Vereador abriu os trabalhos na Casa Demoníaca invocando Nosso Senhor Satã

Existem dois tipos de pessoas que acordam numa quarta-feira de outubro: as que tomam café, vão pro ponto de ônibus, sobem no busão e seguem a vida, para depois chegarem em casa e se meterem em rede social. Tem os que leem Ceticismo.net e descobrem que uma câmara municipal de uma cidadeca no interior dos EUA resolveu começar o expediente pedindo a bênção do capeta. Eu, que já tomei café demais e fé de menos, não só estou no segundo grupo como ainda fui eu quem redigiu esta bagaça de artigo.

(e eu nem sei por quê. SOCORRO!!!)

A cena aconteceu em Ottumwa, Iowa, cidade de vastíssimos 25 mil habitantes, tão enorme que todo mundo conhece o dono da padaria e grande o bastante para ter uma câmara de vereadores com pauta, microfone e, ao que parece, espaço para Satã, Nosso Senhor. Faz um sentido rural: a cidade já se vendeu como capital mundial do porco, cortesia do frigorífico Morrell, e é a terra do Radar O’Reilly, o cabo de M*A*S*H que carimbava qualquer papel sem tirar o fone. Desta vez o carimbo saiu em chifres. De capital do bacon a sucursal do bode, Ottumwa só trocou o endereço do chiqueiro.

Na hora da tradicional invocação, aquele momento em que alguém pede a proteção divina antes de discutir buraco de rua e taxa de lixo, o microfone foi parar nas mãos de um servo do Senhor das Moscas chamado Matt Dalbey, ex-membro da câmara e integrante do Templo Satânico de Iowa. O Zé pediu ao “Pai Sombrio” que todos ficassem de pé, livres das amarras de doutrinas arcaicas nascidas do medo em tempos escuros. Convidou a plateia a abraçar o impulso luciferiano de comer da Árvore do Conhecimento e a abandonar as velhas ilusões reconfortantes. Fechou com um “Hail Satan!” de quem sabe que, depois dessa, o resto da pauta vai parecer café com leite.

Na íntegra, o que Matt Dalbey leu na sessão de 6 de outubro, traduzido do que se ouve na gravação oficial da câmara:


Oremos. Pai sombrio, fiquemos agora de pé, sem nos curvar e sem as amarras de doutrinas arcaicas, nascidas de mentes medrosas em tempos escuros. Abracemos o impulso luciferiano de comer da Árvore do Conhecimento e dissipemos as velhas ilusões reconfortantes. Exijamos que as pessoas sejam julgadas por seus atos concretos, não pela fidelidade a normas sociais arbitrárias e categorizações ilusórias. Raciocinemos nossas soluções com agnosticismo em todas as coisas, apegados apenas ao que for demonstravelmente verdadeiro. Firmemo-nos contra toda autoridade arbitrária que ameace a soberania pessoal de um ou de todos. O que não se curva há de quebrar, e o que a verdade pode destruir não deve ser poupado de seu fim. Está feito. Ave Satã.

Eu só fiquei vendo as tias de cabeça baixa, em reverência, enquanto eu fico imaginando o pensamento delas: “O que eu não tenho que aturar para viver às custas do Erário”. Logo depois da invocação veio o juramento à bandeira, aquele em que se jura “uma nação sob Deus”. O contraste, convenhamos, tem a elegância de um funeral que termina em pagode, se bem que não especifica QUAL deus.

Caso você tenha alguma estranheza com isso, saiba que mesmo nos EUA, que muitos acham ser um país de fanáticos cristãos, a Suprema Corte decidiu, em Marsh v. Chambers (1983) e em Town of Greece v. Galloway (2014), que orações em abertura de sessões legislativas são constitucionais, desde que a casa não discrimine quem reza.

Em português claro: se você abre a porta para o pastor, o rabino e o imã, não pode barrar o sujeito de capa preta com argumento teológico. É a velha lógica do “quem abre a porteira do bar não escolhe quem pede a saideira”. Achei mais digno que no Brasil.

O Templo Satânico, fundado em 2013, descobriu essa brecha e a usa como quem encontrou o código de trapaça de um videogame: pede para rezar, e a câmara que nega acaba num processo ou numa manchete. Já aconteceu em cidades como Phoenix, em 2016. Quem conduziu a de Ottumwa, segundo o Ottumwa Courier, foi Matt Dalbey, ex-membro da câmara e integrante do Templo Satânico de Iowa, que depois avisou que a reza não tem a ver com crença numa divindade satânica.

O roteiro, mesmo assim, é velho conhecido. E esse Satã, vale o aviso, não é o do enxofre: é o rebelde literário de Milton, que serve de bandeira para quem defende a separação entre Igreja e Estado a plenos pulmões, ou melhor, a plenos chifres.

Moral da história: quem abre a porta para todas as religiões precisa estar pronto para o dia em que aparecer a que não vem de brinde com bolo de domingo. E, se um dia você sentir que a política da sua cidade está um inferno, lembre-se de que em Ottumwa agora isso é só o item um da ata.

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