
Existe golpe, existe charlatanismo, existe o nível “Broadway do Estelionato” e existe a religião, um empreendimento tão lucrativo em que uma família inteira se reúne não para ceia de Natal, mas para encenar um ritual místico e trocar dinheiro vivo por fumaça teatral. Um exemplo disso é uma tia que perdeu… perdeu, não. Gastou, deu de presente R$ 250 mil acreditando que sofria de uma condição médica gravíssima chamada “coração preto”, diagnóstico feito por uma estranha num shopping, aquele templo moderno onde você vai comprar meia e sai com uma dívida emocional, um financiamento e, aparentemente, uma maldição espiritual.
O tratamento? Um pacote premium de ilusionismo barato: tambor incandescente, lençol branco, olhos fechados, fé cega e a clássica coreografia do “confie em mim enquanto eu substituo seu dinheiro por papel inútil”.
Dando cambalhotas na versão Cirque du Soleil do estelionato, esta é a sua SEXTA INSANA!
O caso começou em 2018, quando uma tia foi abordada por uma dona num shopping de São Paulo. A meliante se apresentou com um nome falso, mandou uma conversa mole e, após perceber o estado de fragilidade, passou a se aproximar mais da tia alegando que ela estava com o “coração preto” e que conhecia práticas de cunho sobrenatural capazes de promover uma “purificação”.
Estes “rituais de purificação” duraram entre novembro de 2018 e janeiro de 2019, em que a família inteira da golpista participou. Pai, mãe, filhos e nora, um verdadeiro consórcio do golpe, um empreendimento familiar que prova que o brasileiro não empreende só em food truck, mas também em fraude mística de alto padrão. Se o crime tivesse CNPJ, eles já estariam emitindo nota fiscal e oferecendo programa de fidelidade, com cashback.
Mentira. Nem empresa legalizada mete nota fiscal.
No ritual, a tia tinha que levar dinheiro em espécie, joias, celular e até o ar-condicionado (coloque quantas exclamações quiser) para que tudo fosse incinerado e ela se desfizesse daquilo que estava fechando os caminhos dela ou sei lá qual merda que falaram pra ela. Obviamente, os sacripantas não queimaram nada.
O mais saborosamente trágico? Depois de queimar simbolicamente um quarto de milhão de reais, a depressão continuou intacta. Que surpresa! Quer dizer que transformar dinheiro em cinza não consta nas diretrizes da OMS como terapia validada? A ficha só caiu quando o milagre falhou, e a tia só notou a farsa quando se deu conta que, apesar dos rituais, a apatia e o quadro depressivo não cessaram. Se de alguma forma ela tivesse melhorado, estaria pagando feliz até hoje.
Aliás, eu fico pensando em quem vai 10, 15, 20 anos no psicólogo e nunca fica curado. Não vejo nenhuma diferença de quem fica ouvindo suas bobagens sem dar algum tratamento específico e um charlatão com rituais mágicos, mas que sei eu? Deve ser o meu. Tcharaaaaaan, Ceticismo.
Por fim, o Tribunal de Justiça de São Paulo condenou cinco pessoas da mesma família por estelionato. A Defesa tentou fazer o melhor e o juiz não caiu na baboseira. Mas, claro, vamos ser honestos e admitir que isso foi rápido porque a tia tem dinheiro, já que ninguém se desfaz dessa grana toda sendo pobre (acho até que a PF e a Receita deveriam investigar a origem deste dinheiro. Só falando, ok?).
Então, Fika Dika: Se alguém no shopping disser que seu coração está preto, não marque consulta. Marque distância. E se pedirem um quarto de milhão para curar sua alma… o único espírito presente ali é o do golpe.
Fonte: G1

Um comentário em “Família que dá golpe unida permanece unida na cadeia”