
Existe uma regra básica de sobrevivência no mundo moderno que deveria vir junto com o manual do micro-ondas: não mexa com gente que monetiza o sobrenatural. Mas o Etsy, aquela feira virtual de bugigangas fofinhas e baixa autoestima artesanal, vendendo porta-copos de crochê e quadrinhos motivacionais escritos em Comic Sans decidiu que onze anos de cumplicidade silenciosa com o ocultismo comercial eram suficientes resolveu desafiar o destino e cutucar um clã inteiro de bruxas com o equivalente corporativo a um graveto molhado.
Agora, num ataque súbito de moralidade corporativa que ninguém pediu, resolveram banir milhares de bruxas que sustentavam metade do tráfego do site. É como se a Netflix cancelasse todos os doramas e ficasse só com documentário sobre chinchilas. Genial!
O problema de gente da administração nem sempre conversa com o pessoal que faz as planilhas, ou entenderia algo de como a empresa se mantém de pé. Depois de ONZE ANOS fingindo que não via nada, o Mercado Livre de Vó teve um lampejo de puritanismo tardia e decidiu aplicar uma política de 2015 que proíbe a venda de serviços metafísicos (coloque você as interrogações). Ou seja, durante mais de uma década eles lucraram tranquilamente enquanto pessoas vendiam amarração amorosa, limpeza energética, manifestação financeira e maldição sob medida e frete grátis. Mas agora, de repente, não mais que de repente, resolveram lembrar que têm regras. É o tipo de empresa que ignora um incêndio por dez anos e depois multa o fogo por comportamento inadequado.
O problema que tem gente que usava o fogo para fazer churrasco e vender pra galera.
As chamadas “bruxas do Etsy” não eram um mero detalhe. Eram um ecossistema inteiro! Uma espécie de manguezal da feitiçaria, a Floresta Amazônica do Vudu (que é pra jacu) no qual vendiam feitiços de amor para corações desesperados, proteção espiritual para gente que tem medo até do próprio reflexo e serviços de manifestação para quem acha que o Universo funciona igual a um carrinho de compras. Tudo com avaliações cinco estrelas, depoimentos emocionados e clientes jurando que o ritual funcionou.
Então, uma talde Carol Jay percebeu que sua bruxa favorita tinha evaporado da plataforma, como um espírito cancelado por termos de serviço e xingou muito no Tik Tok. O vídeo viralizou, os comentários explodiram e a internet entrou no modo espetáculo. Teve gente chamando de “literal caça às bruxas”.
E o mais delicioso de tudo é que uma quantidade constrangedora de usuários admitiu que só mantinha o Etsy instalado por causa das bruxas. Sem elas, a plataforma volta ao seu estado natural: um catálogo infinito de artesanato superfaturado e quadros com frases do tipo “Viva, Ame, Sonhe”, perfeitos para decorar consultórios de coach.
O Etsy, claro, se defende com o discurso padrão de empresa arrependida. Diz que está protegendo consumidores vulneráveis de charlatanismo, como feitiços para emagrecer ou curar câncer. O que seria comovente se não fosse o fato de que eles assistiram a esse circo por mais de uma década, venderam ingresso, pipoca e camiseta, e só agora resolveram agir como guardiões morais do universo.
Enquanto isso, as bruxas fazem o que sempre fizeram de melhor: migram, se adaptam, abrem sites próprios, vendem direto no Instagram, atendem no whatsapp, dominam a WitchTok e – o melhor de tudo! – capitalizam em cima da indignação coletiva. São resilientes, são organizadas e, acima de tudo, sabem transformar ressentimento em renda. Darwin ficaria orgulhoso.
O Etsy, por outro lado, conseguiu a proeza de perder dinheiro, usuários, relevância (pequeníssima, frise-se) cultural e ainda arrumar inimizade com um grupo que literalmente vende maldições como serviço premium. Estratégia digna de quem acha que cutucar o oculto com um PowerPoint é uma boa ideia.
No fim das contas, fica a lição para o mundo corporativo: explorar a fé alheia é aceitável. Lucrar com ilusões é normal. Monetizar o desespero é praticamente um modelo de negócio. O erro imperdoável é fazer isso fora da política interna. Porque enganar pessoas tudo bem, mas violar os Termos de Serviço é o verdadeiro pecado mortal.
Próximo passo será o Etsy mexer com fãs da Taylor Swift, aí teremos uma hecatombe com grupos com ancinhos, tochas e facões cantando “Shake It Off”.
Fonte: Tabloide Murica Fuck Yeah!
