
Existe um prazer perverso em descobrir que você estava errado sobre algo durante décadas. É como encontrar dinheiro no bolso de uma calça velha, só que em vez de dinheiro são dados de radar coletados há mais de 30 anos. E é exatamente isso que aconteceu com Vênus, nosso vizinho infernal que insiste em nos surpreender mesmo depois de tanto tempo sendo ignorado como um caso perdido de planeta geologicamente morto.
Um grupo de cientistas italianos da Universidade de Trento acaba de anunciar que identificou o que aparenta ser apenas o segundo tubo de lava já relatado em Vênus, uma estrutura subterrânea gigantesca esculpida por atividade vulcânica que pode se estender por dezenas de quilômetros sob a superfície do planeta.
O dr. Lorenzo Bruzzone é professor titular de Telecomunicações e diretor do Laboratório de Sensoriamento Remoto no Departamento de Engenharia da Informação e Ciência da Computação da Universidade de Trento, na Itália. De acordo com a sua biografia, a sua carreira tem sido dedicada ao desenvolvimento de técnicas inovadoras de análise de dados de radar para exploração planetária ZZZZzzzZZZzzz vamos prosseguir antes que eu durma.
Bruzzone é particularmente conhecido por seu trabalho no desenvolvimento de instrumentos de radar para missões futuras, incluindo o Subsurface Radar Sounder da missão EnVision a Vênus e instrumentos similares para a missão JUICE às luas geladas de Júpiter, e sua descoberta foi feita analisando imagens de radar da missão Magellan, da NASA, que mapeou Vênus entre 1990 e 1992.
É, pois, é! Os dados de três décadas atrás ainda estão rendendo revelações científicas. É como se alguém tivesse encontrado um capítulo inédito de Shakespeare numa cópia usada comprada num sebo.
A coisa funciona assim: Vênus é permanentemente coberta por nuvens densas que bloqueiam completamente a visão da superfície, o que significa que câmeras convencionais são tão úteis quanto um isqueiro debaixo d’água. Por isso, a Magellan foi equipada com um sistema de radar de abertura sintética que consegue penetrar essa cortina de nuvens e mapear o terreno enviando pulsos de ondas de rádio e medindo quanto tempo levam para voltar.
Entre 1990 e 1992, a sonda completou seis ciclos de mapeamento (cada ciclo durava 243 dias, o tempo que Vênus leva para dar uma volta completa em torno de si mesma), acabando por cobrir incríveis 98% da superfície do planeta com resolução de cerca de 100 metros. Foi uma façanha extraordinária que gerou um arquivo gigantesco de imagens que os cientistas continuam analisando até hoje.
Lorenzo Bruzzone e sua equipe da Universidade de Trento decidiram vasculhar esses dados antigos procurando por colapsos localizados da superfície, aqueles buracos circulares que aparecem quando o teto de uma estrutura subterrânea desaba. Esses “claraboias” (skylights, no jargão técnico) são a única forma de detectar tubos de lava em planetas onde não podemos simplesmente descer e explorar pessoalmente. E eles encontraram algo fascinante no flanco oeste de Nyx Mons, um dos 1.600 vulcões principais de Vênus (que, aliás, tem quase um milhão de vulcões menores espalhados pela superfície, porque aparentemente o planeta decidiu exagerar no departamento vulcânico).
O padrão de radar detectado corresponde exatamente às assinaturas conhecidas de tetos colapsados de tubos de lava. A análise sugere que o conduto tem cerca de um quilômetro de diâmetro, um teto com pelo menos 150 metros de espessura e uma cavidade vazia com no mínimo 375 metros de altura. Para colocar em perspectiva: isso é maior e mais alto que a maioria dos tubos de lava terrestres. E a análise do terreno ao redor sugere que essa estrutura pode se estender por pelo menos 45 quilômetros no subsolo venusiano, embora apenas a porção próxima à claraboia possa ser confirmada com os dados disponíveis.
Aqui vale um parêntese sobre tubos de lava, porque são estruturas fascinantes que existem na Terra, na Lua, em Marte e, agora confirmadamente, em Vênus. Eles se formam quando lava fluida escorre por um terreno inclinado e a superfície do fluxo esfria e endurece enquanto o interior continua quente e líquido. Com o tempo, a lava que ainda está fluindo vai cavando um túnel por baixo dessa crosta solidificada. Quando a erupção termina e o suprimento de lava seca, o que sobra é um túnel oco, uma espécie de metrô natural esculpido pelo fogo.
A descoberta é particularmente importante porque desafia a visão tradicional de Vênus como um mundo geologicamente inerte. Durante muito tempo, os cientistas acharam que o planeta havia passado por uma espécie de ressurgimento global há cerca de 800 milhões de anos, quando toda a superfície foi renovada por atividade vulcânica massiva, e desde então estava basicamente dormindo. Mas evidências recentes, incluindo esta, sugerem que Vênus pode ser vulcanicamente ativo ainda hoje. A identificação de tubos de lava intactos adiciona mais uma peça a esse quebra-cabeça geológico.
A próxima geração de missões a Vênus promete confirmar e expandir essas descobertas. A missão EnVision, da Agência Espacial Europeia, deve ser lançada em 2031 e carregará um instrumento chamado Subsurface Radar Sounder (SRS) capaz de penetrar a superfície venusiana até várias centenas de metros de profundidade. Esse radar poderá detectar condutos subterrâneos mesmo quando não há aberturas na superfície, algo que os dados da Magellan não conseguem fazer. A NASA também planeja a missão VERITAS, que carregará sistemas de radar avançados capazes de capturar imagens de resolução muito mais alta.
Por enquanto, o que temos é esta descoberta maravilhosa nascida da perseverança científica e da ideia simples de que vale a pena olhar novamente para dados antigos com olhos novos e técnicas aprimoradas. A Magellan terminou sua missão em 1994, quando foi deliberadamente mergulhada na atmosfera venusiana após mais de 15.000 órbitas ao redor do planeta. Mas os dados que ela coletou continuam vivos, esperando para revelar segredos que nem mesmo os engenheiros e cientistas que planejaram a missão imaginavam estar lá. É um lembrete elegante de que em ciência, como na vida, às vezes as melhores descobertas vêm de revisitar o que achávamos que já conhecíamos.
A pesquisa foi publicada no periódico Nature Communications.
