo e impedindo que ele rachasse sob o esforço repetitivo de cada puxada de colheita. Era, em termos modernos, uma cola reforçada com fibra, o tipo de coisa que hoje encontramos em adesivos industriais de alta performance.
  2. Lingotes padronizados para o comércio. Blocos retangulares, provavelmente usados para armazenamento ou troca, apresentavam composição notavelmente consistente, com presença sistemática tanto de materiais vegetais quanto inorgânicos. Esses lingotes podem ter funcionado como produtos semiacabados: transportados entre cidades e depois reaquecidos e modificados conforme a necessidade local. Sua uniformidade sugere produção padronizada e, muito provavelmente, oficinas especializadas.
  3. Objetos esféricos. Antes misteriosas esferas de betume revelaram, pela análise microscópica, estrutura interna altamente homogênea e rica em inclusões minerais. Os pesquisadores sugerem que se tratava de reservas compactas de betume já processado, sobras moldadas em formas convenientes para reutilização posterior. O estoque da matéria-prima, organizado com praticidade admirável.
  4. Selantes e impermeabilizantes. Amostras associadas a estruturas de palha e recipientes apresentavam combinações equilibradas de aditivos vegetais e minerais. Essa mistura otimizava a impermeabilização sem sacrificar a durabilidade, algo absolutamente crítico nas paisagens pantanosas do sul da Mesopotâmia, onde a distinção entre o que está dentro e o que está fora d’água era, literalmente, uma questão de sobrevivência.

O estudo também revelou evidências de reciclagem sistemática que merecem atenção particular. O betume era caro demais para ser desperdiçado, pois, frequentemente precisava ser transportado a longas distâncias dos afloramentos naturais. Registros arqueológicos e textuais sugerem que era recuperado de ferramentas quebradas, barcos desmontados e resíduos de produção. O reaquecimento repetido, porém, deixava marcas microscópicas no material e, além de certo número de ciclos, tornava o composto quebradiço. A solução? Ajustar a receita: mais fibras, mais minerais, para compensar a degradação. Era gestão de recurso com feedback corretivo. Era, guardadas as proporções históricas e sem romantizar demais, uma economia circular funcionando quatro mil anos antes de o conceito virar pauta de relatório de sustentabilidade corporativa.

E aqui mora uma das ironias mais elegantes da história da tecnologia: os paralelos com a engenharia asfáltica moderna não são metafóricos, são estruturais. Hoje, químicos (com eles a oração e a paz) acrescentam celulose, cânhamo ou fibras sintéticas ao asfalto para aumentar a resistência a fissuras. Usam calcário em pó para regular viscosidade e durabilidade. Os sumérios fizeram exatamente isso, com os materiais disponíveis em seu entorno, chegando às mesmas soluções por lógica empírica pura. É o que os cientistas chamam de convergência tecnológica: duas civilizações separadas por milênios descobrindo, de forma independente, que a resposta para o mesmo problema é a mesma.

O que a pesquisa desfaz, com uma elegância seca, é o estereótipo do passado como lugar de improviso inevitável. A ideia de que as sociedades antigas simplesmente “se viravam” com o que tinham, de forma intuitiva e assistemática, não sobrevive ao escrutínio de 59 amostras analisadas com microscopia computacional. O que se vê em Abu Tbeirah é especialização técnica, padronização produtiva e transferência intergeracional de conhecimento. Alguém ensinou alguém, que ensinou alguém, que refinou a receita, que funcionou melhor, que virou o padrão. Isso tem um nome: ciência aplicada. Só não tinha esse nome ainda. E o asfalto que você pisa hoje, quatro mil anos depois, continua seguindo a mesma lógica que eles descobriram às margens de um pântano que o tempo transformou em deserto.

Obrigado químicos da atualidade. Obrigado químicos de antigamente.

A pesquisa foi publicada no periódico Journal of Archaeological Science

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