O assalto que revolucionou a Psicologia

Existe um momento mágico na vida de todo policial: aquele instante em que levanta uma das sobrancelhas e se pergunta “É sério isso?”. Foi mais ou menos isso o que aconteceu com a polícia de Pittsburgh, na Pensilvânia, em 6 de janeiro de 1995. Naquele dia, dois homens roubaram o Mellon Bank na agência de Swissvale (de onde levaram US$ 5.200 às 14h47min) e o Fidelity Savings Bank no bairro de Brighton Heights, achando que estavam encenando “11 Homens e Um Segredo”, mas com serias restrições orçamentárias.

A dinâmica do assalto foi simples: um deles fazia papel de vigia na fila enquanto o outro apontava uma arma para o caixa, pegavam alguns milhares de dólares e ambos picavam a mula. Nada de sofisticação hollywoodiana, nada de disfarces elaborados. Aliás, nada de disfarce algum!

A polícia não conseguia acreditar naquilo, mas os funcionários dos bancos confirmaram: os rostos dos dois estavam claramente visíveis. Nada de meias-calças na cabeça, óculos escuros, bigodes postiços, perucas ou maquiagem. Os dois idiotas fizeram questão, inclusive, de olhar diretamente para as câmeras de segurança e sorrir. Tipo aquela foto de perfil do LinkedIn que você tira achando que está arrasando, só que no contexto de um crime federal.

Alguns dias depois do assalto, em 12 de janeiro, a polícia prendeu Clifton Earl Johnson, que já era procurado por outros dois roubos do ano anterior. Quando confrontado, Johnson admitiu ser o vigia sorridente. Pronto, fácil assim! O raciocínio policial era lógico: se o cara não usou disfarce, encontrar o parceiro deveria ser moleza, mas meses se passaram sem novidades. Até que, em 19 de abril, a polícia soltou a foto do pistoleiro no Pittsburgh Crime Stoppers, aquele quadro de “procura-se” da TV local.

Na noite seguinte, 20 de abril de 1995, quase quatro meses após o crime, McArthur Wheeler estava vendo Benjamin Franklin nascer quadrado. Quando mostraram a Wheeler as imagens de vigilância nas quais ele estava claramente identificável roubando um banco com uma arma na mão, a reação não foi de resignação ou negação. Foi de pura confusão e desespero existencial. “Mas eu passei o suco de limão! Eu passei o suco de limão no rosto!”, protestou Wheeler. E nesse momento, senhoras e senhores, a história deixa de ser sobre um assalto mal planejado e se transforma em algo que faria Kafka rir de nervoso.

Os policiais ficaram tão confusos ao ouvirem isso quanto Wheeler estava confuso sobre como foi apanhado. Wheeler explicou que Johnson o havia convencido de um plano genial para roubar bancos e sair impunes. O segredo? Suco de limão! Você se lembra daquela brincadeira de infância com tinta invisível feita de limão que, quando você esquenta o papel, revela a mensagem secreta? Pois bem, Clifton Johnson se lembrava também, só que se lembrava muito mal. De alguma forma retorcida da realidade, Johnson chegou à conclusão de que, assim como o suco de limão podia escrever mensagens invisíveis, ele também seria indetectável em filmagens de câmeras de segurança. Basicamente, aquele imbecil acreditava que era impossível fotografar suco de limão.

Pausa. Eu realmente queria ver a cara dos detetives ao ouvirem esta história! Devem ter pensado algo como “o sujeito só pode estar nos sacaneando!” Bem, ele não estava.

Wheeler contou aos meganhas que ele inicialmente não acreditou em Johnson, o que demonstra pelo menos um lampejo de bom senso, mas aí Johnson propôs um teste científico rigoroso: Wheeler passou suco de limão no rosto e tirou uma Polaroid de si mesmo. O resultado? Ele não apareceu na foto. Pronto, ciência comprovada! Estava na hora de roubar bancos com a cara lambuzada de cítricos.

A polícia nunca conseguiu explicar direito como o experimento da Polaroid deu “certo”, mas as teorias variam entre Wheeler ter usado um filme ruim ou câmera mal ajustada, ter feito uma tremenda besteira com o enquadramento, ou o fato de que o limão ardia tanto nos olhos que ele simplesmente não estava enxergando direito. Neste ponto da narrativa, essa última hipótese já não é exatamente uma teoria, é praticamente um fato científico estabelecido.

No tribunal, Johnson testemunhou contra Wheeler e pegou cinco anos de prisão. Wheeler ganhou 24 anos para refletir sobre as propriedades ópticas substâncias derivadas do ácido cítrico.

Mas calma! A coisa ganha outra dimensão a partir de agora!

Alguns anos depois, um psicólogo social chamado David Dunning estava lendo sobre a história dos assaltantes do limão (que havia sido publicada no World Almanac de 1996 e virado notícia no Pittsburgh Post-Gazette) e teve uma epifania: “Se Wheeler era burro demais para ser assaltante de banco, talvez ele também fosse burro demais para saber que era burro demais para ser assaltante de banco. Ou seja, a burrice dele o protegia da consciência da própria burrice”. Junto com seu aluno de pós-graduação Justin Kruger, Dunning escreveu em 1999 um paper com o título deliciosamente acadêmico: “Unskilled and Unaware of It: How Difficulties in Recognizing One’s Own Incompetence Lead to Inflated Self-Assessments” (Inábeis e Inconscientes Disso: Como Dificuldades em Reconhecer a Própria Incompetência Levam a Auto-Avaliações Infladas), publicado no Journal of Personality and Social Psychology.

A ideia central é aquela situação em que você não sabe nem o suficiente para saber o quanto não sabe. Uma espécie de Sócrates às avessas, já que o filósofo sabia que não sabia de nada, e os dois imbecis sequer sabiam que não sabiam nada, o que fazia com que eles soubessem menos ainda e tivessem confiança que eles sabiam alguma coisa, sendo que não era o caso.

Entendeu? Bem, vai um exemplo.

Suponha que você seja um imbecil e não tenha consciência disso, daí resolve discutir com alguém na Internet. Esse alguém posta algo como, sei lá, que Jesus (o da Bíblia, conforme os evangelhos descrevem) não tem nenhuma comprovação documental, nenhuma evidência escrita. Aí você diz que ele está errado, que tem evidências, sim. Então, para sustentar a sua posição, você, cheio de confiança, procura um artigo da Internet que sustente o que está falando e confiantemente posta para a outra pessoa comprovando que há, sim, documentos históricos provando que o Jesus Bíblico realmente existiu.

O problema é que o site que você postou é justamente da pessoa com que você está debatendo, e o artigo que você apresentou não só sustenta o que você disse como refuta todas as suas bobagens. Em outras palavras, você foi idiota, não leu o texto; e se leu não entendeu. Mandou de qualquer forma, cheio de confiança, crente que estava dominando o assunto e acaba passando vergonha.

Isso se tornou conhecido como Efeito Dunning-Kruger, que você provavelmente já ouviu falar, e que demonstra que quanto mais ignorante uma pessoa tem num assunto, mais ela acaba se mostrando confiante em expor o que pensa, achando que domina algo da qual ela não faz a menor ideia, só que o estado de burrice da pessoa a impede de perceber que não sabe nada.

A parte mais assustadora dessa história toda? O comportamento de Johnson e Wheeler é considerado estupidez humana normal. Como se fosse razoável pensar que suco de limão torna coisas invisíveis para câmeras ou que você seria a primeira pessoa a ter essa ideia brilhante. E estar tão confiante nisso que você apostaria sua liberdade num assalto a banco baseado nessa teoria.

No fim das contas, McArthur Wheeler não apenas foi preso, ele involuntariamente se tornou o exemplo ilustrativo mais famoso de uma das teorias psicológicas mais citadas da História Moderna. Toda vez que alguém fala com excessiva confiança sobre um assunto que claramente não domina, toda vez que um especialista encontra um leigo que acha que entende tudo melhor, toda vez que você vê alguém na internet explicando como resolver problemas complexos com soluções simplórias, você pode agradecer a um cara que achou que limão era a solução para todos os seus problemas criminais.

A ironia suprema? Wheeler provavelmente nunca entendeu completamente como sua estupidez monumental contribuiu para a Ciência. E talvez seja exatamente isso que o Efeito Dunning-Kruger tentaria nos dizer.

Deixe um comentário, mas lembre-se que ele precisa ser aprovado para aparecer.